Dia nacional do Cinema Brasileiro e o resgate ao Cinema Novo

Neste sábado, 5 de novembro, será comemorado o Dia do Cinema Brasileiro. O período presta homenagem a primeira exibição cinematográfica pública do país, realizada em 1896, no Rio de Janeiro. Entretanto, há contestações acerca desse período. A primeira data elegida foi o dia 19 de junho, em consequência do que seria o primeiro momento em que foram capturadas imagens através da tecnologia do cinematógrafo no Brasil. A invenção do aparelho estabeleceu o início da história do cinema ao registrar uma sequência de instantâneos fixos em fotogramas, originando a ilusão de movimento que durante um determinado período se dá diante de uma lente fotográfica.

As primeiras cenas foram gravadas pelo italiano Afonso Segreto, a bordo do navio Brésil, que havia deixado a cidade francesa de Boudeaux rumo ao Brasil. O conteúdo remetia ao cenário da Baía de Guanabara. Estabelecido o início de sua trajetória, o cinema nacional foi impactado por outro evento. Surgido na virada dos anos 50 para os anos 60, foi inaugurado um novo modelo de produção. A partir do encontro de jovens de formações plurais, foi elaborada a proposta de realizar obras singulares que se diferenciassem do cinema artificial e profundamente formal como as produções dos estúdios Vera Cruz, através de um olhar que priorizasse as ruas e que fosse ao encontro do povo, introduzindo novas formas de linguagem ao renovar questões estéticas e culturais do país.

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Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Walter Lima Jr., Zelito Viana, Luiz Carlos Barreto, Glauber Rocha e Leon Hirszman. [foto: divulgação].

O núcleo do movimento foi organizado em torno do trabalho do diretor Nelson Pereira dos Santos, apoiado pelas atividades dos cineastas Ruy Guerra, Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Walter Lima Jr., Zelito Viana, Luiz Carlos Barreto e Glauber Rocha. O documentarista Eduardo Coutinho, considerado uma referência na produção do gênero, entrou em contato com alguns nomes do Cinema Novo, assumindo a função de gerente de produção do longa-metragem Cinco Vezes Favela – obra dividida em cinco episódios dirigidos por Joaquim Pedro de Andrade, Leon Hirszman, Carlos Diegues, Miguel Borges e Marcos Farias.

Durante a década de 60, época das primeiras exibições dos curta-metragens Arraial do Cabo, do cineasta Paulo Cezar Saraceni e Mário Carneiro, e Aruanda, autoria de Linduarte Noronha e Rucker Vieira, o jornalista Glauber Rocha escreveu para o Suplemento Literário do Jornal do Brasil reverenciando o nascimento de uma nova geração de cineastas. É criado, então, o conceito de Cinema Novo.

Os primeiros longa-metragens tiveram origem na Bahia: A Grande Feira, de Roberto Pires; Bahia de Todos os Santos, dirigido por Trigueirinho Neto; Barra Vento, de Glauber Rocha. Esses cineastas se apoiavam na inovação e na simplicidade da linguagem, com ênfase no aspecto social. Na sequência são lançados Garrincha, alegria do povo e Porto das Caixas, de Joaquim Pedro de Andrade; Vidas Secas, sob a direção de Nelson Pereira dos Santos; Ganga Zumba, autoria de Carlos Diegues. A partir dessas obras teve início o reconhecimento internacional, determinado pela maior projeção do movimento pelo Festival de Cannes de 1964. Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha e Vidas Secas, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, se tornaram notórios mesmo sem terem vencido a premiação.

A repercussão desse acontecimento refletiu nas manchetes dos jornais brasileiros que saudaram Deus e o Diabo na Terra do Sol como o ápice do cinema brasileiro. A partir desse ponto a sociedade começou a discutir o Cinema Novo. A revolução causada pelo movimento repercute ainda hoje. “Eu acredito que o Cinema Novo revolucionou a indústria cinematográfica nacional a partir do momento em que tirou o cinema brasileiro do estúdio e levou seus instrumentos para as ruas. Foi uma ruptura muito forte naquele momento, no final dos anos 50. O cinema brasileiro é o que é hoje pelo Cinema Novo, que voltou sua atenção para o povo brasileiro e sua realidade”, revela o cineasta Eryk Rocha, filho de Glauber Rocha e autor do – recente – documentário sobre o período histórico.

O período seguinte consolida o movimento através das obras Os Fuzis, de Ruy Guerra; A Falecida, do cineasta Leon Hirszman; O Padre e a Moça,  autoria de Joaquim Pedro de Andrade; O Desafio, de Paulo Cezar Saraceni e A Grande Cidade, de Carlos Diegues. Os filmes retratam as condições precárias de vida na seca do Nordeste, as paranoias da classe média urbana, os retirantes nordestinos nos grandes centros e o posicionamento intelectual diante da ditadura militar. Com o endurecimento do regime, discursos sobre política e sociedade passam a exigir cautela, provocando uma mudança na narrativa, que assume caráter progressivamente metafórico.

Ao final da década de 60, o Cinema Novo lança uma de suas obras mais relevantes da história: O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro, de Glauber Rocha e Macunaíma, dirigido por Joaquim Pedro de Andrade. Nesse período, propõem um maior alcance com a simplicidade da linguagem e dão início a um outro estágio do cinema brasileiro, uma fase industrial formalizada com a criação da estatal Embrafilme nos anos 70.

No ano de 1969, durante o governo do general Médici, o movimento sofreu com o desmonte de sua unidade. O cinema assume então outra trajetória e encerra o desenvolvimento da linguagem autêntica, sobrevivendo do capital estrangeiro devido à falta de reconhecimento de muitos filmes, como Macunaíma. Entre 1969 e 1974 passou por um processo de diluição. Glauber Rocha declarou o fim do Cinema Novo ao jornal O Paquim, embora houvesse a produção das obras Os Deuses e os Mortos, de Ruy Guerra; O Profeta da Fome, Maurice Capovilla, e Como Era Gostoso o meu Francês, de Nelson Pereira dos Santos. E assim, um dos períodos cinematográficos mais importantes do Brasil chegou ao fim.


Laís De Martin- 8º Período

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