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Gazeta, 10 de setembro de 1808: os primeiros passos do jornal impresso

O primeiro passo dos jornais publicados no Brasil foi dado há exatos 200 anos. No dia 10 de setembro de 1808, a capital do império português conhecia a “Gazeta do Rio de Janeiro”, impresso legítimo da colônia. As principais abordagens do periódico eram notícias sobre a Família Real, atos do governo, acontecimentos na Europa e anúncios. Mas dois séculos trouxeram mudanças para a linguagem, público, forma e técnica de se fazer jornal. Para contar um pouco sobre como eram os primeiros impressos, o professor adjunto de História do Brasil da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Marcello Basile, fala sobre a história do Brasil e da Imprensa.

AgênciaUVA – Existia imprensa no Brasil antes da chegada da família real?
Basile – A imprensa só chegou ao Brasil, em 1808, após a transferência da Corte lusitana para o Rio de Janeiro. Até então, era proibida na América portuguesa, assim como as universidades, pois Portugal temia a entrada de idéias, diríamos hoje, subversivas, em sua principal colônia. Há registros de pelo menos dois ensaios de tipografias no Recife e no Rio de Janeiro no século XVIII, mas duraram apenas alguns meses. A primeira limitou-se a imprimir letras de câmbio e orações e a segunda quatro pequenas obras (folhetos e poesias).

AgênciaUVA – Como eram os primeiros jornais? Estabeleça uma comparação, citando as principais diferenças entre os de hoje e os primeiros?
Basile – Os jornais do século XIX, sobretudo os da primeira metade, eram muito diferentes dos atuais. A grande maioria – os chamados pasquins – tinha caráter político-doutrinário, defendia abertamente determinado grupo político, pretendendo atuar como instrumento de pedagogia política. Em geral, tinham pequeno formato, entre quatro e oito páginas, eram efêmeros e circulavam de duas a três vezes por semana. Muitos apresentavam linguagem bastante agressiva, com xingamentos, ataques pessoais, ameaças e acusações infamantes contra seus adversários. Assim, não é de estranhar que os redatores freqüentemente se mantivessem no anonimato (a legislação permitia, desde que houvesse alguém responsável perante a Justiça), a fim de evitar perseguições políticas, judiciais e pessoais. Existiam, no entanto, periódicos de cunho literário, científico e, mais semelhantes aos atuais, os chamados noticiosos ou informativos, que geralmente tinham formato, número de páginas, duração e regularidade maiores, bem como linguagem mais comedida e equilibrada. Dois deles ainda hoje estão em atividade: o Diário de Pernambuco, criado em 1825, e o Jornal do Commercio, lançado dois anos depois, no Rio de Janeiro.

AgênciaUVA – Qual era o nome do primeiro jornal? Quais as principais manchetes? Do que falavam geralmente os exemplares? Quem eram os profissionais das redações? Qual a data oficial da chegada da imprensa ao Brasil?
Basile – A primeira tipografia estabelecida no Brasil foi a Impressão Regia, criada por decreto de 13 de maio de 1808, na cidade do Rio de Janeiro, recém transformada em capital do império português. Antes, porém, que ali tivesse início a publicação de periódicos, começou a ser impresso, em junho daquele ano, em Londres, o Correio Braziliense, redigido por Hipolito da Costa, que foi, assim, o primeiro jornal voltado para o público brasileiro. Três meses depois, em 10 de setembro, veio à luz o número inicial do primeiro periódico publicado no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro, então redigida por frei Tiburcio da Rocha (substituído depois por Manoel Ferreira Guimarães e este por Francisco Vieira Goulart). Era órgão oficial, de cunho informativo, que publicava os atos do governo, notícias da Europa, panegíricos da família real e anúncios. Ambos os jornais mantiveram-se em circulação até dezembro de 1822. Até 1821 havia censura prévia à imprensa, de modo que só se podia publicar com o aval dos censores régios.

AgênciaUVA – Como eram os equipamentos e como era impresso?
Basile – Os primeiros prelos eram de madeira e manuais, a impressão era feita com tipos de ferro fundidos e o trabalho nas oficinas era totalmente artesanal. Muitas vezes, a mesma pessoa desempenhava as funções de escritor, redator e tipógrafo; no máximo, contava com dois ou três ajudantes. Somente na segunda metade do século XIX é que, bem lenta e incipientemente, as atividades tipográfica e jornalística começaram a se profissionalizar, a se especializar e a ganhar contornos mais empresariais no Brasil.

AgênciaUVA – Em quais províncias existia?
Basile – Depois de introduzida no Rio de Janeiro, em 1808, a imprensa espalhou-se pelo Brasil, chegando em diversas regiões, como Bahia (1811), Pernambuco e Maranhão (1821), Pará (1822), Minas Gerais (1823), Ceará (1824), Paraíba (1826), São Paulo e Rio Grande do Sul (1827), Goiás (1830), Santa Catarina e Alagoas (1831), Rio Grande do Norte e Sergipe (1832), Espírito Santo (1840), Paraná (1853) e Amazonas (1854).

AgênciaUVA – Quem era o público-alvo? Quem lia o jornal? Era vendido?
Basile – O público-alvo dos jornais oitocentistas brasileiros era, a princípio, formado pelos homens de letras pertencentes às camadas médias urbanas (comerciantes, profissionais liberais, clérigos, funcionários públicos civis e militares); um público, portanto, de dimensões relativamente reduzidas, que constituía os principais compradores e assinantes das publicações. Mas muitos jornais, principalmente os de tendência política mais radical, imbuídos de um ideal pedagógico e civilizador, pretendiam alcançar um público bem mais amplo, os segmentos sociais considerados pobres, rudes e sem instrução, até mesmo os analfabetos, acreditando que poderiam transformá-los em verdadeiros cidadãos. Cumpre notar que jornais e panfletos eram então comumente lidos e comentados em voz alta nas ruas, tavernas e lojas, o que multiplicava seu alcance e poder de comunicação para além das camadas letradas da população. Daí a presença marcante de elementos de oralidade no discurso impresso, com recorrente emprego de uma linguagem mais coloquial, popular e direta; de gírias, aforismos, anedotas e conclamações altissonantes; e de textos escritos em forma de diálogos, versos, hinos, cartas, verbetes e até de paródias de catecismos e orações religiosas. Alguns panfletos chegavam a ser distribuídos gratuitamente, embora a grande maioria dos impressos fosse vendida, a preços bem razoáveis.

AgênciaUVA – Existia publicidade? Quando a publicidade entrou no jornal?
Basile – O primeiro jornal, a Gazeta do Rio de Janeiro, já continha uma seção regular de anúncios, que foi também adotada por várias outras folhas, sobretudo as de perfil mais “informativo”. Havia todo tipo de anúncios, referentes desde a estabelecimentos comerciais, produtos e serviços diversos até a remédios e curas milagrosas, compra, venda, aluguel e fuga de escravos. Geralmente, ocupava as últimas páginas da publicação e seu espaço cresceu ao longo do tempo. Representava uma boa fonte de renda para os jornais, uma vez que apenas duas linhas de anúncio podiam custar o preço de um exemplar. Outro relevante serviço prestado pelos jornais, este gratuito, era a seção de correspondências dos leitores, as famosas publicações a pedido, que funcionava como um espaço possível de cidadania, na medida em que constituía importante canal de comunicação dos indivíduos – com suas queixas, críticas, denúncias, reivindicações, cobranças e questionamentos – com o poder público.

Carla Delecrode (carladelecrode@gmail.com) • 6º período • Jonalismo Digital

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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