Rio de contrastes: entre mares e medos

Fabio Teixeira. Salto em Copacabana (menino brinca de saltar na praia de Copacabana, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro), 2013. Col. do artist

Fábio Teixeira. Salto em Copacabana (menino brinca de saltar na praia de Copacabana, Zona Sul do Rio de Janeiro), 2013.Col. do artista

Cidade privilegiada de belezas naturais seja do Leme ao Pontal ou nos refúgios da flora como o Jardim Botânico e a Floresta da Tijuca. Palco de grandes eventos anuais como o Carnaval e Réveillon também de esporádicos Rock in Rio, Copa do Mundo e Olimpíadas. Esse é o Rio de Janeiro que atrai milhões de turistas por ano e faz da cidade maravilhosa a segunda que mais recebe visitantes no Brasil perdendo apenas para São Paulo. Mas os cariocas não vivem em um paraíso, pois sempre que sai de casa convivem com a incerteza se conseguiram voltar. Fabio Teixeira. Salto em Copacabana (menino brinca de saltar na praia de Copacabana, Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro), 2013. Col. do artist

A exposição Linguagens do Corpo Carioca [a vertigem do Rio] tem a proposta de mostrar exatamente o cenário de contrastes, que compõe o painel Rio de Janeiro. Essa mostra conta com mais de 800 obras de artistas como Evandro Teixeira,Pierre Verger, Mario Testino, Bruno Veiga e Ana Stewart, faz parte da programação FotoRio2016 e está instalada no Museu de Arte do Rio.

Todo carioca é resultado de uma construção social plural. Logo na entrada da exposição “Linguagens do corpo carioca [ a vertigem do Rio]” há o espaço “Cinematográfico afrodescendente” que mostra imagens em slide afirmando que a formação social do Rio é plural, pois na cidade maravilhosa o racismo escravocrata convive com uma floração cultural e de práticas sociais críticas como processos dinâmicos de formação da cidadania afrodescendente. Dentro dessa mesma abordagem estava o “Homem Cordial” que por meio de fotografias mostra o afastamento, mas também a aproximação e a camaradagem entre as classes sociais presentes nas imagens do antigo Píer de Ipanema, no cotidiano das quadras de samba e nas comunidades.

Além disso, o carioca assim como todo brasileiro tem em seu DNA um pouco dos colonizadores europeus, principalmente os portugueses. Essa relação entre português e africanos durante a Brasil colônia é de total segregação, em que brancos são senhores e detentores de terras, enquanto negros são explorados e subalternos o que é mostrado pelos slides da exposição.

Walter CArvalho. Universidade Federal

Walter Carvalho. Universidade Federal

Minorias hoje, mas no passado detentores das terras. O espaço “Corpos inconstantes” é onde os indígenas são retratados como parte da construção do Ser Carioca. Padres jesuítas classificaram os índios como inconstantes, pois eles trabalhavam um dia e no outro pareciam ter se esquecido o que fizeram anteriormente. Mas esse comportamento nada mais era que uma forma dos tupiniquins resistirem as imposições não apenas físicas como ideológicas e religiosas que sofriam por parte dos colonizadores.

Até hoje, os povos indígenas tentam resistir e manter seus costumes no mapa da cultura brasileira. Um traço dessa resistência é a Aldeia Maracanã, que ficava na zona norte do Rio de Janeiro, onde índios de diferentes etnias ainda lutam para permanecer no local e dar prosseguimento nos rituais das suas origens, mas a copa do mundo e agora as Olimpíadas tem sido as barreiras, que um dia foram os portugueses, para a cultura indígena continuar viva.

Domingo eu vou ao Maracanã. Não há como falar do Rio de Janeiro, sem citar o Maracanã, estádio que já foi palco de duas finais de copa do mundo, abertura e encerramento do pan-americano e futuramente dos jogos olímpicos 2016 além de campeonatos locais/ nacionais Carioca, Brasileirão e Copas do Brasil. Esse lugar é também um dos preferidos dos cariocas nas horas de lazer e, na exposição é retratado com fotografias de algumas das torcidas como a do Flamengo e Vasco, mas também já foi marcante para títulos dos tricolores e alvinegros cariocas. Além disso, já recebeu os maiores públicos do futebol brasileiro, como o Brasil x Uruguai na final da copa do mundo com 199.854 pessoas e um dos jogos no ranking foi um clássico estadual Fla x Flu recebendo 194.603 de amantes do esporte que é a paixão nacional.

Gustavo Malheiros. Anônimos Famosos

Gustavo Malheiro. Anônimos Famosos

Mas não é só de momentos alegres torcendo no futebol que vive um carioca. “Corpos melancólicos” é o lugar da exposição que mostra em fotografias que o cidadão da cidade maravilhosa também enfrenta dilemas tristes como qualquer ser humano. Medo e morte, sentimentos despertados pela insegurança de viver em um lugar cada vez mais violento, além da solidão causada muitas vezes pela correria do dia a dia agitado da vida cosmopolita do Rio. Essa temática norteia o espaço ao lado chamado “Corpos metropolitanos”, revela que o Rio de Janeiro simboliza o Brasil no mundo e hoje o carioca resiste ao colonialismo interno com improviso mesclado com informalidade. Os curadores Paulo Herkenhoff e Milton Guran afirmam que “Ser carioca é um estado de espírito que une toda região metropolitana do Rio capaz de zombar do poder e rir de si mesmo”.

Verão, sol e praia é a combinação perfeita para um perfil típico carioca. Nesse cenário se encaixa as fotografias do “Corpos e água” mostrando casais e garotos aproveitando os mares e areias do Rio de Janeiro, seja para desfrutar a paisagem ou para jogar um altinho com os amigos, pois a bola de futebol também pode ser uma boa companhia para o carioca. Além disso, há ainda imagens de pessoas que aproveitam para pegar uma onda com suas pranchas de surf. Água é o que não falta seja mar, lagoa ou cachoeira há diversas formas do carioca se refrescar e encarar os dias de Rio 40°. Assim, não há como negar que a cidade maravilhosa é uma região brasileira realmente privilegiada.

Cinara da Serrinha 2003. Ana Stewart

Cinara da Serrinha 2003. Ana Stewart

Faces do medo resultado da violência. “The Earth Summit” é uma série de fotografias colocadas por cima de espelhos, que ficam posicionadas no chão da galeria. Elas retratam rostos desfigurados pela violência do estado. Cenas que normalmente são evitadas de serem mostradas pelos veículos de comunicação para o público, pois causam choques em todos que observam, são colocadas ali diante de qualquer visitante mostrando a realidade do ser carioca indo além do maravilhosa que a cidade carrega em si.

Além disso, há dois espelhos sem imagens nesse espaço com a finalidade de fazer quem olha buscar ver a si mesmo e refletir se está tentando reverter a brutalidade da metrópole ou apenas fechando os olhos para tudo o que acontece ao redor. Por fim, na exposição, há duas maquetes que representam momentos diferentes de um jovem de uma comunidade carioca, primeiramente um garoto soltando pipa já na segunda sendo refém tendo armas apontadas para si e sua família.

“Linguagens do corpo carioca [ a vertigem do rio]” é uma exposição que busca retratar o Rio de Janeiro por um outro ângulo com relata o visitante Gabriel Vieira, “Um pouco do Rio que não é normalmente visto. Um Rio suburbano, um Rio que sofreu influências, um Rio que sofre. Rio de Janeiro”.

Essa mostra de responsabilidade dos curadores Paulo Herkenhoff e Milton Guran vai ficar na programação do Museu de Arte do Rio até o dia 9 de outubro, com visitação aberta das 10 ás 17h, menos as segundas, pois o espaço não funciona. Além disso, a entrada é franca as terças-feiras, já nos outros dias o ingresso custa R$ 10,00.


Beatriz Santos – 7° período

 

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