Diversidade e o mundo geek

Nesta terça-feira (07) aconteceram as atividades do segundo dia da XII SECOM (Semana de Comunicação Social) do campus Tijuca da Universidade Veiga de Almeida, que envolve os alunos de graduação em Jornalismo e Publicidade. A programação abordou a representatividade e a diversidade no mundo geek. O primeiro debate, mediado pelo professor Gustavo Lacerda, contou com a presença de um quarteto composto por Paula Ramos – colunista e redatora do “Poltrona Nerd” –, José Messias – pesquisador do grupo Cibercog/Uerj e colaborador do site “Iluminerds –, Fernanda Sereno – uma das organizadoras do Diversão Offline – e pelo roteirista, humorista e jornalista Ulisses Mantos.

Um dos temas discutidos pelo grupo foi a presença feminina nos eventos deste nicho social. Por exemplo, Fernanda informou que o evento de jogos não eletrônicos que organiza – que terá sua segunda edição em 21 de agosto deste ano – contou com 26% de participantes mulheres. Ela também disse que, em convenções do gênero, já foi destratada por homens, os quais acreditam que “mulher não entende nada de jogos”. Porém, ela afirma que “hoje em dia, as meninas podem se interessar por qualquer assunto”.

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Ulisses Mattos (esq.), Fernanda Sereno, Gustavo Lacerda (cen.), José Messias e Paula Ramos (dir.). [foto: Brígida Brito/ Agência UVA]

Já Paula, que chegou a ser a única integrante feminina do site para o qual escreve, falou um pouco sobre as diferenças entre as denominações “geek” e “nerd”, muitas vezes confundida pelo grande público. Segundo ela, basicamente, o segundo se refere àquelas pessoas que tiram notas altas, e são muito inteligentes; já a primeira, faz referência a qualquer pessoa que se interessa muito por algum assunto, seja ele quadrinhos, música, cinema, etc.

O pesquisador José Messias explicou que, atualmente, os quadrinhos e os games são objeto de estudo, já que podem ser usados para determinados fins de interesse social – para exemplificar, Messias citou o grande boom de filmes de super-heróis produzidos nos Estados Unidos que se iniciou após os atentados de 11 de setembro de 2001. Entrelinhas, estes longas servem também para elevar a moral do cidadão estadunidense.

No final do debate, Ulisses discorreu sobre como o mundo geek pode ser adotado no setor profissional. O jornalista sempre escreveu sobre cultura com um toque de humor, o que o levou a junto com alguns amigos a produzir duas webséries envolvendo personagens relacionados a este universo que está cada vez mais na moda. “Épica das Galáxias” e “Longe do Reino” possuem histórias distintas, mas que se cruzam algumas vezes através de seus caracteres. A produção, feita de forma quase independente, já criou um público cativo que pede uma segunda temporada, porém, com as mudanças nas leis de incentivo à cultura, a continuação do projeto é pouco viável.

Ao final da rodada de perguntas dos alunos, foram realizados os tradicionais sorteios de brindes oferecidos pelo comitê organizador da SECOM em parceria com os patrocinadores. E, e claro, que a irreverência do público geek não poderia ficar de fora, e, por isso, os debates do turno da manhã foram encerrados com Ulisses jogando um cupcake para a plateia, que disputou o bolinho com q mesma determinação vista em torneios de video games.

Na tarde, oficinas e mostras cinematográficas foram realizadas. O Cine UVA, organizado pelos professores Gustavo Lacerda e Renata Feital, reuniu e exibiu web séries e curtas-metragens produzidos por alunos da Universidade. Após a exibição, representantes de cada obra foram convidados a subirem no palco para debater sobre técnicas e curiosidades sobre os projetos.

No turno da noite, pouco antes das 19h, uma longa fila de estudantes já se formava na entrada do auditório – todos ansiosos para participarem do segundo debate do dia, cujo tema era “A Importância da Representatividade na Era da Diversidade”, que contou com a presença de profissionais que participam de projetos de inclusão no Rio de Janeiro. Simultaneamente a isso, o grupo musical “Brasília Amarela” animava o público que passava pelo salão preto.

Antes do início das atividades, o grupo convidado – composto por Bruna Leão e Thaysa Malaquias, do “Coletivo Não Me Kahlo”; Luciana Bezerra, diretora e gestora do grupo “Nós do Morro”, Rodrigo Azevedo, coordenador do “Observatório das Favelas” e Helena Gusmão, jornalista e consultora de estilo e casting na “Jacaré É Moda” – falou um pouco sobre as expectativas para o debate que estava por vir.

“Para a gente, é muito importante chegar nas universidades, nas escolas, porque a gente consegue fazer um debate presencial. O debate cara-a-cara é muito interessante, é um tipo de troca muito diferente”, declara Thaysa, que completa afirmando que os homens devem estar inteirados de assuntos como a igualdade de gênero para que possam passar adiante estas discussões. Já Rodrigo ressaltou a importância do diálogo propiciado por este tipo de encontro. Helena, ex-aluna da UVA, mostrou-se feliz em voltar à SECOM, desta vez como palestrante.

O debate, mediado pelo professor Guilherme Carvalhido, foi iniciado pelas colaboradoras do “Coletivo Não Me Kahlo”, que falaram sobre o machismo no mundo geek, representado, principalmente, pela hipersexualização da imagem feminina – as convidadas citaram o exemplo da Mulher Maravilha, que surgiu como um símbolo da mulher forte e independente, porém, tem sido “desconstruída” e descontextualizada nas últimas décadas.

Elas também discorreram sobre a diferença entre as representações do homem e da mulher nos quadrinhos – a forma masculina musculosa mostra como “os meninos querem ser”, a forma feminina mostra “o que os meninos querem ter”. Além disso, também foi destacado o fato de a agressão às mulheres nas HQ’s servirem apenas para “fazer escada” para as personagens masculinas ou como uma forma clichê de mostrar o crescimento pessoal dos caracteres femininos.

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Guilherme Carvalhido (esq.), Bruna Leão, Thaysa Malaquias, Helena Gusmão e Rodrigo Azevedo (dir.). [foto: Brigida Brito/ Agência UVA]

Em seguida, Luciana assumiu a fala e discorreu acerca do Grupo “Nós do Morro”, que irá completar 21 anos. Ela salientou a importância de se quebrar o estigma de que atores negros e oriundos da favela só podem representar traficantes, empregados e papéis do tipo. Segundo a diretora, que já esteve até no Festival de Cannes, a própria população do Visitas, onde o projeto atua, não se vê representado nas telas e é por isso o trabalho do “Nós do Morro” é tão importante. “A arte só é válida se tiver um poder transformador no mundo” declara a organizadora, sendo agraciada com os aplausos da plateia.

Helena, que iniciou seu momento apresentando um vídeo sobre Júlio César, criador do “Jacaré É Moda”, explicou que um dos principais objetivos do projeto é mostrar para as pessoas que “beleza não está só na Zona Sul, no interior”, ela também está presente em outros locais menos prestigiados. Gusmão contou que o grupo não quer apenas lançar modelos, e sim profissionalizar estas pessoas, oferecendo cursos de inglês, de História da Moda, para que estes indivíduos tenham noção de todos os caminhos que podem seguir neste meio. Vale ressaltar que o “Jacaré É Moda” já esteve na São Paulo Fashion Week e tem parceria com o Instituto Europeu de Design.

Para finalizar, Rodrigo falou sobre a ESPOCC (Escola Popular de Comunicação Crítica). Ele apresentou campanhas publicitárias como a do Dia dos Namorados da O Boticário e o vídeo “Invisible Players”, no qual pessoas assistem a silhuetas animadas mostrando cenas de competições esportivas e tentam descobrir quem é o atleta retratado, porém ninguém cita nomes de mulheres, lembrando-se apenas dos homens; no final, é revelado que nas imagens só havia esportistas femininas, como a futebolista Marta.

Já no fim do debate, veio ao foco o termo “minoria”, que foi criticado pelos convidados e pelo professor Carvalhido, pois usa-se a palavra para se referir, por exemplo, à população negra, a qual é, na verdade, a maior parte da sociedade brasileira. Além disso, também foi discutida a questão do famoso “empoderamento”. “Somente o fato de haver representação não quer dizer que haja empoderamento”, diz Bruna Leão, que destaca o caso das campanhas de cervejarias, que começaram a ser reformuladas há pouco tempo, depois de um longo tempo de exploração da imagem feminina. “Parece que, finalmente, descobriram que mulher também bebê cerveja”, conclui a ativista.

Para o encerramento do segundo dia de atividades, a professora Heloísa Reis subiu ao palco para realizar, com a ajuda dos convidados, os sorteios dos brindes, que incluíam brownies e cupcakes, kits dos patrocinadores e livros – entre eles, “#MeuAmigoSecreto”, da dupla do “Coletivo Não Me Kahlo”, inspirado na campanha que tomou as redes sociais há algum tempo. Novamente, um cupcake foi atirado para a plateia, encerrando com muita alegria um dia de discussões acerca de representatividade e diversidade na cultura geek.


Daniel Deroza – 3 Período

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