Em meio a constantes transformações sociais e culturais, a literatura mantém um papel central na forma como interpretamos o mundo, atravessando gerações e diferentes contextos. Seja no ambiente escolar, na formação pessoal ou no lazer, os livros são fundamentais para que os indivíduos compreendam a si mesmos e a realidade ao seu redor. Além de desenvolver o pensamento crítico e a educação, especialmente dos jovens, a leitura atua no campo emocional, permitindo a identificação com histórias e vivências diversas.
Nesse cenário, refletir sobre o impacto da literatura é essencial para entender sua verdadeira representatividade. Muito além de uma atividade individual, as obras exercem uma função coletiva: conectar experiências, ampliar perspectivas e ajudar a construir novas formas de enxergar a sociedade.
Segundo a professora de literatura Jessica Brandão, os livros podem servir como um espelho da sociedade:
“Por meio da verossimilhança, a literatura age como crítica social, retrato da realidade, denúncia e reflexão política. Podemos, por exemplo, ler ‘O Menino do Pijama Listrado’, do escritor irlandês John Boyne, e termos empatia por personagens vítimas do nazismo.” explica a professora.

(Foto: Reprodução/Acervo Pessoal)
Na literatura inglesa, por exemplo, as obras de William Shakespeare revelam muito sobre as tensões políticas, sociais e humanas de seu tempo, abordando temas como poder, ambição, amor e traição. As peças não apenas retratam histórias individuais, mas expõem questões universais que continuam atuais, mostrando como os dilemas humanos atravessam gerações. Dessa forma, a literatura não só registra a realidade de uma sociedade, como também faz com que o leitor compreenda melhor tanto o passado quanto o presente.
A professora também comentou sobre como as obras consideradas clássicas conseguem dialogar com a sociedade atual: “Eu considero a literatura atemporal, ainda mais se tratando de textos dramáticos como ‘Romeu e Julieta’, ‘A Megera Domada’ e ‘Rei Lear’, que são adaptados até hoje para a TV e o cinema. Esses três exemplos abordam temas como amor, traição, relações familiares, regras sociais… temas que ainda debatemos hoje, e ouso dizer que ainda debateremos por muito tempo.”
Para além de sua relevância histórica, os livros também possuem uma função política e social de extrema importância na vida pessoal de cada indivíduo, permitindo que as pessoas conheçam e compreendam outras realidades sem precisar sair de casa.
“Acredito que a literatura seja uma das melhores formas de termos contato com outras realidades e sairmos um pouco das bolhas em que vivemos. A partir da leitura de obras como ‘O Quarto de Despejo’, da autora brasileira Carolina Maria de Jesus, podemos acompanhar o diário de uma mãe solo, favelada e catadora de recicláveis, que vira, após muita luta, uma escritora de sucesso. A sua arte literária nos aproximou e deu voz a uma personagem que existe, quase invisível, na sociedade, e nos faz questionar quantas outras ‘Carolinas’ estão passando fome em seus barracos, vítimas das desigualdades sociais.” diz a professora.
Além de compreender outras realidades, muitas vezes os livros são um porto seguro para os leitores, que, ao passar por períodos difíceis, se agarram aos seus personagens favoritos. Assim, eles também têm o poder de nos ajudar a entender nossos próprios sentimentos, tornando mais fácil assimilar situações de forma externa e, às vezes, até mais lúdica do que na vida real. A professora explica que existe uma função da literatura que aborda esse aspecto: “A função conhecida como ‘catártica’, uma vez que, por meio da literatura, podemos libertar emoções e sentimentos, o que promove um certo alívio.
“Em diversos momentos da minha vida, consegui enxergar em personagens fictícios situações e comportamentos que eu também vivenciei, mas para os quais nunca consegui encontrar as palavras certas para externalizar”, finaliza Jessica.
Para a estudante Gabriela Ferreira, de 19 anos, a leitura foi essencial para que ela enxergasse diferentes realidades, especialmente aquelas muito distintas da sua: “Muitas vezes a gente vive em uma bolha e nem percebe as dificuldades que outras pessoas passam. A leitura meio que traz esse alerta, sabe? Faz a gente pensar mais, questionar mais, até a mim mesma, e mudar a forma como eu vejo certas situações.”
A estudante completa contando a forma como a leitura ajudou a lidar com seus sentimentos ao longo dos anos.
“A leitura me ajudou muito a entender melhor alguns sentimentos, principalmente porque eu sempre li livros além da minha faixa etária. Quando eu comecei a ler, eu lia muito romance juvenil, tipo os livros da Paula Pimenta, e eu me sentia muito representada. Inclusive, ‘Minha Vida Fora de Série’ foi um livro que me fez entrar no mundo da leitura e é muito especial pra mim. Mesmo que a história não fosse igual à minha, o ambiente escolar, os sentimentos e as situações eram bem próximos da minha realidade, então eu me identificava bastante e acabei criando um carinho muito grande por essa história”, diz a estudante.
A leitura como entretenimento também é um fator importante a se discutir. Por conta da escola e de suas leituras obrigatórias, muitos acreditam que ler serve apenas para aprender ou para realizar avaliações, o que não é necessariamente o caso. Há diversas pessoas que enxergam os livros como puro entretenimento, comparando-os a filmes ou séries sem imagens.
No Brasil, existe um recorte entre os leitores que envolve classe social, gênero, idade, região e renda. Em 2024, a Fundação Itaú divulgou os dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, que mostram que apenas 47% da população é considerada leitora, ou seja, lê pelo menos um livro por ano, sendo mais da metade desse grupo composta por mulheres. Além disso, 81% dos entrevistados não compraram nenhum livro nos três meses anteriores à pesquisa. Entre aqueles que ganham até um salário mínimo, apenas 13 pessoas compraram livros nesse período, enquanto entre os que recebem mais de dez salários mínimos, esse número sobe para 39.
Esses dados ajudam a explicar por que, segundo o G1 em uma publicação de 2023, o Rio de Janeiro perdeu cerca de 60 livrarias em seis anos. Somados aos avanços tecnológicos, como o Kindle, leitor digital da Amazon que oferece praticidade e preços mais acessíveis nos e-books, esses fatores evidenciam como o acesso à leitura ainda é desigual. Para além do conhecimento, muitas pessoas também são privadas de cultura, estímulo à criatividade e até do entretenimento. Com o passar dos anos, ler se tornou um hobby caro e, infelizmente, cada vez mais inacessível para uma parcela da população.

(Foto: Reprodução/Pexels)
A estudante comenta que o aumento dos preços dos livros foi um fator que a fez ler menos por um tempo: “Conforme os livros foram ficando mais caros, principalmente em livrarias, eu comecei a procurar opções mais baratas, como comprar pela Amazon, mas mesmo assim ainda pesa. Por isso, eu acabei investindo em um Kindle, porque no fim acaba sendo mais acessível. Sinceramente, se não fosse por isso, eu não leria tanto quanto eu leio hoje. Comprar livros físicos virou quase um luxo, pensando que muitos custam 50, 60 até 70 reais. Mesmo com outras formas de leitura, como pelo celular, eu não gosto muito, então isso também limita.”
Nos anos da pandemia, a partir de 2020, popularizou-se no TikTok uma categoria conhecida como “booktok”, em que diversos influenciadores passaram a divulgar livros como algo divertido, e não apenas como uma obrigação. Em março deste ano, o governo lançou o MEC Livros, um aplicativo com títulos gratuitos que busca diminuir essa disparidade e ampliar o acesso da população à literatura, valorizando a leitura como um aspecto essencial. Muitos desses livros foram divulgados no “booktok” e agora estão disponíveis gratuitamente, além de alguns criadores de conteúdo terem sido convidados pelo Ministério da Educação para eventos de divulgação do projeto em Brasília.
Essas iniciativas se tornam necessárias uma vez que a literatura tem todas essas importâncias citadas anteriormente. Um país com baixo índice de leitura tende a formar indivíduos com menor desenvolvimento do pensamento crítico, menos criatividade e menor capacidade de empatia, além de enfrentar dificuldades na construção de uma sociedade mais consciente. Assim, incentivar o acesso e o interesse pela leitura não deve se limitar apenas ao aprendizado, mas também valorizar o contato com os livros como forma de prazer e cultura.
Assim, muito mais do que apenas palavras em um papel, a literatura transforma as pessoas ao ampliar horizontes, provocar questionamentos e estimular novas perspectivas. Em um contexto em que a leitura disputa espaço com outras formas de conteúdo, especialmente o digital, seu papel se reafirma na construção de indivíduos mais sensíveis, críticos e conscientes. Ao permitir que alguém se reconheça nas histórias e, ao mesmo tempo, entre em contato com realidades diferentes da sua, a literatura segue sendo uma ferramenta essencial de compreensão da vida, capaz de influenciar não apenas o que pensamos, mas também como nos posicionamos no mundo.
Foto de capa: Reprodução/Pexels
Reportagem de Carolina Bento, com edição de texto de João Gabriel Lopes
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