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“Slow Horses” dá vida ao imaginário da espionagem através da sátira

Slow Horses, de Mick Herron, propõe um olhar irônico e pouco glamouroso sobre o serviço secreto britânico ao acompanhar agentes relegados à burocrática Slough House após falhas profissionais, sob o comando do corrosivo Jackson Lamb.

Lançado em janeiro de 2026 pela Intrínseca, o suspense Slow Horses, de Mick Herron, traz uma visão fora do óbvio da dinâmica do serviço secreto britânico. Ao apresentar a Slough House, um departamento deprimente para onde são enviados agentes que cometeram infrações ou falhas operacionais, o thriller constrói um espaço burocrático e punitivo, no qual esses espiões passam a desempenhar tarefas contratuais e administrativas como forma de punição. Comandados por Jackson Lamb, os denominados “slow horses”, termo que humilha os agentes ao remetê-los à imagem de “cavalinhos lentos” dentro da hierarquia, passam os dias em um ambiente opressivo, constantemente confrontados com a própria ineficiência.

River Cartwright é enviado para a Slough House após fracassar na prevenção de um suposto ataque terrorista que resulta em prejuízos milionários e na interdição da estação de King’s Cross. Convencido de ter sido sabotado por um colega, River vê surgir uma chance de redenção quando um jovem paquistanês é sequestrado por um grupo extremista que ameaça transmitir sua execução ao vivo. O caso desperta os instintos investigativos do protagonista e dos demais confinados à condição de slow horses.

A trama reúne uma quantidade significativa de personagens. Embora o autor busque explorar suas individualidades e vidas pessoais, essa escolha compromete o ritmo da narrativa. As descrições e analogias alongadas atrasam o andamento da história e diluem o conflito central, especialmente diante da existência de múltiplos núcleos narrativos.

A prosa de Herron se mostra mais eficaz nos momentos de ironia e crítica social. O autor brinca com interesses, ambições e regimes de direita e esquerda, revelando as contradições internas do serviço secreto. Ainda assim, até a metade do livro predomina-se uma sensação de estagnação, com capítulos que pouco avançam a trama.

Essa estrutura teria se beneficiado de maior alternância com a narração do jovem Hassan e dos sequestradores. Nessas passagens, Herron se destaca ao construir um personagem sensível, explorando questões de pertencimento cultural em contraste com a violência e os ideais difusos de seus algozes.

Poucos personagens se sobressaem dentro da administração da Slough House. Sid Baker surge como um ponto de apoio feminino na trajetória de River, mas sua participação é breve e limitada. Lamb, por sua vez, concentra o humor ácido que atravessa a obra e acaba se tornando uma das figuras mais interessante do conjunto. No geral, mesmo personagens recorrentes têm impacto reduzido.

Foto: Divulgação AppleTV+

Outro ponto questionável está na construção dos diálogos. Na adaptação televisiva, já em sua quinta temporada, esses embates funcionam de forma mais dinâmica. No livro, as conversas são frequentemente interrompidas por pensamentos internos que quebram a fluidez e dificultam a leitura.

No geral, Slow Horses apresenta uma premissa interessante e um olhar original sobre o universo da espionagem britânica. Embora o ritmo irregular dificulte uma conexão mais profunda, o livro ganha força ao retratar personagens ambíguos e humanos. Com humor ácido, Mick Herron constrói um ambiente curioso e encerra a narrativa de forma coesa, ainda que simples.

Foto de capa: Bubble Geek

Resenha crítica por Camila Teixeira, edição de texto de Gabriel Goulart

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