Na última quinta (30), a Comissão Nacional da Verdade junto ao Projeto “Clínicas do Testemunho do Rio de Janeiro da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça” realizaram uma sessão de testemunho da verdade do Hospital Central do Exército, em relação ao período da ditadura militar. O evento ocorreu no Plenário José Ribeiro de Castro Filho, na sede da CEV – Rio, e contou com a participação de ex – presos políticos, além do grupo de trabalho “Justiça de Transição” da procuradoria da República.
No início do debate, o Dr. Sérgio Suiama, procurador da república, a advogada Rosa Cardoso, a psicóloga Vera Brasil, e o deputado federal Wadih Damous esclareceram que a função da comissão é apurar e reparar qualquer tipo de violação, cometida entre os anos de 1946 à 1988, em relação aos direitos humanos. Depois, comentaram sobre suas investigações quanto ao caso Raul Amaro, um professor torturado e morto no Hospital Central do Exército.
O Dr. Sérgio Suiama, procurador da república, relembrou que, às vésperas da diligência da Comissão da Verdade no HCE, uma denúncia anônima revelou que diversos documentos médicos e prontuários de pacientes internados foram ocultados. Por conta disso, na visita de 2014 ao hospital, o ministério público e a polícia federal cumpriram mandato de busca e apreensão dos documentos. Marcus Arruda, Paulo Ribeiro e Ana Miranda estiveram presentes no dia para relembrar como era o prédio na época.
Mais tarde, ex – presos políticos que estiveram internados no hospital prestaram depoimentos, dentre eles, Paulo Ribeiro. “Anos depois de ter sido libertado, fui ao HCE solicitar o meu prontuário e, como todos os outros companheiros, não tivemos acesso a essa informação”, reafirma Paulo Ribeiro.
“As péssimas condições que os presos comuns e os presos políticos são submetidas nesse país, acarretam sequelas graves. Acho que tive tuberculose”, desabafa o próprio.
A seguir, Fátima Setúbal, professora de história aposentada, presta depoimento. Ela conta que era simpatizante da organização Val Palmares, do PC do B, junto a seus irmãos, Marcos e Januário. Marcos foi assassinado e Januário continuava foragido. “Fui presa para que eu desse informações sobre o paradeiro do meu irmão (Januário), que era militante. Tive muita hemorragia durante a tortura”, afirma Fátima Setúbal.
Quando encaminhada ao HCE, ficou surpresa com a brutalidade. “Fiquei cerca de dois meses no HCE. Chegando ao hospital eu escutei eles falarem ‘Tem q ir rápido ao ginecologista e tomar sangue’. ‘Escreve ai doze litros de sangue’. Não sei se houve abuso sexual. Emagreci uns 15 quilos e parece que tive tuberculose.” Ao mesmo tempo, ela diz que havia alguns enfermeiros solidários aos presos políticos. “Um enfermeiro comemorou a data do meu aniversário e comprou um bolinho”.
Por conseguinte, Ana Miranda, aposentada pela UERJ, fez um resumo de sua vida e relatou algumas das lembranças. “Fui presa quatro vezes entre 68 e 70, porque lutava contra a ditadura e contra as desigualdades sociais. Vivi no limite das minhas forças físicas e mentais e tinha que estar o tempo todo em estado de alerta. Queriam me arrancar qualquer tipo de informação”, lembra Ana Miranda.
“Qual o papel que tiveram os hospitais na ditadura? Nós sabemos que era possível agir de outra forma, pois alguns dos funcionários nos ajudaram aqueles que chamamos de “mãos estendidas”, indaga a militante, que até 10 anos atrás se intitulava como uma “ex- presa política”, e hoje já se vê como uma sobrevivente.
No fechamento dos discursos, houve uma homenagem a Estrella D’Alva Bohadana, militante política falecida em maio desse ano. Ela foi torturada pelo DOI/CODI e posteriormente encaminhada ao HCE. Foi exposto um vídeo aos presentes no evento, em que Estrella contava sobre como havia sido sua passagem pelo Hospital Central do Exército. A Comissão da Verdade finaliza, dizendo que devemos revelar qualquer ato de desrespeito aos direitos humanos para que nunca mais se repitam essas brutalidades.
Por: Luiza Esteves



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