Encontro de calouros e veteranos da música

 

Na última semana, entre os dias 07 e 09, a Fundição Progresso, na Lapa, recebeu a edição 2016 do WebFestValda, um festival de bandas independentes idealizado por Hugues Ferté, diretor geral da tradicional marca de pastilhas Valda. Tendo a primeira edição em 1992, o evento tem como objetivo dar uma oportunidade a bandas off mainstream mostrarem seu trabalho.

Ao todo, 1400 bandas se inscreveram e deste total 20 foram selecionadas para participarem da competição. Ao final do concurso a banda que ficou em primeiro lugar ganhará dez mil reais em equipamentos, o segundo lugar, oito mil reais em equipamentos e o terceiro lugar, três mil reais em equipamentos. Uma novidade desta edição é que a Sony irá ajudar os 20 grupos na produção de um EP virtual – até então, apenas o primeiro lugar tinha esta chance.

A primeira noite começou por volta das 20h com a apresentação da banda carioca Sinara, que participou na edição 2015 do festival e este ano teve a oportunidade de ser uma das bandas de abertura – um detalhe que merece destaque é que três dos seis integrantes da banda são filhos e netos do cantor e compositor Gilberto Gil. Sobre a chance de voltar ao festival como convidados, os membros do grupo afirmaram que “foi incrível”. “Nunca tivemos envolvimento com tantas pessoas, foi lindo”, comenta os integrantes.

ONZE20

Onze:20

A segunda banda a se apresentar antes do início da competição foram os mineiros da Onze:20. Antes de subirem ao palco, os integrantes do grupo destacaram a importância do WebFestValda para os grupos independentes. “É de grande importância para todas essas bandas. A gente sabe a dificuldade que é colocar o nosso som na rua”, diz o vocalista, Vitin. O conjunto, que lançou recentemente a música “Sei Que É Você”, também informou que o novo álbum deve chegar no começo de agosto.

Desde o momento em que a Onze:20 subiu ao palco, o público não conseguiu conter a animação, gritando, dançando e cantando todas as músicas, mas, sem dúvida o ponto alto da apresentação foi durante a canção “Meu Lugar”. Antes de começar a cantar, Vitin declarou: “A música que a gente vai tocar agora é uma das mais tocadas no país. Muito obrigado pela moral!”. Ao ouvir tal declaração, os espectadores já sabiam de qual música se tratava e ovacionou a banda. Ao fim do show, os integrantes ainda pegaram os celulares de pessoas da plateia para tirar selfies, levando as pessoas à loucura.

Antes da abertura do concurso, a apresentadora Pamella Rencho, lembrou que o público pode assistir ao festival, em transmissão ao vivo, pelo Youtube ou pelo aplicativo do WebFestValda, onde as pessoas também podem votar em categorias especiais, como Banda Revelação, a partir do final das apresentações de sexta. Ela também informou que os vencedores de todas as categorias, inclusive a de melhor cantor e o prêmio da Rádio Cidade serão anunciados na final do festival, no fim de semana.

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A competição foi oficialmente aberta com Vinny e Banda, do Rio de Janeiro, que declarou o quão bom é começar uma carreira musical em um evento como o WebFestValda. Vinny animou a plateia logo de cara com seu toque soul do clássico da música popular brasileira “Flor de Lis”, de Djavan. Assim que os primeiros versos da canção foram cantados, várias pessoas que haviam aproveitado o intervalo de desmontagem do palco para dar uma volta pela Fundição voltaram correndo para a pista para aproveitar o som.

A segunda apresentação da noite foi de Laura Januzzi, de Juiz de Fora, que se subiu ao palco cantando músicas desconhecidas do grande público, mas que animaram a audiência por terem um tom absolutamente brasileiro, que lembra até algumas das obras produzidas pelo Movimento Tropicalista. E a banda de Vinny não foi a única a escolher um clássico de Djavan para se apresentar. O grupo catarinense Karibu levou para o festival sua versão da canção “Sina”, uma das mais regravadas do cenário musical brasileiro.

Ao longo da noite, muitas outras bandas se apresentaram, fazendo de tudo para estarem entre as cinco selecionadas para a grande final, no sábado. Teve o rock caipira e totalmente acústico de Doutor Jupter, de Mairiporã (SP), o rock bem humorado e cheio de duplo sentido da Acústicos & Calibrados, de Bauru (SP), o rock psicodélico da recifense Semente de Vulcão, que é visivelmente uma das herdeiras da icônica Secos & Molhados, liderada por Ney Matogrosso.

Teve ainda a boy band carioca Cadillac S.A., que animou o público com um duelo entre gaita e guitarra, a paulistana Periferia A Massa, que trouxe uma mistura dos “ritmos periféricos” como samba, funk e soul e ainda botou a plateia para dançar ao som do hit “Uptown Funk”, de Bruno Mars; os meninos da banda carioca Cabelera, que fizeram um mix de pop, rock, black music, R&B e reggae. Mesmo com tanta diversidade e alegria, o grupo que mais agitou a audiência foi a girl band Donna Duo, que veio direto do sul para mostrar o que é o empoderamento feminino: o público não conseguiu ficar parado quando a potente vocalista Dani Zan cantou os primeiros versos de “Pagú”, de Rita Lee.

No entanto, para a decepção do público, ao final das dez apresentações da primeira noite, quando o diretor geral da Valda, Hugues Ferté anunciou as cinco bandas selecionadas pelos jurados, as meninas da Donna Duo não estava na lista, que era composta por Cadillac S.A., Doutor Jupter, Karibu, Periferia A Massa e Semente de Vulcão.

Criolo 3

Criolo

Após o anúncio das finalistas, começou o show mais aguardado da noite: Criolo. Antes de subir ao palco, o cantor declarou que o rap é transformador, “é uma escola”. Criolo também destacou a importância de eventos como o WebFestValda. “É bom, quanto mais [festivais], melhor, mais música”, comenta o artista. O público foi ao delírio quando ele subiu ao palco para realizar mais uma apresentação inesquecível, com muita interação com a plateia e com músicas de forte cunho social e político. “Não há mais espaço para repressão”, afirma o paulistano, durante a canção “Sucrilhos”, afirmando que ninguém deve ser julgado por cor, religião, orientação sexual, etc.

A apresentação de Criolo ainda rendeu o momento mais emocionante na noite, perto do fim do show. “A próxima música é dedicada a uma jovem linda, cheia de luz. Dedicamos em alma, em essência, porque essência é o que fica. Dedicamos à Bárbara Rosa”, declara o cantor, fazendo referência à backing vocal da banda Liniker e os Caramelows, que faleceu no final de junho em decorrência de um câncer.


Rock e rap marcam o 2º dia

O primeiro grupo a subir ao palco no segundo dia de evento foi Karamujos, o qual agitou o público que já começava a ocupar a pista da Fundição a fim de garantir um bom lugar para assistir às apresentações anunciadas para o festival. Às 22h, após da apresentação da primeira banda de abertura, foi a vez da Cone Crew Diretoria, que anunciou que o novo trabalho, “Bonde da Madrugada – Parte 2”, será lançado ainda este ano e contará com a participação de artistas como Mister Catra e Shawlin.

Cone Crew Diretoria

Cone Crew Diretoria

Antes de os componentes do grupo entrarem no palco, foi apresentado no telão um vídeo de introdução – com a participação do ator Sérgio Loroza – para colocar a plateia no clima da apresentação “Bonde da Madrugada – Parte 1”. Quando a banda surgiu no stage, a audiência imediatamente os ovacionou, praticamente clamando por muita música. O show da Cone Crew, é claro, teve muita improvisação dos integrantes, que deixaram evidente a posição sobre assuntos atuais e de interesse da população – como, por exemplo, no momento em que foi incluído um protesto contra o ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, que renunciou ao cargo esta semana.

Após os dois shows de abertura, o público pode conferir as apresentações das dez bandas que competiam pelas cinco vagas na final de sábado. A primeira a se apresentar foi a paulistana Bloco ou Banda ou Coisa Parecida, que com um nome tão intrigante quanto sua apresentação, que mistura vários ritmos brasileiros, animou a plateia logo que começou a primeira das duas músicas apresentadas.

Logo em seguida, depois da rápida remontagem do cenário, foi a vez da carioca Foliões Overdrive contagiar o público com seu rock agitado. A música autoral cantada pelo grupo foi “1984”, claramente inspirada no clássico homônimo da literatura mundial escrito por George Orwell. “Essa música fala sobre a busca pela identidade, sobre a gente se desprender das amarras sociais”, explicou o vocalista, Renan Stael.

Após a Foliões deixar o palco, as irmãs Laura e Luísa – da banda de mesmo nome – mostrarem o trabalho, o qual chamou a atenção do público por se prender às raízes da música brasileira, uma vez que a dupla iniciou sua apresentação com uma nova roupagem da internacionalmente conhecida “Tico-Tico no Fubá”. Inicialmente, a plateia estranhou o repertório escolhido pelas cantoras, mas logo se rendeu ao talento das irmãs.

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Após as gêmeas idênticas se apresentarem, os rapazes da Hey Joe, que vieram direto da cidade de Leopoldina (MG) para o WebFestValda, envolveu a audiência com as canções calmas e melódicas – com um toque de reggae romântico –, fazendo muitos dos casais presentes cantarem junto com a banda, que deixou o palco sob os gritos de “Já ganhou! ”. Mais tarde, depois da meia-noite, foi a vez de KeL do Nascimento, que afirmou que gosta de tratar de temas leves em suas apresentações e, por isso, resolveu apresentar um cover da música “Felicidade”, de Seu Jorge, que participou da gravação do último trabalho dela.

A paraibana Mafiota, da cidade de João Pessoa, animou a plateia com seu estilo irreverente que mistura diversos ritmos, desde o Funk-Soul até o Brega, passando, inclusive, pelo rock mais pesado. Em seguida, a banda de Brasília, Consuelo, pôde mostrar seu trabalho, fortemente influenciado pela música latina, dando um toque mais dramático à apresentação.

Uma das surpresas da noite, foi o grupo Levante, de Recife. A banda surgiu durante a chamada “Primavera Brasileira”, de 2013, a fim de questionar os valores da sociedade através de uma performance agressiva e arrebatadora, desde o figurino – que inclui uma inusitada maquiagem prateada – até as canções.

E as duas últimas bandas da noite tinham pontos em comum: ambas eram do Estado de São Paulo – uma de Ribeirão Preto e a outra da capital, respectivamente – e tocam um rock pesado. A primeira a subir ao palco foi a Chavala Talhada, cujo vocalista surgiu no stage de saia – um adereço que contrasta bastante com sua aparência totalmente masculina. Em seguida, os integrantes da Plano Oito Quatro mostraram o som que sofre influência de bandas de rock brasileiros dos anos 80 e 90.

Antes do show mais aguardado da noite, o diretor-geral da Valda, Hugues Ferté, juntou-se à apresentadora, Pamella Renha, para anunciar as cinco bandas selecionadas para a final. KeL do Nascimento, Chavala Talhada, Consuelo, Hey Joe e Levante foram as escolhidas pelos jurados para se juntarem a Semente de Vulcão, Doutor Jupter, Periferia A Massa, Cadillac S.A. e Karibu – selecionadas na quinta-feira – para a grande final, no sábado.

Marcelo D2

Marcelo D2

Por volta das 2h da madrugada, todo o público da Fundição se concentrou na pista, já lotada, para assistir de perto a apresentação de Marcelo D2, que antes de subir ao palco, afirmou que estava muito feliz por participar do WebFestValda 2016. Quando perguntado sobre conselhos para bandas iniciantes, Marcelo declarou: “Os mais velhos dizem que se conselho fosse bom, não se dava, vendia. Cada artista, cada músico, tem um caminho”. Assim, D2 iniciou seu show, que incluiu seus maiores sucessos, como o hit “Desabafo” e “À Procura Da Batida Perfeita”.


3º dia: vitória da música

Depois de dois dias de evento e muita música, sábado (09) ficou marcado pelo fim da edição 2016 do WebFestValda, com as apresentações dos dez grupos selecionados e shows mais que especiais para realizar a abertura e o encerramento de um dos festivais de bandas independentes mais importante do país.

A noite começou ao som da Djambê, que em 2015 ganhou o primeiro lugar e o prêmio de Vocalista Revelação no WebFestValda com a música “Trovão”, do mais recente trabalho, “Encruzilhadas”. Após a primeira apresentação, o público começou a lotar da pista da Fundição Progresso, para aproveitar o show da Suricato, que ficou nacionalmente conhecida através do reality da Rede Globo “Super Star” e alcançou fama internacional ao ganhar um Grammy, o prêmio mais importante do mundo da música.

A Suricato se apresentou com as canções do último trabalho, “Sol-te”, e com releituras de canções de outros artistas, como “Tocando Em Frente”, de Almir Sater. E essa não foi a única surpresa do show. “Essa música, eu quero dedicar a um dos maiores ídolos que eu tenho na música e na guitarra. Nós tivemos a honra de tocar com ele, e ficamos muito felizes de ver que, hoje, ele toca essa música com o arranjo da Suricato”, anuncia o vocalista, Rodrigo, antes de iniciar “Um Certo Alguém”, de Lulu Santos. E, é claro, que a banda não poderia deixar de tocar sua regravação do clássico junino “O Sanfoneiro Só Tocava Isso”, tema de abertura da novela “Eta, Mundo Bom!”, da Tv Globo.

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Suricato

A primeira das bandas independentes a tocar na final foi a mineira Hey Joe, que iniciou a apresentação com a música “Could You Be Loved”. Após tocar a autoral “Quebra-Cabeça”, os integrantes deixaram o palco sendo ovacionados pela plateia. A segunda banda da noite foi a Doutor Jupter, que retornou com o seu “rock caipira” e sua versão de “Sobradinho”. Logo em seguida, foi a vez da Karibu – cujo nome, de origem africana, significa “bem-vindo” – que animou a audiência com o seu cover de “Sina”, clássico de Djavan. “O Djavan é um mestre da música brasileira, uma inspiração para a gente, como Milton Nascimento e muitos outros”, os integrantes contaram.

Depois, foi a vez do grupo brasiliense Consuelo, que, mais uma vez, mostrou a veia de rock influenciado pela música latina e empolgou o público com a canção “Loca”, da banda chilena Chico Trujillo, e a autoral “Pangaré”. Em seguida, a plateia pôde sentir a vibe paulistana da Periferia A Massa, com o seu cover de “Uptown Funk” e a produção própria “A Cara Da Periferia”. Em seguida, chegou a hora da também paulistana KeL do Nascimento, que já contou que gosta de abordar temas leves em seu trabalho, e, por isso, apresentou sua versão de “Felicidade”, de Seu Jorge – que participou da gravação do DVD de KeL –, e a autoral “Passarinho”, que fala sobre liberdade.

Na sequência, a pernambucana Semente de Vulcão, que com seu estilo performático, mostrou inspiração em Secos & Molhados, icônica banda liderada por Ney Matogrosso nos anos 70. O grupo intrigou o público com a canção autoral “29 De Fevereiro”, que fala sobre um homem nascido em um ano bissexto e, por isso, diz que tem apenas sete anos de idade. A oitava banda a se apresentar foi a Chavala Talhada – cujo nome curioso significa “moça bonita” no português europeu, e cujo vocalista novamente subiu ao palco vestindo uma saia longa confeccionada por sua mãe. Após o show, os membros do grupo ressaltaram mais uma vez a importância do WebFestValda como o maior festival de bandas independentes do Brasil.

Após a Chavala Talhada deixar o palco, os integrantes da carioca Cadillac S.A. assumiram posição para iniciar a apresentação. E o rock dos garotos do Rio animaram a plateia, que os acompanhou durante todas as duas músicas tocadas. E a última banda da noite foi a baiana Levante, cujas músicas possuem um forte cunho social e político. “Nome social é um direito. Respeito à democracia é um direito. Respeito às mulheres é um direito”, dizia um dos improvisos do grupo durante a música “Você Merece”, de Caetano Veloso.

O show de encerramento foi feito pela banda Paralamas Do Sucesso e a produção do WebFestValda preparou uma surpresa para o público: um vídeo da apresentação do grupo na primeira edição do festival, realizada em 1992. Assim que os versos de “Meu Erro” a plateia imediatamente começou a cantar junto com o jovem Herbert Viana. Antes dos Paralamas subirem ao palco, foram anunciados os vencedores da edição 2016.

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Paralamas do Sucesso

Andy Ferreira, da Cavilhas S.A. ganhou o prêmio de Melhor Guitarrista. Na categoria Melhor Vocalista, a vencedora foi KeL do Nascimento. A votação popular escolheu Hey Joe como a Banda Revelação. O prêmio da Rádio Cidade foi para a Chavala Talhada. O terceiro ligar ficou para Levante e o segundo para a Periferia A Massa. A primeira colocação ficou com KeL do Nascimento e o resultado gerou controvérsias, já que a mineira Hey Joe era a favorita. Imediatamente, várias vaias partiram da plateia, fazendo lembras os antigos festivais de música dos anos 80.

Em entrevista após a entrega dos prêmios, KeL falou um pouco sobre como estava se sentindo com a vitória. “Quero agradecer a todo mundo que está por trás, aos meus pais, que vieram de São Paulo para assistir, aos meus amigos de outros países que estavam passando pelo Rio e vieram me assistir. Estou muito feliz, muito honrada. Não esperava mesmo [a vitória]”, declara a cantora, visivelmente emocionada.

Por fim, os Paralamas do Sucesso subiram ao palco para encerrar o WebFestValda 2016, cantando os maiores sucessos – como “Meu Erro”, “Lanterna Dos Afogados” e “Você” – com a participação de Rodrigo Suricato. E, após o público pedir bis, a banda encerrou o show com o ‘hino’ “Que País É Esse? ”, da Legião Urbana. Encerrando a apresentação, Rodrigo resumiu o espírito do evento em poucas palavras, quando disse “seja qual for a competição, no final, quem ganha é a música”.


Daniel Deroza– 3º período.

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