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Patti Smith abre mais uma vez sua memória em “Pão dos Anjos”

Novo livro de Patti Smith retorna as suas memórias e reflete sobre resiliência e coragem.

Ao longo da última década, a cantora, compositora e poeta norte-americana Patti Smith, proclamada a “madrinha do Punk”, ganhou cada vez mais notoriedade em livros de memórias em que revisita seu passado e reflete sobre o presente. Em “Só Garotos”, Smith narra sua amizade basilar com o fotógrafo Robert Mapplethorpe. Porém, em outros trabalhos recentes, como “Linha M” e “O Ano do Macaco”, a artista de “Horses” conta sobre suas experiências atuais como artista, mulher, viajante e andarilha. Em “Pão dos Anjos”, livro inédito lançado em novembro no exterior e em março pela Companhia das Letras, a poeta visionária retorna ao passado, desde sua infância pobre na Filadélfia, até seu encontro com a arte e seu falecido marido, Fred “Sonic” Smith da banda precursora do punk MC5.

Patti Smith para a capa do álbum “Wave” de 1979. (Foto: Robert Mapplethorpe)

O personagem principal de “Pão dos Anjos”, além de Patti Smith, é sua “corcova rebelde”, ou “rebel hump” em inglês. Esta é uma metáfora sobre sua resiliência e força para seguir em frente diante de momentos difíceis. Durante sua infância, Smith enfrentou dificuldades, como a pobreza e diversas doenças e enfermidades que a paralisavam, como poliomelite, escarlatina e tuberculose. Sua infância é narrada de forma sublime, com uma riqueza de detalhes imersiva para uma criança sonhadora, que encontra nos livros uma forma de escapatória lúdica.

Já adulta, a futura cantora de “Because the Night” e “Gloria” passou por uma gravidez indesejada aos vinte anos, da qual levou à diante e deu a criança para adoção. Em seguida, se muda para Nova York, aonde encontra seu grande amigo Robert Mapplethorpe, fato passado neste novo livro de forma simples, por Smith já ter contado a história detalhadamente em “Só Garotos”.

Patti Smith e Robert Mapplethorpe no Hotel Chelsea, em Nova York, no final dos anos 1970. (Foto: Lloyd Ziff)

Patti, antes determinada a ser apenas uma escritora, se encoraja como uma voz do que seria o punk, antes de bandas como Ramones e Sex Pistols. Misturando poesia e art rock, Smith conquista seu espaço em clubes de rock como o CBGB, e respeito e admiração de Bob Dylan, seu grande herói na música, e poetas como Allen Ginsberg e William S. Burroughs, lendas do movimento beat. De forma direta, Patti fala sobre seus discos clássicos lançados na segunda metade dos anos 1970, “Horses”, “Radio Ethiopia”, “Easter” e “Wave”, a construção de letras, turnês, experiências enquanto performer além da poesia.

“Horses”, primeiro álbum de Patti Smith, é um clássico do que viria a se chamar punk. (Foto: Reprodução/Apple Music)

Na virada para os anos 1980, Patti conhece seu marido Fred Smith, e decide um hiato em sua carreira na música. Se muda para Detroit, capital de Michigan nos Estados Unidos, e abdica do status de artista pública sem ser tradado como um grande sacrifício. O amor entre Fred e Patti é narrado como um encontro de almas. Foi um compartilhamento mútuo de ideias e sentimentos que resultou em dois filhos e uma união entre 1980 e 1994, com a morte de Fred Smith.

A partir da segunda metade, “Pão dos Anjos” aborda o fim das vidas presentes para Patti Smith: Robert Mapplethorpe e seu companheiro Sam Wagstaff faleceram em decorrência de complicações de HIV/AIDS no final dos anos 1980. Fred Smith e o irmão de Patti, Todd, morreram em um intervalo curto de tempo, em 1994. Além de perdas consideráveis de seus pais, nos anos 2000, e de amigos artistas e celebridades como William Burroughs, Allen Ginsberg e Susan Sontag.

Patti Smith e seu marido Fred “Sonic” Smith em 1980. (Foto: Reprodução/Seiji Matsumoto)

“Pão dos Anjos” encerra com um retorno a expressão “corcova rebelde” de Patti Smith e como essa metáfora física nutre a força de seguir em frente em meio a conflitos e perdas. Sua “rebel hump” a permite voltar a escrever, publicar livros best sellers ao longo dos anos 2010, e prosseguir com sua carreira musical. Patti Smith conclui seu novo livro de memórias restabelecendo o valor de manter sua memória viva dentro de sua literatura confessional e íntima.

Foto de capa: Divulgação/Steven Sebring

Resenha crítica de Vinicius Corrêa, com edição de texto de Gabriel Goulart

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