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Saiba como a arborização urbana e o racismo ambiental afetam o Rio de Janeiro

Em conversa com a Agência UVA, especialistas explicam quais são os perigos da falta de arborização urbana

Você sente falta de uma sombra na sua cidade? Sente que o ar é mais leve em bairros mais ricos, enquanto em áreas mais pobres o calor é mais intenso e a exposição à poluição maior? Isso tem motivo e o principal deles é o racismo ambiental. A distribuição desigual das áreas verdes pelas cidades brasileiras revela mais que um problema de planejamento urbano: apresenta uma história de exclusão social e racial.

Esse problema vem afetando os cidadãos das cidades periféricas por anos, e nenhuma melhora está sendo feita. No estado do Rio de Janeiro, essa diferença é nítida entre as zonas nobres da cidade do Rio e a Baixada Fluminense, uma exemplo que evidência a questão apresentada.

Especialista no assunto, Pedro Nassif, graduando em Gestão Pública para o Desenvolvimento Econômico e Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), técnico em Agroecologia pela Colégio Técnico da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro e idealizador do projeto “Arboriza já”, demonstra os principais motivos para essa ocorrência:

“Quando a gente vê bairros sem arborização, geralmente o mesmo local tem um nível socioeconômico menor. Ou seja, nós vemos que alguns locais foram planejados, outros não. Por exemplo, a Barra da Tijuca foi o local planejado, se você olhar pelo mapa, você vai ver um desenho incrível. Já no subúrbio, na Zona Oeste, não foi feito planejamento. Desde a época do Pereira Passos, quando a gente precisa tirar essa galera pobre, maioria imigrantes, e empurrar elas para dentro. Assim vai se formando essa interiorização do Rio de Janeiro”, diz o especialista.

Segundo o Censo do IBGE de 2022, 37,8% dos moradores do Rio de Janeiro vivem em ruas sem nenhuma árvore, enquanto as áreas mais arborizadas se concentram em bairros de maior renda, como Gávea e Jardim Botânico. A Sociedade Brasileira de Arborização Urbana destaca que as zonas Norte e Oeste são as mais prejudicadas por esse problema.

Ao ser perguntada sobre as principais discrepâncias entre os dois locais, a aluna de Relações Internacionais Luiza Bittencourt, de 21 anos, expõe suas opiniões entre seu local de trabalho e sua casa:

“Eu acho que o clima, no geral, é o primeiro a se perceber, a cidade do Rio é fresca e com sombra, a Baixada é sempre abafada e quente. No verão, sempre tem uma insegurança de “qual vai ser o tamanho do estrago da próxima chuva?”, enquanto, na cidade o impacto é sempre menor”, conta a moradora.

Nesse contexto, o racismo ambiental é introduzido ao problema. O conceito de racismo ambiental ajuda a entender por que essa desigualdade na arborização não é aleatória, ela segue padrões históricos de exclusão. A jornalista ambiental e Gestora de Projetos Ambientais, Fabrícia Sterce, explica qual é a ligação entre os dois assuntos:

“Resultado de processos históricos e políticas urbanas excludentes, o racismo ambiental expõe grupos racializados a piores condições ambientais e nega a eles infraestrutura ecológica básica, uma vez que as árvores reduzem o calor, melhoram a qualidade do ar, ajudam a absorver a água da chuva e diminuem enchentes”, conta Fabrícia.

Segundo a especialista, esses fatores impactam diretamente a saúde, aumentam doenças, agravam crises em eventos extremos e reduzem a qualidade de vida. “Os mesmos grupos que têm menos acesso a renda, serviços e direitos também são os mais expostos aos impactos ambientais, mostrando que a crise climática não afeta a todos igualmente, ela aprofunda e evidencia desigualdades já existentes”, destaca a jornalista.

Tudo isso apenas confirmam o que muitos já sabiam: a discussão sobre arborização urbana não pode ser dissociada das desigualdades históricas que moldam as cidades. Não se trata apenas de ausência de árvores, mas de uma negação sistemática do direito ao bem-estar e à qualidade de vida.

Ao ser perguntado sobre como solucionar esse problema, Pedro afirma que não é tão complexo de se resolver, o “básico” funciona: projeto de leis, políticas públicas e seriedade com a população. Ele também destaca que muitos se aproveitam da temática, plantando palmeiras, mas elas não são úteis na arborização de uma cidade:

“Palmeira é uma planta ornamental, que tem um poder de fotossíntese baixíssimo, não se compara a uma árvore comum. A sombra dela é pouca, e não tem o poder de resfriamento”, explica o ativista.

Enfrentar o racismo ambiental por meio da arborização é um passo importante rumo a cidades mais sustentáveis e inclusivas. Ao ampliar o acesso a áreas verdes e reconhecer as desigualdades existentes, abre-se caminho para transformar o ambiente urbano em um espaço mais saudável para todos. O desafio é grande, mas as soluções passam, inevitavelmente, por justiça social, planejamento consciente e compromisso contínuo com a equidade.

Foto de capa: Divulgação/Unequal Scenes

Reportagem de Maria Eduarda Nogueira, com edição de texto de João Gabriel Lopes

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