Valores de primeiro mundo em um país de terceiro mundo
“O chamado Custo Brasil, conjunto de fatores que comprometem a competitividade e a eficiência da indústria nacional, encarece em média 36,27% o preço do produto brasileiro em relação aos fabricados na Alemanha e nos Estados Unidos”
O Custo Brasil é usado para descrever o conjunto de dificuldades estruturais, burocráticas e econômicas que encarecem o investimento no páis, dificultando o desenvolvimento nacional, aumentando o desemprego, o trabalho informal, a sonegação de impostos e a evasão de divisas. Por isso, é apontado como um conjunto de fatores que comprometem a competitividade e a eficiência da indústria nacional.
O que é visto como um grande mar de taxas e tributos, tem seu início na burocracia existente para pagar impostos. Começa com um pequeno imposto de 2,6% nos produtos industriais, ou seja, todo produto que é consumido, é 2,6% mais caro graças ao imposto cobrado em cima do mesmo. Se incluirmos os custos financeiros, de energia, matérias – primas e transportes, o ônus sobre os produtos manufaturados, na comparação com esses parceiros, é de 25%, segundo estudo da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Em uma matéria realizada pelo Estadão é revelado que esse custo pode encarecer até 36,27% do valor final do produto, em outras palavras um carro que custa R$ 35.000 poderia custar menos de R$ 20.000 se não fossem todos os tributos, isso seria quase metade do valor do carro atual. O diretor econômico da presidência da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), Mário Bernardini, ainda em 2010 explicou em uma entrevista cedida ao site do Estadão que caso um empreendedor estrangeiro resolvesse investir no Brasil, ele teria que investir quase que 40% a mais do que ele investiria em seu país, para poder criar a sua empresa.
O problema acaba afetando a todos os setores e pessoas, tanto as físicas quanto as jurídicas. “Apesar de todos os incentivos que o governo aparenta dar, existe uma diferença muito grande entre o que é dito e o que é feito. Eu pago 19% de imposto só por que a minha empresa é localizada no Rio de Janeiro, caso eu fosse de Tocantins esse imposto cairia para 0,5%, o capitalismo selvagem impera nas grandes capitais, o que dificulta o crescimento da economia e desenvolvimento do país” explica Fabio Seixas, empresário 38 anos, que também opina nas questões da CLT “ é uma questão muito contraditória, o governo diz incentivar os novos empregos, contudo eu pago muito caro para poder manter um funcionário na minha equipe. Se eu pagar um salário de R$ 2.000 na verdade eu tenho um custo de quase R$ 3.000 e o meu funcionário recebe algo em torno de R$ 1.500, pois ele também paga imposto. Então eu me pergunto se existe realmente uma vontade do Estado em incentivar o crescimento nacional como um todo.”
Acabamos entrando então em um cenário muito complicado, que em termos simples poderia ser compreendido da seguinte forma: Para se abrir um novo negócio precisa-se de um investimento consideravelmente alto, depois para compensar o investimento inicial deve-se vender o produto ou o serviço criado por esse novo negócio, a um preço também alto. O patrão não consegue ter um fôlego financeiro para contratar e pagar bem muitos funcionários, o que gera baixo poder de compra e aumenta o desemprego. Em seguida é montado um cenário onde se vende produtos que tiveram um custo muito alto para serem produzidos, porém sem público para poder comprá-los pois muitos estãos desempregados ou ganhando mal. A solução encontrada por muitos é a utilização do cartão de crédito, mais precisamente o parcelamento.
A economista Miriã Carvalho, afirma que o vício do brasileiro de parcelar não pode ser visto como um vício, ou uma “mania feia”, é na verdade a forma que muitos conseguiram achar para pagar as suas contas. Isso acontece desde o parcelamento de uma roupa ao financiamento de um imóvel. Ela revela alguns dos componentes que compõe o grande mar chamado “Custo Brasil” e diz que a maioria deles são desnecessários ou exorbitantes, e sem eles a economia poderia fluir de uma forma muito mais dinâmica, produtiva e lucrativa.
- Corrupção administrativa pública elevada;
- Déficit público elevado;
- Burocracia excessiva para criação e manutenção de uma empresa;
- Cartelização da economia;
- Manutenção de taxas de juros reais elevadas;
- Spread bancário exagerado (um dos maiores do mundo);
- Burocracia excessiva para importação e exportação, dificultando o comércio exterior;
- Carga tributária alta;
- Altos custos trabalhistas;
- Altos custos do sistema previdenciário;
- Legislação fiscal complexa e ineficiente;
- Insegurança jurídica;
- Alto custo da energia elétrica;
- Infraestrutura precária (saturação de portos, aeroportos, estradas e ferrovias);
- Baixa qualidade educacional e falta de mão de obra qualificada.
Para agravar ainda mais o problema, além do alto custo, existe também uma grande burocracia para que os processos sejam resolvidos no país, o que acaba encarecendo ainda mais produzir no Brasil, como já diria o dito popular americano “Time is money” ou seja “tempo é dinheiro”, e quanto mais tempo levamos para fazer qualquer coisa, isso nos custa dinheiro. Um Estudo da FIRJAN demonstrou que a liberação de carga em um aeroporto como o Galeão, no Rio de Janeiro, leva, em média, 217 horas para ser finalizada, enquanto na China a mesma operação não dura mais do que quatro horas.
Esse cenário não acontece apenas nos aeroportos, mas também nos portos. Quanto mais tempo se leva para poder fazer a carga e descarga de produtos mais caro fica a tributação final.
No gráfico acima é possível entender o custo logístico existente hoje no Brasil. Um conteiner que fica parado em nossa costa, sem ser descarregado, possui um custo muito mais elevado do que em qualquer outro páís no mundo. Conseguindo ultrapassar as taxas encontradas na Russia, Argentina e em todos os outros países da América do Sul. Esse cenário é tão agravante que já existe uma medida provisória, também conhecida como “MP dos Portos” que pretende aumentar a competitividade da infraestrutura portuária brasileira. “Segundo a ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffmann, novos portos serão construídos ao longo da costa brasileira após a aprovação da medida”.
O mar começa a ficar mais vasto e difícil de se navegar conforme se navega, além dos tributos também se paga por uma logística ineficiente e de alto custo, transformando o país em um lugar muito complicado de se explorar e investir. Diego Leal , designer, 29 anos, conta sua história e diz que sentiu na pele o quão difícil é tentar ser bem sucedido. “ Eu nasci e cresci em Cabo Frio, longe da capital do Rio de Janeiro e sonhava em vir para o Rio fazer meu nome, criar uma marca de roupa e vencer na vida. Quando passei na UFRJ, há 8 anos, vim morar sozinho na capital e desde então tento realizar o meu sonho. Mas tudo o que eu faço parece ser destruído pelos impostos ou burocracias. Minha última tentativa em transformar meu sonho em realidade foi tentar participar de uma feira de roupas alternativas, mas para participar da feira eu precisava ter um CNPJ e para ter um eu precisava pagar para abrir firma, pagar impostos, e ainda pagar por um contador, resumindo o custo ia para mais de R$ 3.000 só para poder tentar participar de uma feira, onde teoricamente era só você colocar o seu stand e vender as suas camisetas. O governo parece por muitas vezes querer te atrapalhar, ao invés de querer te ajudar a crescer, se desenvolver e realizar os seus sonhos”.
Talvez o navio do fracasso navegue em um oceano de desculpas, mas o mar de tributos e impostos que compõe o Custo Brasil pode deixar qualquer um perdido e sem muitas esperanças de ver terra firme.
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Entre os componentes do Custo Brasil medidos pela Abimaq estão o impacto dos juros sobre o capital de giro, que na média gera custo 7,95% superior ao dos concorrentes internacionais, e preços de insumos básicos, cuja diferença de custos é de 18,57% entre a produção nacional e a americana e alemã. Outros fatores de custo adicional: impostos não recuperáveis na cadeia produtiva (2,98%), encargos sociais e trabalhistas (2,84%), logística (1,90%), burocracia e custos de regulamentação (0,36%), custos de investimento (1,16%) e custos de energia (0,51%).
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Rodrigo Marinho – Jornalismo Investigativo

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