Crônica Cultura

Crescer com Hannah Montana e o melhor dos dois mundos  

Em sua primeira crônica, a repórter Ana Carolina Freitas relembra o especial de 20 anos de Hannah Montana. O texto resgata memórias de quem cresceu nos anos 2000 acompanhando a série

Quando anunciaram o especial de 20 anos de Hannah Montana, a notícia pareceu simples demais para o tamanho da lembrança que ela carrega. Para muita gente é só uma série antiga do Disney Channel. Para quem cresceu nos anos 2000, porém, ela foi quase um ritual diário. 

Eu era uma dessas crianças que acreditavam, com a seriedade de quem ainda não aprendeu a duvidar do mundo, que aquela história realmente significava alguma coisa importante, e hoje em dia eu tenho certeza que significa. A ideia de ter uma vida comum durante o dia e subir no palco à noite, como fazia Hannah Montana — o alter ego de Miley Stewart — parecia a prova de que qualquer garota podia viver duas versões de si mesma: a da rotina e a dos sonhos. 

Uma das minhas primeiras lembranças de Natal tem, curiosamente, a ver com essa série. Eu devia ser muito pequena, mas lembro perfeitamente de acordar na manhã de Natal e correr até a janela, onde sempre deixávamos um sapatinho. Dentro dele estava uma boneca da Hannah Montana, que faz parte da minha coleção até hoje. Até hoje, essa é uma das lembranças mais vividas da minha primeira infância. Anos depois, também no Natal, pedi ao Papai Noel um violão — não porque eu já sonhasse em tocar, mas simplesmente porque a Miley tocava na série. Para mim, aquilo já era motivo suficiente. 

Mas a minha relação com a série tem um episódio que até hoje minha mãe conta rindo — e um pouco preocupada. 

Quando assisti pela primeira vez ao último episódio da última temporada, eu simplesmente não estava preparada para aquilo. A despedida, o fim da história, a sensação de que algo que sempre esteve ali estava terminando… tudo isso foi demais para uma criança que levava a televisão muito a sério. 

Passei tão mal que tive febre. Literalmente. Minha mãe precisou me levar ao médico e, depois daquele dia, tomou uma decisão drástica: eu estava proibida de assistir ao final da série. Por anos. 

Não era exagero. Sempre que tentava ver de novo, a mesma sensação voltava — um misto de tristeza, nostalgia e aquela estranha impressão de que um pedaço da infância estava acabando diante da tela. 

E, de certa forma, minha mãe também acabou entrando nessa história. No aniversário dela, por muita insistência minha, fomos ao cinema assistir ao filme de Hannah Montana. Era o programa que eu mais queria fazer naquele dia, e ela aceitou. Talvez para me agradar. Talvez por curiosidade. O fato é que, com o tempo, aquela insistência infantil acabou funcionando: Miley Cyrus virou também uma das cantoras favoritas da minha mãe. Até hoje existem músicas daquela época que imediatamente nos lembram uma da outra. 

Hoje, olhando para trás, parece até engraçado pensar que um episódio de televisão teve esse efeito. Mas talvez seja justamente isso que explique a força cultural de séries como Hannah Montana. Elas não eram só entretenimento. Eram companhia. 

A geração que cresceu assistindo ao Disney Channel cresceu também acompanhando a própria Miley Cyrus. Vimos a menina que interpretava uma adolescente tentando equilibrar fama e vida comum — e, de alguma forma, fomos crescendo ao mesmo tempo. 

Agora, duas décadas depois da estreia da série, existe algo quase simbólico nesse reencontro. Eu também completei vinte anos. 

E perceber isso é estranho e bonito ao mesmo tempo: a série que marcou a minha infância está fazendo a mesma idade que eu. 

Talvez seja por isso que o especial de aniversário não pareça apenas uma celebração televisiva. Para muitos de nós, é também uma pequena celebração pessoal — um lembrete de que, entre episódios, músicas e tardes em frente à TV, a infância foi passando. 

E que, mesmo depois de tanto tempo, ainda existe uma parte da gente que lembra exatamente como era acreditar que a vida podia ser, sim, the best of both worlds

Crescer com algo ao qual se apegar, com personagens e histórias que acompanham nossas fases, e poder se dizer fã é um dos sentimentos mais genuínos que existem. Talvez seja justamente esse tipo de amor — construído na infância e carregado pela memória — que faz com que certas produções atravessem gerações e continuem vivas, a ponto de voltarem para ser celebradas em um especial vinte anos depois. 

No fim das contas, talvez a própria Miley Cyrus já tivesse explicado tudo isso muito antes, quando cantou que “you’ll always find your way back home”. E, de alguma forma, vinte anos depois, a gente realmente encontra. 

Crônica por Ana Carolina Freitas

Foto de capa: Divulgação/Disney

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2 comentários em “Crescer com Hannah Montana e o melhor dos dois mundos  

  1. Avatar de exuberantnoisilyaf6f0170ef
    exuberantnoisilyaf6f0170ef

    Amei relembrar essa paixão através da sua bela escrita. Foi lindo ver você radiante no meu aniversário assistindo o filme da Hannah e realmente gosto da Miley, ela é uma artista incrível!

  2. Avatar de Rafael Schiavo
    Rafael Schiavo

    muito bom 👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼👏🏼☝🏼

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