Flores no asfalto

Como parte das comemorações do Mês da Mulher, foi inaugurada a exposição “Tornar-se”, na Galeria de Artes do Solar Meninos de Luz. Como pode-se deduzir pelo nome, a mostra foi totalmente inspirada na famosa frase da escritora francesa Simone de Beauvoir “Ninguém nasce mulher; torna-se mulher”, e é exatamente isso que as obras mostram.

    883968_1207795092581722_5744590801959332472_oDoze artistas mulheres foram convocadas para integrar esse time e cada uma deu a sua visão sobre o que é tornar-se mulher — por exemplo, no trabalho de Renata Sgarbi, intitulado “Quem mais chorou por mim?” as máscaras tão diferentes e, simultaneamente, tão semelhantes entre si expressam as várias facas que uma mulher assume ao longo da vida: menina, mulher, mãe, profissional, etc.

    Icléa Eccard, outra convidada para participar da exposição, utilizou-se do ferro, um material duro, áspero e muitas vezes desagradável ao toque para criar formas finas, melífluas e fluidas na obra nominada “Gestos”, que mostra como uma mulher pode ser forte e potente sem perder a delicadeza e a sensibilidade. Mas, sem dúvidas, a tela “Mandala”, de Andréa Facchini; cheia de cores, formas e texturas, a obra representa os meandros da personalidade feminina, cuja profundidade sempre intrigou as pessoas, de maneira geral.

    Um detalhe que chama atenção nesta exposição é a ausência da forma feminina, de modo objetivo, como o público está acostumado a ver: o corpo da mulher não está presente, o foco desta mostra é a alma, a personalidade, a essência, e não o seu invólucro, e este é um dos pontos mais bonitos deste conjunto — a valorização do que é intrínseco ao feminino, as características amalgamadas do ato de tornar-se mulher.

 DSC_0095   É importante ressaltar que todas as obras expostas estão à venda e 50% do valor arrecadado será doado para dar continuidade às ações da organização Solar Meninos de Luz, que trabalha com intuito de levar educação e cultura para crianças e adolescentes das comunidades Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Além disso, as artistas participantes da exposição também abraçaram o espírito comunitário e se voluntariaram a ministrar oficinas de artes para os jovens, que poderão expor suas obras, futuramente.

“Que nada nos defina. Que nada nos sujeite. Que a liberdade seja a nossa própria substância.” — Simone de Beauvoir

DO ESTRANHAMENTO À INTEGRAÇÃO

A Galeria de Artes do Solar já existe há sete anos e a “Tornar-se” é a 41º exposição, o que mostra que as ações da Meninos de Luz já estão integradas ao dia-a-dia das comunidades. “Antigamente, os moradores estranhavam um pouco; eles passavam aqui em frente e perguntavam: ‘Posso entrar?’. Hoje, eles passam aqui e perguntam: ‘Qual exposição está tendo?’. E isso é muito legal”, conta Matilde Marie Pereira, que, assim como todos os envolvidos dos projetos do Solar, é voluntária.

    E estas exposições são provas de como a aproximação da arte, da cultura, da informação pode transformar uma região. “Uma vez, nós trouxemos uma turma de alfabetização de adultos para ver a ‘Tornar-se’; ver pessoas que mal sabiam escrever o próprio nome tendo contato com este tipo de arte foi muito emocionante”, Matilde completa, com um sorriso tão largo quanto sua emoção.

    O curador da exposição, Osvaldo Carvalho, concordou em ceder uma entrevista por e-mail à Agência UVA para conversar um pouco mais sobre a “Tornar-se”. Confira a seguir o que ele, como um dos idealizadores do projeto, tem a dizer a respeito deste incrível e interessante ode à aura feminina.

AGÊNCIA UVA: “Tornar-se” foi aberta como parte das comemorações ao Mês da Mulher; como esta exposição foi concebida?

OSVALDO CARVALHO: Há algum tempo vinha amadurecendo uma exposição com essas artistas que conheço de longa data, e propus que fizéssemos uma mostra comemorativa pelo dia da mulher e que revíssemos Simone de Beauvoir em nossa trajetória.

AU: A exposição conta com trabalhos de 12 artistas mulheres; como você chegou até elas?

OC: São pessoas conhecidas minhas e que têm em comum serem de Niterói. Nós nos conhecemos em um período de efervescência nas oficinas do Museu do Ingá. Depois de tanto tempo ainda continuamos na persistência da arte em nossas vidas o que nos gratifica e nos coloca em estado de permanente sintonia com os acontecimentos ao redor, algo que a arte proporciona a quem a procura.

AU: A exposição apresenta, partindo da linha de pensamento da escritora Simone de Beauvoir, uma proposta de reflexão sobre o ser e o tornar-se mulher e todas as consequências que isso traz, estimulando o autoconhecimento de cada indivíduo (artistas e público). Você, como curador da exposição, considera importante que jovens tenham mais contato com as reflexões deste símbolo feminista que é De Beauvoir?

OC: É preciso que tenhamos em mente que se trata de uma obra essencial do feminismo contemporâneo. Ao reunir doze artistas mulheres para essa exposição pedi que apresentassem uma reflexão desse ato de se tornar mulher, de como lidavam com a questão definidora do status feminino, que sujeição enfrentavam, e como encaravam a liberdade, partindo do pensamento de De Beauvoir. Certamente que nesse contexto é importante que os jovens, não apenas as meninas, tenham o entendimento claro de que somos todos iguais, homens e mulheres, e a autora é um norte para essa reflexão. O lema do Solar Meninos de Luz é educar para libertar, nada mais apropriado a uma instituição que pretende formar pessoas capacitadas para a vida e não apenas para o mercado de trabalho.

AU: O movimento feminista nunca esteve tão em voga nas discussões sociais. Você considera a exposição “Tornar-se” de cunho feminista, ou, pelo menos, uma ação de fomento a estes debates?

OC: Considero a “Tornar-se” uma mostra de arte. Certamente, tem suas consequências; contudo, não se pretende essencial tampouco especial, apenas traz a ideia de que ainda precisamos conversar “sobre coisas de homens, sobre coisas de mulheres”. Em verdade, é estranho pensar que muitas coisas absurdas continuam nos mesmos patamares de 50 anos atrás, e não se faz necessário elencá-las, estão nas notícias, nas esquinas, no trabalho, nas políticas públicas, na condução, dentro de casa. Cada trabalho que se apresenta fala da relevância de se conhecer a força das coisas, do mundo e do ser humano, daquilo que é habitado e vivido e sonhado com a profundidade de quem se descobre diariamente realizando uma obra, afinal, como disse De Beauvoir, “é na arte que o homem se ultrapassa definitivamente”.

Sobre o fato de 50% do total das vendas das obras da exposição ser destinado ao Solar, Osvaldo conta que a proposta partiu das próprias artistas, que decidiram doar metade de seus lucros para a instituição, uma vez que o Solar não negocia obras em exposição tampouco faz comércio de arte. O curador ainda explica que a Galeria de Arte Solar é um espaço artístico que busca de levar para as comunidades o que é produzido hoje em todo o país.

    “Já passaram por lá artistas iniciantes, emergentes e consagrados, de várias procedências, de vários estados do Brasil, sempre ligados ao desejo de colaborar com o trabalho ali realizado”, ele conta, aproveitando para fazer um convite, “Todos são bem-vindos a conhecer a galeria, que conta com calendário expositivo ao longo de todo o ano, e o projeto social do Solar”.

    A Galeria de Arte do Solar Meninos de Luz, sendo a única galeria oficializada dentro de uma comunidade, encaixa-se muito bem com a definição que a voluntária Matilde Marie Pereira contou ter ouvido certa vez: “Os trabalhos dessa galeria são flores no asfalto”. E é exatamente isso que se vê lá: A beleza e sensibilidade, como flores, brotando em meio à aspereza e inflexibilidade do asfalto.

    A exposição “Tornar-se” fica aberta até o dia 30 de abril, na Galeria de Artes do Solar Meninos de Luz, na Rua Saint Roman, 146, em Copacabana — a visitação pode ser feita de quarta-feira à sexta-feira de 16h às 19h, e aos sábados de 10h às 14h; a entrada é franca.


Daniel Deroza – 3º período

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