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“Contos Paralelos” conta muitas histórias sem contar nada

Filme de Asghar Farhadi mistura realidade e ficção, mas se perde entre tantas narrativas

Em um debate sobre ficção versus realidade, o cineasta iraniano Asghar Farhadi lança seu novo longa. “Contos Paralelos”, exibido no Festival de Cannes e no Festival do Rio, conta com um elenco de estrelas, formado por Isabelle Huppert, Virginie Efira, Vincent Cassel, Pierre Niney, Adam Bessa e Catherine Deneuve.

Em crise criativa e tentando recuperar o prestígio do passado, Sylvie (Huppert), uma escritora francesa, busca inspiração observando secretamente os vizinhos do prédio em frente ao seu apartamento em Paris. Aos poucos, a rotina e os dramas alheios se transformam em matéria-prima para seu novo romance. Quando contrata Adam (Bessa) para ajudá-la nas tarefas do dia a dia, porém, a relação entre observadora e personagens começa a se confundir. Enquanto Sylvie interfere cada vez mais na vida dos vizinhos, acontecimentos inesperados colocam em xeque os limites entre realidade e ficção.

Adam Bessa e Virginie Efira vivem Adam e Nita.
(Foto: Divulgação/Festival do Rio)

Confesso que meu interesse em ver o filme partiu mais da expectativa de ver Huppert e Deneuve contracenando juntas. Mas a decepção já veio logo de cara. A participação de Catherine é quase como um ato de inspirar e expirar, de tão rápida que é. A atriz vive a editora de livros Céline, para quem Huppert apresenta seu romance.

O longa adapta a série “Decálogo” (1989), de Krzysztof Kieślowski (1941-1996) e Krzysztof Piesiewicz. Sylvie observa, através da janela de seu apartamento e com uma luneta, a vida do trio Nita, Nicolas e Theo (Virginie, Vincent e Pierre, respectivamente). A partir disso, a autora encontra inspiração nos três personagens para criar sua própria história, que ganha Anna, Pierre e Christophe como protagonistas.

O longa abre com Adam correndo atrás de um assaltante. É uma escolha interessante, pois apresenta um personagem que tenta sempre ser bondoso, por mais que, às vezes, pareça até um encosto na vida das pessoas. Esse mesmo Adam acaba ajudando Sylvie a escrever seu livro e, quando a autora o joga fora após a desaprovação da editora, ele rouba o manuscrito.

Catherine Deneuve interpreta a editora Celine.
(Foto: Divulgação/Festival do Rio)

O filme contém, sim, muitas camadas. Mas fica difícil acompanhar todas elas. Após ler algumas críticas, percebi que a decepção foi geral, e muitos consideram o longa a maior decepção do ano. Claro, com um elenco e um diretor aclamados, é natural que o público chegue com as expectativas muito altas.

É um filme confuso, que quer contar muita coisa e, no final, acaba não contando nada. Ao roubar o manuscrito, Adam se torna obcecado pela história que Sylvie criou, mas fica difícil para ele separar o que está ali do que é ficção. Talvez Farhadi tenha cumprido o propósito da narrativa, pois, às vezes, o espectador também se sente como Adam.

Um detalhe interessante é o apartamento de Sylvie estar uma bagunça, já que a autora está de mudança. Acho irônico esse detalhe, pois o longa também transmite essa sensação de bagunça e desordem. No final, são muitas narrativas para um tempo consideravelmente longo e, ainda assim, o filme acaba aproveitando mal o que tem: um elenco de extremo potencial, um bom diretor e um bom roteirista.

“Contos Paralelos” estreia no Brasil em 12 de novembro. Confira o trailer abaixo:

FICHA TÉCNICA:

Título: Contos Paralelos

Direção: Asghar Farhadi

Gênero: Drama, mistério, thriller

Duração: 139 minutos

Foto de capa: Divulgação/Festival do Rio

Crítica de Cássia Verly

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