Geral

Nostalgia em Cartaz: o domínio dos remakes, reboots e continuações no cinema atual

A indústria cinematográfica tem enfrentado críticas sobre a falta de originalidade, com muitos remakes e continuações dominando as telas. Especialistas como Guilherme Reis e Arthur Cezar comentam que essa tendência é impulsionada por razões financeiras e comportamentais do público. No entanto, produções originais ainda surgem e são valorizadas.

Entre reboots, continuações, remakes e live-actions a sensação de déjà vu parece estar cada vez mais presente nas salas de cinema. Nos últimos anos, franquias consagradas retornaram às telonas e universos já conhecidos ganharam novas versões, trazendo o debate sobre a possível falta de originalidade em Hollywood. Mas será que o cinema realmente deixou de investir em novas histórias ou essa percepção ignora produções originais?

A fim de entender melhor sobre o tema, a Agência UVA conversou com o professor de comunicação da Universidade Veiga de Almeida, Guilherme Reis, e com Arthur Cezar, estudante de Cinema e Audiovisual da UFF, que compartilharam diferentes perspectivas sobre esse questionamento.

Para Reis o aumento produções populares está diretamente ligado à lógica econômica da indústria cinematográfica. Ele explica que, como qualquer setor orientado ao lucro, o cinema tende a investir em projetos com maior previsibilidade de sucesso. Embora a reutilização de histórias conhecidas não seja um fenômeno novo, de modo que (obras consagradas como, os grandes clássicos da literatura e do teatro foram adaptados para as telonas) o risco financeiro atualmente é maior, com orçamentos de produção e marketing cada vez mais altos, os estúdios preferem apostar cada vez mais nesses universos conhecidos, buscando maior retorno garantido nas bilheterias.

‘O Diabo Veste Prada 2’. Foto: Divulgação

Já para Arthur Cezar, essa situação não é mera coincidência.

“ A partir do momento que as empresas de entretenimento começam a valorizar prioritariamente o lucro em detrimento do conteúdo, eles apostam seus investimentos em franquias que no passado já fizeram sucesso e podem novamente garantir esse retorno.”

Existe grandes diferenças ao comparar como o cinema é feito e consumido hoje, com a maneira que era produzido décadas atrás. Guilherme Reis explica que a sétima arte era a principal fonte de conteúdo do público, quando franquias grandes , “arrasta-quarteirões”, como Star Wars e Jurassic Park foram lançadas, todos tinham acesso aos mesmos filmes. Atualmente, no entanto, o acesso ao audiovisuais está à mão, literalmente, demonstrando um cenário marcado pela fragmentação e pelo consumo.

“ Hoje, a característica fundamental do nosso tempo é a fragmentação. Vivemos na era dos nichos e das bolhas algorítmicas.” Explica o professor.

Como estudante de cinema, Cezar traz uma reflexão à respeito da maneira como gerações distintas interpretam as obras de maneiras completamente diferentes, de modo que a volta de roteiros já consagrados para a atualidade traga uma nova leitura.

“Dependendo do contexto inserido, uma mensagem pode ganhar muito mais peso e agregar ainda mais conteúdo. Da mesma forma, o tempo pode nos ajudar a identificar comportamentos e visões não mais apropriados. Revisitar o passado com o pé no presente é uma ótima forma de garantir um futuro consciente.”

Essa especulação ganhou cada vez mais força e indignação, por parte do público, diante dos diversos roteiros anunciados neste início de ano como: Live-actions de “Moana e “Rapunzel”, “O Diabo Veste Prada 2”, série reboot de “Harry Potter e o remake de “De repente 30. Embora pareça não ser coerente continuar com produções que o público aparenta estar saturado, os números de bilheteria ajudam a explicar essa estratégia. Nos últimos cinco anos após a pandemia, em quatro deles as maiores bilheterias foram de continuações, o que sugere que o próprio público também contribui para a continuidade dessas produções.

Expresso de Hogwarts. Foto: Aidan Monaghan/HBO.

Situação que Guilherme Reis diz resultar em um ciclo entre indústria e público. Enquanto os estúdios aproveitam roteiros muito aclamados para lucrar, parte do público também busca o conforto de universos já conhecidos. Ainda assim, ele ressalta que histórias originais continuam surgindo e cativando o público.

Tivemos exemplos recentes de grande impacto, como ‘A Substância’ e ‘Pobres Criaturas’, que desafiam a estética tradicional. No cenário nacional, o sucesso de ‘Ainda Estou Aqui’ demonstra a força da nossa identidade e memória. Este ano, produções como ‘Agente Secreto’ e ‘Valor Sentimental’ continuam a reforçar que há um público ávido por propostas que fujam da fórmula pronta.” afirma o comunicador

Como telespectador, Arthur Cézar reflete sobre como o público reage ao se deparar com frequentes anúncios de live-actions, continuações e remakes. Para ele, é um conteúdo que atrai muitos fãs, porém tem ganhado cada vez mais repulsa por muita parte do público.

“A nostalgia é uma arma poderosa. Mesmo assim, eu sinto que com a extração excessiva desses universos conhecidos, ela vem perdendo muita força. Tanto é que muitas obras originais (no cinema) vem ganhando o coração do público. Acredito que esse espaço ainda pode ser conquistado!”.

Diante de tantas releituras, afirmar que o cinema deixou de investir em novas histórias pode ser uma simplificação da situação. A grande quantidade de remakes, continuações e adaptações, é um fato comercial. No entanto, produções originais continuam sendo desenvolvidas e lançadas ainda que sejam em menor quantidade, além de serem admiradas por um público fiel.

Reportagem de Julia Bohrer, com edição de texto de Ana Carolina Freitas

Foto de capa: Divulgação/Walt Disney Pictures e Reprodução/HBO

LEIA TAMBÉM: Cinema contra o esquecimento: por que filmes sobre a ditadura são essenciais em um país sem memória

LEIA TAMBÉM: Crescer com Hannah Montana e o melhor dos dois mundos

0 comentário em “Nostalgia em Cartaz: o domínio dos remakes, reboots e continuações no cinema atual

Deixe um comentário