Pirueta: um artista em decadência

Peça teatral “Pirueta ou o último grito de Isaac Ivanovitch” estreou na última sexta-feira, 10, no Teatro Sesc Tijuca, apresentando críticas sociais e reflexões sobre o ser humano

A peça teatral Pirueta ou o último grito de Isaac Ivanovitch, estreou na última sexta – feira, 10, no Teatro Sesc Tijuca, apresentando inúmeras críticas sociais e reflexões sobre o ser humano. Com texto de Jason Prado, o monólogo é encenado pelo ator Paulo Giannini que dá vida ao palhaço Pirueta.

Na Trama, Paulo interpreta o ator Isaac Ivanovitch, que nunca conseguiu estrelar uma novela ou filme. Sua única realização artística era o palhaço Pirueta. Infelizmente, ele perde o emprego e começa a refletir sobre sua vida e a sua falta de prestígio profissional.

“Num momento como esse, que a gente está vivendo uma dificuldade imensa de produzir, fazer teatro, estar no palco. Fazer esse espetáculo é muito interessante exatamente porque fala disso. Uma pessoa que está saindo, está sendo retirada da sua profissão”, comenta o ator Paulo Giannini.

A peça apresenta diversos momentos hilários. Paulo conta inúmeras piadas e até interage com o público. No entanto, segundo o ator, o espetáculo não consiste somente em levar a plateia a gargalhar.

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A peça fica em cartaz no Teatro do Sesc Tijuca até o dia 2 de Junho. Foto: Divulgação/Pirueta

“Há o palhaço, há a brincadeira, mas, ao mesmo tempo, é muito trágico o final de carreira. Ao mesmo tempo, não é só o palhaço, é um homem comum. Quando se chega aos 60, 70 anos não tem jeito, tem que ficar dependendo de todo mundo”, declara Giannini.

Paulo ainda comenta a dificuldade em ser um artista no Brasil, algo muito abordado na peça.

“Nesse momento no Brasil está muito difícil. As pessoas pensam que cultura não é gênero de primeira necessidade, e é! A gente precisa de subjetividade, o povo precisa de subjetividade, e o teatro, o circo, o cinema, o entretenimento traz isso”, finaliza o ator.

A peça conta com a direção de Ana Velloso e Rogério Freitas. Está em cartaz no Teatro I Sesc Tijuca até o dia 02 de Junho, de sexta a domingo, às 20h.


Gabriel Murillo Monteiro – 6º Período

Cada vez mais tem crescido o número de crianças interessadas em teatro

Por Gabriel Murillo Monteiro

“Tem gente que nasceu para brilhar: é o caso da querida Larissa Manoela”. Com essa frase, o ator e diretor Selton Mello aplaude o talento da atriz. A jovem faz parte de um grupo de artistas que começaram a atuar muito cedo. “Sempre gostei do meio artístico, desde pequenininha. Gostava de desfilar na minha casa com as roupas da minha mãe e de tirar fotos”, declara a atriz. Seu primeiro trabalho foi aos seis anos. Atualmente, aos 17, ela não pretende parar tão cedo. “Atuar desde criança é uma grande realização. Tive que correr atrás, nada foi fácil, mas o trabalho sempre foi uma diversão para mim”.

Assim como Larissa Manoela, há crianças que sonham estrelar peças, filmes e novelas. Já outras são incentivadas pelos pais, por terem um talento nato. Foi o que aconteceu com Malu Rodrigues. A jovem de 25 anos começou a trabalhar quando era apenas um bebê. “Eu era um neném muito bonitinho, por isso minha família me levou para uma agência. Fui crescendo fazendo teatro. Tudo aconteceu naturalmente, eu me apaixonei pelos palcos”. A atriz comenta que crescer no meio teatral chegou a ser desgastante, mas divertido. “Tive de abdicar de algumas atividades. Não pude ir a muitas festinhas de 15 anos, mas tudo sempre foi muito gostoso. Para mim, não era um trabalho e, sim, uma brincadeira”.

Malu Rodrigues se apaixonou por Artes Cênicas quando estrelou o musical A Noviça Rebelde. Da mesma forma ocorreu com Larissa Manoela. Hoje, dez anos depois, ambas retornam à peça, tornando-se inspiração para as crianças que atuam no espetáculo. É o que diz a pequena Duda Batista, de sete anos. “Acho Malu Rodrigues e Larissa Manoela muito talentosas. Quando crescer, quero ser como elas”. Mesmo tão jovem, a menina já participou de diversos trabalhos artísticos. “Quando eu tinha uns quatro ou cinco anos fiz um comercial. Depois, fui fazendo algumas peças de teatro. Logo, fui virando uma atriz”.

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Os pequenos Duda Batista, de 7 anos e Thiago Henrique, de 12, mesmo tão novos, esbanjam talento Foto: Richard Aguiar

Thiago Henrique, de 12 anos, que interpreta o personagem Kurt no musical, compartilha o mesmo sentimento. “Sempre gostei muito de teatro. Se der certo, pretendo viver disso, porque eu adoro”. Assim como Thiago e Duda, muitas crianças têm se interessado pela arte, é o que indicam os dados da Escola de Atores Wolf Maya. Por ano, cerca de 30 a 40 crianças ingressam em cursos de atuação.

A professora de teatro Ana Priscilla Lacerda comenta que novelas infantis e programas como The Voice Kids têm atraído crianças para os palcos, principalmente para o teatro musical. Além disso, ela acredita na importância das aulas teatrais para o público infantil. “Para o crescimento da criança é importante atividades que promovam a socialização, o trabalho em grupo, que podem ensiná-las a ter responsabilidades desde cedo. O teatro faz bem isso”.

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As crianças do musical A Noviça Rebelde em um dos ensaios da peça Foto: Richard Aguiar

Esse crescimento se deve, também, ao fato do palco ser visto pelos pequenos como uma nova forma de diversão. É o que relata o diretor e professor teatral Felipe Coelho. “A criança, sem perceber, faz teatro nas suas brincadeiras, criando realidades de forma verdadeira. Quem nunca brincou de médico ou de polícia e ladrão?”. Ele também defende que todas as pessoas deveriam ter aulas de encenação desde a infância. “Quanto mais cedo o contato com as linguagens artísticas, mais sensibilidade e empatia o ser humano terá”.

O teatro é uma ferramenta artística que pode trazer benefícios para o ser humano como alegria, diversão e sonhos, portanto, incentivar a prática em crianças torna-se fundamental. Como dizia o filósofo Arthur Schopenhauer: “Não ir ao teatro é como fazer a toilette sem espelho”.

 

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Reportagem produzida para a disciplina de 5º período Projeto Interdisciplinar em Jornalismo Impresso

“O Trem das Vidas”, peça com ex-alunos da UVA, estreia dia 6 de abril, sexta-feira

Estreia este fim de semana, no Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande, “O Trem das Vidas”, primeiro projeto solo do P.A.P.A. (Pensando Alto Produções Artísticas), que conta com dois ex-alunos da Universidade Veiga de Almeida: os jornalistas Raphael Abreu e Aline Trevas, autora e diretora da peça. A narrativa acompanha quatro viajantes do tempo-espaço — um simpático bilheteiro (Eduardo Doria), uma dama elegante (Khrysley Santos), um cavalheiro distinto (Raphael Abreu) e uma jovem moça (Aline Trevas) — que se encontram em uma “estação do trem da vida”. Juntos, eles discutem escolhas, julgamentos, preconceitos e a forma como essas ações nos impactam.

Inspirada na obra “O Livro das Vidas – Obituários do New York Times“, organizada pelo jornalista Matinas Suzuki Júnior, a leitura foi indicação da professora Sandra Machado durante a faculdade. A ideia era adaptar para o palco alguns contos do livro, mas devido à falta de identificação com a realidade dos EUA, a solução foi contar histórias brasileiras reais e conhecidas da criadora. O resultado são 80 minutos de uma comédia dramática, na qual os quatro atores interpretam 33 personagens em uma transformação aos olhos da plateia. “Queríamos fazer algo só nós quatro e essa foi a saída. Agora estou proibida de escrever qualquer texto no qual tenhamos que trocar um chapéu”, brinca Aline.

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Khrysley Santos: “Aqui é o nosso lugar favorito, o palco” Foto: Andressa Gabrielle / Agência UVA

A bordo desse trem há um ano e meio, o grupo ensaiou semanalmente, mesmo antes da seleção pelo Edital de Ocupação da Fundação Anita Mantuano de Artes do Estado do Rio de Janeiro (Funarj). “Nosso pensamento era: quando nos chamarem, precisamos estar prontos”, conta Khrysley. Apesar dos mais de 10 anos de experiência teatral de cada um, essa é a primeira vez que criam um espetáculo do zero. “Estamos aprendendo todos os dias”, comenta Doria. Um dos desafios é a falta de patrocínio, por isso foi preciso uma dose de improviso criativo, com as roupas da própria Khrysley, que montam a maioria dos figurinos, e as malas antigas, garimpadas em locais como a Feira de São Cristóvão.

Há mais maneiras de lidar com os custos de montar uma peça, como através de financiamento coletivo. A campanha do P.A.P.A. na internet aceita colaborações a partir de R$ 10. As recompensas incluem agradecimentos, descontos, brindes e a experiência de assistir o show do palco. Pode-se ainda participar de sorteios. Além disso, acordos de divulgação com algumas empresas também os ajudaram a sair da estação. Outra parceria da produção é com a Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos (Apada), em que 25% dos ingressos do último dia de cada temporada serão destinados a pessoas com deficiência auditiva, em uma apresentação com um intérprete de Libras.

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P.A.P.A. reunido na pré-estreia do “O Trem das Vidas” Foto: Andressa Gabrielle / Agência UVA

Criada em 2015, a produtora teatral esteve presente em eventos como o I Dia de Transformação Cultural e Democrática, IV Encontro Internacional de Teatro Comunitário do Rio de Janeiro e o I Festival de Esquetes do Tijuca Tênis Clube, no Teatro Henriqueta Brieba, com o trabalho “O Caminho pra Glória”. Já os projetos futuros abrangem o lançamento on-line dos contos extras em vídeo, a adaptação do musical “Nós” — sua primeira obra textual — em um longa-metragem e a passagem do espetáculo por outros bairros do Rio de Janeiro e cidades. “A ideia é fazer esse trem viajar”, revela Raphael.

“O Trem das Vidas” estará em cartaz de 6 a 15 de abril, no Teatro Arthur Azevedo, Rua Victor Alves, número 454, em Campo Grande, e de 18 a 27 de maio, no Teatro Armando Gonzaga, na Avenida General Osvaldo Cordeiro de Faria, 511, em Marechal Hermes. As sessões serão às sextas e sábados, às 20h, e aos domingos, às 19h. Os ingressos custam R$ 20 a inteira e R$ 10 a meia. Há também a meia-entrada solidária, por meio da doação de um quilo de alimento não-perecível ou de ração para cães ou gatos. A classificação é de 14 anos.


Andressa Gabrielle – 7º Período

Novos tempos, velhas críticas

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Cartaz da Peça [Cortesia da Produção]

A CAL (Casa das Artes de Laranjeiras), uma das escolas de artes cênicas mais renomadas não apenas do estado do Rio de Janeiro, mas do país, resolveu trazer para este mês uma das peças mais tradicionais e históricas da dramaturgia brasileira. O desafio da instituição para profissionalizar os atores da casa é a montagem de “A Ópera do Malandro”, um clássico de Chico Buarque de Holanda que expõe a hipocrisia da sociedade carioca, tendo como pano de fundo a boemia da Lapa dos anos 40.

A Ópera do Malandro é uma peça do gênero musical escrita por Chico Buarque de Holanda, em 1978, e foi dirigida primeiramente por Luís Antônio Martinez Corrêa. As fontes de inspiração para Chico Buarque foram A ideia de escrever uma adaptação para os clássicos Ópera dos Mendigos, de John Gay, e A Ópera dos Três Vinténs, de Bertolt Brecht e Kurt Weill. Todos espetáculos que abordam o cotidiano, mas de pessoas que fazem parte de um ciclo e esse ciclo é criticado de forma bem irônica e direta.

Uma das atrizes da recriação da ópera é Moira Osório, que destacou a relevância da peça e sobre essa recriação que por sinal tem seus espetáculos gratuitos e em cartaz na escola pelos dias 10, 11 e 12 deste mês de maio das 10 às 12 horas. “Para mim, não há momento melhor, politicamente falando, para essa peça estar sendo remontada. Na verdade, não se trata só da política, mas da condição humana e da condição do cidadão brasileiro e sua cultura”.

Estas palavras vieram por conta da identificação da jovem com a peça. “Ela fala sobre esse Brasil nosso de cada dia, das grandes corrupções e das nossas pequenas corrupções. Fala sobre a exploração do homem pelo homem, abuso sexual, prostituição, diversidade sexual, trabalhos análogos à escravidão, a corrupção da polícia e principalmente dos “Malandros”, que na verdade, somos todos nós, que dê alguma forma, sempre arranjamos um jeitinho pra sairmos ganhando. E completa “A peça foi escrita em 1978, mas é ainda, do começo ao fim, um retrato ‘nu e cru’ da nossa sociedade”.

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Moira Osório [foto: Arquivo Pessoal].

Moira afirma que a peça segue atual e necessária para vir à tona. “Sim, e pelo andar da carruagem, sempre será. Essa peça foi escrita há 40 anos e ainda hoje lutamos e reivindicamos pelas mesmas coisas.  Na cena final da peça, ocorre uma passeata de “1° de maio” q antigamente era chamada de desfile. Envolvia grandes multidões dentro de estádios. E a minha personagem tem o seguinte texto: “ vai levar meio século para essa gente se juntar de novo e levantar a voz, porque a multidão não vai estar abafada, nem tiranizada… A multidão vai estar seduzida”. A atriz contou que por conta de agendas e compromissos da escola, a peça foi montada de maneira corrida e em apenas um mês tudo ficou pronto.

Quanto a uma novidade que possa diferenciar a peça das outras releituras, a atriz falou sobre o teatro nunca agregar somente a obra final que é a peça. “É um processo de formação do ser humano, de caráter, de princípios, de senso de coletividade, é um eterno autodescoberta. O que a CAL traz de novo e principal para essa peça na verdade é o casting. Somos a nova geração chegando com valores lúcidos para passar uma mensagem que faça o espectador refletir, se emocionar e quem sabe até, faze-lo sair da postura de espectador de tudo isso que vem acontecendo e torna-lo mais ativo na sociedade ou pelo menos no seu meio de convívio”.


Roani Sento Sé – 7º Período

Além do horizonte

Na última quinta-feira, 6, o auditório da Universidade Veiga de Almeida foi palco de um momento especial para os colaboradores da instituição. Em um clima fraternal, todos os presentes tiveram o privilégio de assistir à peça teatral “Navegar É Preciso”, escrita e estrelada pelo ator luso-brasileiro, Tony Correia. O ambiente foi harmônico, de muita interatividade e fez jus à proposta do evento, que contou ainda com a presença de gestores e coordenadores das Secretariais de Educação do Município e do Estado.

O espetáculo conta a história de grandes viajantes portugueses, que, incorporados pelo espírito de equipe, liderança e solidariedade, desbravaram mares até então desconhecidos. A peça é um incentivo à prática de conceitos necessários para todas as pessoas que desejam crescer na vida e desenvolver grandes projetos. Ela destaca, principalmente, a importância da troca de conhecimentos e a necessidade do indivíduo de persistir para alcançar os objetivos com os quais sonha.

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Tony Correia em cena [foto: Leonardo Marques/Agência UVA].

Para enriquecer a temática, o ator cita os feitos marcantes na história das grandes navegações, bem como na vida de seus respectivos navegadores. Além disso, ele relata o quanto o espírito de determinação é, desde os primórdios, extremamente necessário. “Quando os ventos traziam aquelas nuvens que escureciam o céu, em meio as tempestades, por qual motivo nenhum deles desistia? A resposta é: Navegar é preciso, no sentido de transformar uma tarefa em missão”, afirma.

Vasco da Gama, Cristóvão Colombo e Fernão Dias, personalidades da tradicional Escola de Sagres e idealizadores das rotas de grandes descobertas, são os nomes de maior importância exaltados durante a narração. Tony busca enfatizar o quanto essas lideranças foram perseverantes e importantes para a história das conquistas portuguesas e de toda a humanidade.

Com lirismo, musicalidade e poesia, o espetáculo expõe as lágrimas e os sofrimentos de todos os que embarcaram dentro das naus, durante a busca de Portugal por novas terras. Ao declamar poemas de Carlos Drummond Andrade, Fernando Pessoa e Luís de Camões, sob o ritmo de belíssimas músicas eruditas, o ator faz o espectador perceber que o amor e a bondade são a base para tudo. Mesmo na hora de muita dor, todos podem vencer. Ao final, essa é a maior lição que o público pode extrair da peça.


Leonardo Marques – 8º Período

A louca amizade

A última quinta (23) guardou muitas emoções para quem visitava o CCBB-RJ. Logo na entrada do centro cultural, o clima que pairava entre os presentes já indicava que bons ventos estavam por vir. Tudo isso para ver a peça “Sobre Ratos e Homens”, escrito por Joh Steinbeck. Que traz Ricardo Monastero, como George, e Ando Camargo, como Lennie. A peça foi idealizada há quatro anos por Ando e Ricardo que conseguiram convencer Kiko Marques a fazer a direção. A história sobre George e Lenin se passa nos EUA em 1937, época em que houve a grande depressão e trabalhadores se viravam para conseguir o ganha-pão. Se fosse fazer um paralelo ao Brasil seria o equivalente a uma época após a abolição da escravatura, quando Princesa Isabel assinou a lei Áurea.

O que deixa a peça tão intensa é tratar de problemas que ultrapassaram décadas, e até séculos. Preconceito racial claramente focado aos negros, aos idosos, as mulheres e seu papel na sociedade etc. A obra é atual, explora o individualismo, onde a preocupação geral é o eu. Após a apresentação inicial de George e Lenin, o que parecia é que dois tipos de personagens caricaturais iam ser explorados: o magricela inteligente e boa praça, e o gordinho forte, típico homem armário com atraso intelectual e uma tremenda ingenuidade. Mas, para a surpresa de todos, foi mostrado que a peça tem um algo mais.

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Elenco da peça “Sobre Ratos e Homens” [foto: Roani Sé/Agência UVA].

Era uma relação de amizade e sonho, que de tão suave, logo se ganha um peso mais claro no decorrer da peça. O que o espectador deve ter em mente é que a trajetória dos dois amigos é uma parte do conteúdo arquetípico que forma tanto os indivíduos quanto a sociedade. Em novo ato foram apresentados os outros componentes do elenco – que, por sinal, foram escolhidos, se não a dedo, com um senso correto de que ator interpretaria qual personagem. E eles se saíram tão bem representando os respectivos papeis, que não houve um que se destacasse dos demais. Na verdade, o desempenho deles foi afiado a ponto de a plateia não escolher um personagem preferido.

Em termos de cenário – mediante as limitações que se tinha, devido ao baixo custo de produção –, todos os espaços de palco foram muito bem ornamentados, a estrutura cênica realmente poderia ser ligada a de uma fazenda. Até nos momentos em que faltava espaço, como cena do quarto de Crooks, os atores se espremiam para ficar todos juntos, mas conseguiam manter a boa estética da apresentação. O momento chave da peça é certamente a conversa de Lenin e a encantadora Whit, de Natália Rodrigues, o ato que procedeu a essa cena surpreendeu e emocionou todos os presentes. Quem for conferir a peça “Sobre Homens e Ratos” sentirá na pele como uma sociedade preconceituosa tratava seus semelhantes. Uma experiência que agrega muito para a vida de todos.


Roani Sento Sé Santos- 7º Período

Braguinha para as novas gerações    

Considerado um dos compositores Brasileiros de mais tempo em atividade, a história de Braguinha está de volta em curta temporada no musical infantil “O Menino das Marchinhas – Braguinha para Crianças”. A peça celebra as 10 indicações ao Prêmio CBTIJ de Teatro infantil de 2016, que tem como objetivo reconhecer todas as atividades profissionais de artistas e técnicos de espetáculos feitos para o público mais novo. O espetáculo é encenado no Anfiteatro do Morro da Urca, e faz parte do projeto ‘Grandes Músicos para Pequenos’, que apresenta nomes importantes da cultura brasileira para as crianças, em forma montagens que mesclam biografia e canções de um artista escolhido.

Baseado em trechos da juventude do compositor Braguinha, o espetáculo utiliza músicas como “Pirulito que Bate Bate”, “Cantores de Rádio”, “Chiquita Bacana”, “Carinhoso”, “Piratas da Perna de Pau”, entre outros sucessos para transportar os espectadores para os divertidíssimos carnavais de rua da capital fluminense de 1920. E, tem como resultado, um programa alegre que atrai a todos. “É muito legal vermos diversos tipos de família vindo nos assistir. Pessoas mais velhas, crianças e idosos vindo curtir as músicas que eles gostam(…) É realmente para todas as gerações. Um trabalho de qualidade como o de Braguinha ultrapassa classificação etária”, completa o roteirista e ator Pedro Henrique Lopes.

O roteiro escrito por Pedro conta a história de Carlinhos, um garoto que ouvia música a todo instante. Seu pai, Sr. Jeronimo, não era a favor das inclinações sonoras do menino, mas a avó, D. Isaura, sempre o estimulava. Contando com o apoio de alguns amigos de escola, Carlinhos começa a criar belas canções para o carnaval da cidade. No que diz respeito a trama, D. Maria Cecília Braga – filha do compositor Braguinha – completa afirmando que “eles souberam contar tudo que era do meu pai. As musicas foram muito bem escolhidas, então eu achei esse espetáculo maravilhoso, me lembrou ao meu tempo de criança”.

“O Menino das Marchinhas – Braguinha para Crianças” é o segundo espetáculo do projeto “Grandes Músicos para Pequenos”. A história leve traz a tona temas como o valor da família e da amizade. “A gente tenta levar a cultura brasileira e resgatar isso para as novas gerações através da arte e do entretenimento. Para nós é muito importante que as pessoas tenham essa noção também”, finaliza Pedro Henrique Lopes, que também é um dos sócios da Entre Entretenimento, produtora cultural responsável pelo sucesso do Espetáculo.

Um dado interessante é que a glória da peça “Luiz e Nazinha – Luiz Gonzaga para Crianças” inspirou a criação de “O Menino das Marchinhas – Braguinha”. O espetáculo está em cartas até o dia 09 de abril, com apresentações todo Domingo, às 11h. O feedback recebido pelos organizadores está tão bom, que eles já anunciaram um novo musical para outubro deste ano. Trata-se de “Bitura – Milton Nascimento”, também voltado para o público infantil. Resta, agora, esperar por esse mais novo sucesso.


Martina Orlandini – 3o período

Dramaturgia em foco

Na última quinta, dia 24, um novo evento começou a agitar a Zona Portuária do Rio. Trata-se da primeira edição da LER – Salão Carioca do Livro, realizada nos Armazéns Dois e Três, no Píer Mauá, no centro da cidade. Os dois primeiros dias da convenção tiveram as atividades focadas na dramaturgia. A LER conta com diversas atrações para agradar a todos os públicos, desde o infantil até os idosos, de frequentadores assíduos de teatro até os fãs mais fanáticos das franquias que povoam o universo Geek. O evento ainda conta com a participação de autores consagrados e novatos, convidados para debates e tarde de autógrafos, além de stands de diversas editoras com livros autografados.

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Hall dos Grandes Autores. [foto: Daniel Deroza/ Agência UVA],

No primeiro dia da convenção, um dos momentos mais esperados pelos presentes era a conversa com a novelista Cláudia Solto, que está escrevendo a próxima novela das sete da Rede Globo, “Pega Ladrão”. A autora falou um pouco sobre a carreira e métodos de trabalho. Cláudia, que estudou teatro na Itália, iniciou o trabalho em televisão, já como roteirista, no começo dos anos 90 escrevendo para o programa cômico “Casseta & Planeta. A escritora admitiu ser noveleira desde criança, mas que o ofício de planejá-las sempre lhe pareceu muito distante.

Porém, segundo Cláudia, após uma experiência em especial, o desejo de escrever para uma das principais formas de entretenimento popular do Brasil surgiu. “Foi quando eu fiz um reality show, que é uma coisa que eu não desejo nem para o meu pior inimigo, porque é de enlouquecer”. Durante 15 anos de trabalho na emissora global, ela passou por quase todo tipo de programa: infantil, comédia, enquetes, realities, auditório, séries dramáticas e sitcoms – a escritora contribuiu em programas de sucesso, como “Sai de Baixo” e “S.O.S – Emergência”.

Até que, em 2007, o novelista Walcyr Carrasco a chamou para ser colaboradora da novela que ele escrevia na época, “Sete Pecados”, que estava sofrendo com a rejeição do público e teve de alterar os rumos da história. Para isso, Carrasco contou o já famoso timing cômico de Cláudia. Após esta primeira relação, a dupla já trabalhou junta em mais duas novelas – “Caras e Bocas”, em 2009, e “Morde e Assopra”, em 2011. E já, com mais experiência no ramo, em 2012, Cláudia resolveu apresentar à Direção de Dramaturgia da Globo uma sinopse original para o horário das sete. Para a alegria de Solto, o argumento foi aprovado e a novela irá ao ar em 2017.

Quando perguntada se as novelas correm algum perigo com a popularização das séries de TV, Cláudia é categórica: não. “Houve um casamento entre a novela e a série. A novela pegou para si algumas características da série, como o dinamismo, e a série pegou algumas características da novela, como o arco dramático, os ganchos. Nas séries dos anos 70, 80, como “As Panteras”, contavam uma história por episódio, os personagens não eram desenvolvidos ao longo de uma temporada. Então, está acontecendo uma troca muito benéfica”.

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Júri do Prêmio Cesgranrio de Teatro no debate. [foto: Daniel Deroza/Agência UVA].

Já no segundo dia do evento, um debate polêmico lotou o espaço Cesgranrio de Roteiro e Dramaturgia. Trata-se da “Discussão Sobre o Panorama Atual do Teatro Carioca, com o Júri do Prêmio Cesgranrio de Teatro, que possui nomes de peso, como a premiada atriz e diretora francesa, naturalizada brasileira, Jacqueline Laurence, e a crítica teatral Tânia Brandão. O principal tema do debate foi a perda de espaço teatrais no Rio de Janeiro. “Antigamente, o Rio tinha 7, 8, grandes teatros. Eu publicava uma média de seis críticas por semana. Hoje em dia, se um jornal pública uma crítica é muito”, afirma Tânia. Uma das questões levantadas pela audiência foi a dificuldade da classe artística se sustentar apenas com teatro.

Para a veterana Jacqueline Laurence, a resposta para esta situação é muito simples. “O teatro se desprofissionalizou. E ele tem que ser profissional. A gente não se organiza mais como se organizava antigamente por um único motivo: onde está o público? ”. Porém a resposta pareceu não agradar a plateia, que rebateu trazendo a discussão o assunto sobre a concentração de salas teatrais no Centro e na Zona Sul, o que desmotiva a população a sair de casa, fazer uma longa viagem para assistir a uma peça. Neste ponto, o debate chegou a um impasse aparentemente sem solução devido a divergência de opiniões.

Já no espaço Jardim Literário, a à triz Beth Goulart, sucesso de crítica e público com a peça “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” participou de uma conversa com o público a partir de seu trabalho na montagem teatral e do bate-papo que ela promove ao fim de cada apresentação, o que, segundo Beth, é essencial. “Eu começo falando da Literatura de Clarice, mas falo também sobre as relações humanas. O teatro é uma arte essencialmente humana. Um encontro de seres humanos que é único e pode ser eterno”.

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Beth Goulart durante palestra. [foto: Daniel Deroza/Agência UVA].

Quando perguntada sobre as viagens realizadas pelo Brasil com a peça, Beth mostrou ter uma opinião bem diferente do corpo de jurados do Prêmio Cesgranrio, que afirmou que os artistas não podem ficar “se despencando” para lugares distantes – o exemplo utilizado no debate foi Bangu – para se apresentar, na opinião do júri, o interesse tem que partir do público.

Já para Beth, que já viajou com sua peça para diversas cidades do interior – se apresentando em clubes devia a falta de uma sala de teatro – afirmou que “o dever do artista é levar a arte até o público. O artista tem que ir aonde o público está”. Como pode-se observar, nas duas ocasiões, a discrepância de opiniões de membros da classe artística e o conservadorismo das gerações mais velhas, mostra que muitos dos problemas enfrentados por ela parecem estar longe de ter uma solução, mas que isso não é motivo para desprestigiar a arte.


Daniel Deroza– 4º Período

Um gênio subjetivo

Mostra traz filmes do cineasta Atom Agoyan e vai até o dia 9 de outubro.

Nesta Terça, 27, aconteceu na Caixa Cultural a abertura da mostra do diretor Atom Egoyan, com a realidade distorcida do cinema egípcio. Suas obras já lhe renderam inúmeras premiações ao longo das últimas décadas. A peça tem como objetivo principal trazer ao público produções artísticas que promovem a reflexão e o conhecimento de novas culturas. Egoyan é um cineasta contemporâneo no cenário internacional e entre suas habilidades também incluem teatro, música e instalações de arte. Os filmes do diretor foram apresentados em inúmeras retrospectivas em todo o mundo.

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O filme “Exótica”, de 1994, abriu a mostra. A história se passa em um clube de strip-tease homônimo ao título do longa, na cidade de Toronto, no Canadá. Lá, Christina – que é uma das principais estrelas do local – faz apresentações como colegial, mexendo com o imaginário das pessoas que ali frequentam. A dançarina é a preferida de Francis, um auditor solitário que freqüenta assiduamente o local. Fazendo parte também da história contada por Egoyan, estão Eric – que é DJ e antigo namorado de Christina –, Thomas – dono de um pet shop e contrabandista de animais –, e também a proprietária Zoe.

A mostra, que vai do dia 27/9 ao dia 9/10, tem entrada franca. Ainda serão exibidos os seguintes filmes do diretor: Remember(memórias secretas), The Captive ( Á procura) Davil´s Knot ( sem evidências) , Cloe, Adoration ( adoração), Where the Thuth Lies  (verdade nua) Araçá, Felicia´s Journey( O Fio da Inocência), The Sweet Hereafter (O doce amanhã), caleandar ( calendário), The adjuster (O corredor), Speaking Parts, Family Viewing, Nest of  Kin. Todos com a excelência do cineasta.


Camila Claros- 8º período

A paixão de Clarice

Na última semana, o espetáculo “Simplesmente Eu, Clarice Lispector” voltou ao Rio para uma curta temporada. A peça, que já passou por mais de 240 cidades pelo Brasil, com mais de 800 mil espectadores, mostra de maneira poética e arrebatadora um pouco da personalidade e do processo de criação de uma das maiores escritoras da história, alternando entre a própria Clarice e algumas de suas personagens mais marcantes, como “Joana”, Lóri”, “Ana” e — talvez a mais famosa de suas criações — “G.H.”.

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O monólogo expõe o universo de Clarice, que ocupa cada canto e cada palavra do palco. A atriz Beth Goulart, idealizadora do projeto, passou dois anos pesquisando entrevistas, cartas e depoimentos para produzir a peça, que também apresenta passagens dos livros “Perto do Coração Selvagem” e “Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres”, dos contos “Amor” e “Perdoando a Deus” (da coletânea “Laços de Família”), além de referências ao romance “A Paixão Segundo G.H.” — considerado o magnus opus da escritora.

Beth Goulart, que além de assinar o texto e atuar no espetáculo também é responsável pela direção, mergulhou de cabeça na obra e no mundo de Clarice e define a experiência como transcendental. “Esse espetáculo é uma grande declaração de amor à Clarice Lispector; sou uma grande admiradora dela, me considero uma “clariciana” por ser apaixonada por essa obra dessa grande mulher”, diz Beth sobre a peça.

E tanta dedicação tem valido muito a pena. Desde a estreia da montagem, em 2008, a peça já ganhou cinco prêmios, sendo quatro deles de Melhor Atriz para Beth Goulart — também foi ganhador de Melhor Espetáculo e recebeu indicações nas categorias Melhor Iluminação e Melhor Produção. Assim como muitos, Beth diz que Clarice não se lê, é uma experiência; e, ao ler “Perto do Coração Selvagem”, aos treze anos, a identificação foi imediata.

“LIBERDADE É POUCO. O QUE EU QUERO AINDA NÃO TEM NOME”

A peça cumpre de forma sublime o seu propósito, fazendo o público chorar e rir e embarcar de bom grado pelos “corredores claricianos”, sendo conduzido pela alma inquieta de C.L. E a volta aos palcos parece ter sido providencial, já que no último ano a obra de Clarice Lispector, voltou a ser traduzida para o inglês, chamando atenção da crítica estadunidense — o The New York Times a colocou em sua lista dos melhores de 2015, a New York Book Review a estampar em sua capa e o Wall Street Journal a chamou de “a Virginia Woolf brasileira”, fazendo referência à escritora inglesa que, assim como Clarice, era obcecada em desvendar as questões da alma humana._20160314_230724

Na primeira cena do espetáculo, Beth surge no palco de costas, e, quando se vira para a
plateia, é impossível ver a atriz — só é possível enxergar Clarice. O trabalho intenso de pesquisa e preparação fez com que Beth ultrapassasse e muito o limite da “imitação”: ela se tornou Clarice num ponto em que intérprete e personagem se misturam de maneira assombrosa. Segundo Beth, a última entrevista concedida pela escritora foi fundamental para atingir este resultado. “Ali, pude perceber o tempo dela de pensar e se expressar, a voz”, ela detalha. E com esta incorporação da “aura clariciana”, Beth simplesmente domina tudo e todos durante os 60 minutos da peça.

Na última cena, numa associação entre a interpretação poderosa de Goulart e um jogo de iluminação excepcional, vê-se apenas o rosto de Clarice no palco, mesmo quando a atriz dá as costas para o público. Ao fim do espetáculo, Beth (já como si mesma) agradece ao público. “Obrigada pela presença. Obrigada pelo silêncio”, ela diz, emocionada. E um fã de Clarice entende imediatamente o que ela quer dizer. “O silêncio ao qual Clarice se refere não é o silêncio de ficar quieto. É o silêncio de saber ouvir a nós mesmos”. Uma digníssima e merecida homenagem à Clarice.

O ENCONTRO DE BETH E CLARICE

No foyer do teatro, há ainda a exposição “Entre Ela e Eu”, que conta a história de Clarice (sua chegada ao Brasil, ainda bebê) e sua jornada como uma mulher forte e à frente de seu tempo. A mostra e repleta de fotos, ilustrações e representações feitas por diversos artistas que conheceram C.L.

“É FÁCIL ME PINTAR: BASTA PÔR MAÇÃS ELEVADAS, OLHOS UM POUCO OBLÍQUOS E LÁBIOS CHEIOS. SOU CARICATURÁVEL”

– Clarice Lispector

A exposição ainda inclui um rico relato feito pela atriz Beth Goulart sobre como ela conheceu a obra de Clarice, ainda na adolescência, e como as palavras da autora a encantaram, fato que a levou a criar ambos os projetos. “Eu achava que não era compreendida. O que fazer com tudo isso dentro de mim, com esse processo criativo? Só Clarice me entendia”, conta Beth.

A mostra “Entre Ela e Eu” serve para absorver o espectador para dentro do universo de Clarice com dados biográficos, material de arquivo e trechos de textos, ambientando as pessoas por este labirinto misterioso que é a mente e a obra “clariciana”, para, enfim, invitar o espectador ao encontro de Beth, no palco. E como se tudo isso já não bastasse para envolver o público, ao fim de cada apresentação, dois livros de Lispector são sorteados à plateia. Melhor impossível.

As apresentações tiveram início no dia 10/03 e terão duas sessões extras nos dias 18/03 (sexta-feira) e 19/03 (sábado), sempre às 19:30, no Teatro SESI Centro, ou seja, ainda dá tempo de conferir este trabalho incrível. A exposição “Entre Ela e Eu” é gratuita e os ingressos para a peça custam R$40,00.


Daniel Deroza – 3º período