Casos de racismo em partidas de futebol são recorrentes nos tempos atuais e a Copa do Mundo de 2026 foi palco de situações que reforçam como as populações de determinados países estão se tornando cada vez mais intolerantes. O maior torneio de futebol do mundo abrigou casos de racismo que começaram desde aeroportos, como o impedimento do árbitro somali Omar Artan de entrar nos Estados Unidos (EUA), até casos dentro e fora dos estádios, como cantos de torcedores argentinos que afirmam que os jogadores franceses não são propriamente franceses porque vieram de famílias imigrantes.
No dia 18 de julho, um dia antes do jogo final da Copa entre Espanha e Argentina, a Federação Internacional de Futebol (FIFA), que apresenta campanhas contra discriminação e contra o racismo dentro dos estádios, publicou dados com base em seu Serviço de Proteção às Redes Sociais (SMPS, sigla em inglês). O primeiro mostra que desde o começo do torneio, dia 11 de junho, a FIFA bloqueou mais de 7 milhões de publicações e comentários considerados ofensivos nas redes sociais. Um número quatorze vezes maior que o registrado na Copa de 2022, quando eliminaram 470.000 publicações.

Wallace de Moraes, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que lidera os grupos de pesquisa Quilombo, da UFRJ, e o Coletivo de Pesquisas Decoloniais e Libertárias (CPDEL), comenta sobre a forma como a Federação trata esses casos de racismo: “A própria FIFA faz marketing contra o racismo, mas só que isso é um eufemismo, uma grande hipocrisia, porque, na verdade, não tem punição para esses casos. Assim, ao mesmo tempo que faz a campanha contra o racismo, se impede um juiz de entrar num país e aceita o tipo de revista que fazem com os negros, com seus cabelos black.”
Acrescenta, também, que a FIFA é uma instituição privada e ligada ao centro mundial de poder, portanto, é ligada ao imperialismo mundial, incluindo os Estados Unidos. Logo, ao ser questionado se os casos de racismo na Copa do Mundo podem influenciar no aumento desses casos em jogos de futebol na América do Sul, concorda:
“Porque a Copa do Mundo, para quem gosta de futebol, é o lugar onde está todo mundo vendo. E na medida que as pessoas estão vendo a Copa do Mundo e ocorrem casos de racismo que não são punidos exemplarmente, abre um sinal de que se pode praticar o racismo em todo e qualquer lugar, ou seja, em todo e qualquer estádio de futebol.” Wallace esclarece.
Também afirma que os Estados e as Federações não se esforçam para combater o racismo no esporte. Observa que as medidas tomadas costumam ser simplórias, apenas para preservar os espetáculos e os patrocinadores: “Ou seja, as medidas adotadas, como notas protocolares de repúdio, punição de indivíduos isolados ou campanhas publicitárias, tratam o racismo como desvio ético pontual. Assim, ignorando que, na verdade, o racismo é a própria estrutura fundante das relações sociais modernas, ou seja, modernas e colonialistas.”
A campanha atual da FIFA contra o racismo tem como tema “listen, stand up, show up”, que incentiva os torcedores a ficarem atentos a comentários racistas nas arquibancadas e não se silenciar ao testemunhar um desses momentos. Outro gesto incluso nesta campanha foi o Gesto Antirracismo, representado pelo cruzamento dos braços simbolizando um “X” e serve para ser usado dentro do campo, assim, jogadores, técnicos e árbitros podem se posicionar contra casos de racismo. O gesto dá início a um protocolo que decide se a partida será, ou não, interrompida.
Este gesto foi utilizado apenas uma vez durante os jogos desta Copa do Mundo. Nos jogos pelas oitavas de final do dia 7 de julho, na partida da Argentina contra o Egito, o técnico da seleção do Egito, Hossam Hassan, fez o gesto e em seguida levou um cartão amarelo. A situação foi entendida como um protesto contra o árbitro e não um caso de discriminação racial, então o protocolo antirracismo não foi iniciado.
Porém, essa mesma partida foi palco de episódios de racismo contra o youtuber norte-americano Darren Jason Watkins Jr. do canal “IShowSpeed”. Ele gravava uma transmissão ao vivo no Youtube e, enquanto saía do estádio, conseguiu registrar um torcedor argentino fazendo gesto de macaco para ele. No dia 21 de agosto, a FIFA tomou a decisão de aplicar sanções contra a seleção Argentina, entre as razões estaria os comportamentos discriminatórios da torcida.

Em entrevista, o professor Adriano de Freixo do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (INEST/UFF), especialista em História das Relações Internacionais e autor do livro “O outro lado do jogo: Futebol, poder e relações internacionais”, onde o esporte é associado às relações internacionais, afirma que, apesar de casos de racismo no futebol serem recorrentes, nos últimos anos esses casos deixaram de ser vinculados a torcidas organizadas específicas, conhecidas por seus discursos de ódio.
“Existem torcidas organizadas de diferentes clubes mundo afora que se caracterizam historicamente por posições políticas extremistas, por discursos de ódio e pelo racismo como os ‘Yomus’ do Valencia (Espanha), que se tornou conhecida por aqui devido a ataques racistas contra Vini Jr. Mas nos últimos anos, as manifestações racistas se ampliaram, deixando de ser algo particular de facções específicas, passando a ocorrer frequentemente também entre torcedores ‘não organizados’, como se viu durante a Copa do Mundo e em outras competições internacionais recentes”, de Freixo expõe.
O especialista também sustenta que não é possível desvincular esses casos do crescimento global da extrema direita que vem terminando com padrões civilizatórios e incentivando pessoas a externar opiniões controversas e odiosas.
“As lideranças, partidos e organizações da ultradireita angariam apoio político e eleitoral estimulando a dicotomia amigo/inimigo e com isto constroem um discurso supremacista, que incentiva o ódio ao outro, àquele que é caracterizado como ‘diferente’”, o professor de Relações Internacionais explica.
Adriano de Freixo enfatiza, também, que o esporte e a política sempre estiveram lado a lado, como na Copa de 1934 pelo regime fascista italiano ou na Copa de 1978, pela ditadura argentina. Acrescenta que houveram elementos na Copa de 2026 que consolidaram a relação entre o esporte e a política.
Diz que pela primeira vez um país em conflito armado, os Estados Unidos, foi sede de um megaevento esportivo. Como um segundo ponto, de Freixo informa que em eventos desta magnitude devem criar modos de facilitar a circulação do público no país-sede:
“Só que nesta Copa aconteceu o contrário. Tendo ocorrido em um momento em que o governo dos EUA procura restringir a entrada e a circulação de pessoas e atribui poderes discricionários às autoridades alfandegárias, para definir quem pode ou não pode entrar no país.”
Por último, o professor afirma que a FIFA costuma intervir nos países-sede com exigências que não ocorreram desta vez: “A FIFA, que normalmente exerce uma forte ingerência nos países-sede de seus eventos, impondo-lhes uma série de exigências, vide o caso do Brasil, em 2014, ou da Rússia, em 2018, foi extremamente complacente com uma série de situações, no mínimo, controversas que aconteceram em território estadunidense. Por diversas vezes foi, totalmente subserviente aos caprichos e demandas do presidente Donald Trump. Ou seja, Gianni Infantino e a FIFA ficaram de joelhos para Trump.”
Já Marcelo Carvalho, fundador do Observatório da Discriminação Racial no Futebol (ODRF), se posiciona um pouco diferente. Concorda que política e futebol sempre se misturam, ainda mais dentro da FIFA, porém não se mostra surpreso com o posicionamento de Infantino:
“Então, assim, não é que ele [Gianni Infantino] fez no país sem saber, sem conhecer o governo. Ele é uma pessoa que parece, pelas fotos e pelos posicionamentos, extremamente alinhada ao discurso e ao método de governo do Donald Trump.”
Em contraposição a Wallace de Morais, Carvalho enxerga que o próprio cenário político brasileiro possa gerar o aumento de casos de racismo, e não a falta de reação a casos vistos na Copa do Mundo. Realça que o que pode influenciar a discriminação dentro dos campos brasileiros é o momento de eleições e o embate entre visões políticas diferentes.
De acordo com o último relatório publicado pela ODRF, em 2023, mostra que as denúncias de violência no futebol brasileiro aumentaram desde 2014, quando o primeiro relatório da instituição foi publicado. Em seu primeiro ano foram identificados 36 casos de racismo no futebol, 25 dentro do Brasil. Enquanto, quase dez anos depois, em 2023, foram identificados 130 casos brasileiros.
Ao ser perguntado, Marcelo Carvalho afirma que, institucionalmente, não se sabe lidar de forma mais ágil com quem comete atos de racismo em partidas de futebol: “quando são vítimas, a nota é rápida, mas quando são acusados é uma dificuldade muito grande de entender o processo. De entender que muitas vezes o clube é responsável porque algo aconteceu dentro das suas dependências. Mas o ato de um torcedor precisa ser condenado e o clube precisa trabalhar para identificar quem é esse torcedor.”
Por último, diz sobre a legislação brasileira e o combate ao racismo. Marcelo enxerga que há leis adequadas mas há dificuldades de as colocar em prática.
“Qualquer pessoa que comete racismo deveria ser presa, principalmente em flagrante, quando a gente tá falando de estádio de futebol. E aí existe uma dificuldade muito grande das autoridades, da segurança do estádio, de conseguir identificar essa pessoa.”
Também relembra o artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva (CBJD) que diz sobre a pena para quem praticar ato discriminatório relacionado a etnia, raça, sexo, cor, idade ou condição de pessoa portadora de deficiência. E retoma à legislação da própria FIFA, sobre interromper a partida e tentar identificar o autor, contudo afirma que essa é pouco colocada em prática.
Logo, a política é intrínseca ao futebol, ainda mais quando países da Ordem Mundial assumem posições radicais e discursos polarizados ganham força por todo o mundo. A distância entre ter uma legislação que puna e a implementação efetiva destas leis também é evidente, visto a dificuldade de nomear os autores dos atos racistas e discriminatórios.
Foto de capa: @didgeman/Pixabay
Reportagem de Natália Zichtl.
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