As novelas brasileiras sempre foram retratadas como obras dinâmicas, capazes de evoluir e se adaptar conforme as necessidades dos autores e o feedback do público. Com a chegada das primeiras encomendas de novelas para plataformas de streaming, o processo de escrita dessas obras tem passado por mudanças significativas. Embora o gênero melodramático continue sendo o pilar fundamental, novas abordagens em termos de duração, estrutura narrativa e formatos têm surgido, proporcionando uma nova perspectiva para esse formato tão tradicional no audiovisual brasileiro.
No painel da Rio2C “Melodrama Digital: Diferenças e Semelhanças na Escrita de Novelas para Streaming”, renomados autores da TV aberta como George Moura, Angela Chaves e Daniel Berlinsky, se reuniram nesta quarta-feira (6), para um bate papo sobre as transformações da escrita para as plataformas de streaming, com mediação da roteirista Renata Sofia.

(Foto: Juliana Abrantes/Nfoto)
Durante o processo de escrita para uma TV aberta, é preciso trabalhar nos chamados ganchos do fim de semana. Os autores escrevem capítulos de sexta ou sábado, pensando em ganchos que deixem o telespectador ansioso para o capítulo seguinte na segunda-feira.
Daniel Berlinsky, autor roteirista com 14 anos de experiência, sendo 11 deles na TV Globo, escreveu séries e novelas, como “Amor à vida” e o remake de “Gabriela”, e comentou sobre a diferença da escrita de TV aberta para as plataformas. Recentemente, Daniel assinou o texto da releitura da novela “Dona Beja”, produzida pela Floresta/Sony para a plataforma de streaming Max.
“A gente começou a trabalhar não só os ganchos diários mas também os ganhos de pacote que precisam ser mais fortes que os do fim de semana. Além disso, como no streaming tem o consumo continuado, nos obriga a trabalhar a novela sem nenhum tipo de fio solto. Se a gente abrir uma porta, temos que fechar depois”, conta o roteirista.
Na TV aberta, o que determina a quantidade de histórias dentro de uma novela é o tempo de grade disponibilizado pela emissora. A escritora e roteirista Angela Chaves, foi responsável pelo remake da novela “Éramos Seis” e foi colaboradora da minissérie “Maysa – Quando Fala ao Coração”, que concorreu ao Emmy Internacional em 2009.
Agora, atuando nas plataformas de streaming, tanto na escrita da primeira série de melodrama original da Netflix Brasil, “Pedaço de Mim”, quanto na colaboração da série “Senna” da Netflix, Angela fala sobre a liberdade de criar histórias para o melodrama.
“No streaming, a história determina o número de capítulos. Já nas emissoras, eles diziam o número de capítulos disponibilizados na grade, por exemplo, 80 ou 100 e o autor se ‘vira nos 30’ para encontrar enredo que complemente as histórias”, conta Angela.
No entanto, ainda que essas novas transformações sejam revolucionárias para os autores, George Moura, autor de séries como “O Canto da Sereia” e “Amores Roubados” além de oito vezes indicado ao Emmy Internacional, comenta sobre a necessidade dos streamings de ter a característica melodramática nas obras.
“Acho que os streamings estão pedindo que mesmo nós chamando de série, que tenha essa contaminação do melodrama e do folhetim que a novela tem”, explica George.
“Guerreiros do Sol”, nova novela de George Moura para GloboPlay, será inspirada na história de Lampião e Maria Bonita. Com estreia prevista para 2025, o autor conta sobre fazer tramas que não sejam apenas entretenimento mas que também causam reflexão para o telespectador.
“Acredito que o público é adulto. Nós temos que fazer obras que não só sejam entretenimento, mas que possam causar incômodo. A dramaturgia também foi feita pra causar uma reflexão humana”, conta o roteirista.
Sobre a relação mercado e autor, Angela reclama da falta de reconhecimento dos roteiristas. Segundo ela, em diversos sites, até mesmo de grandes produtores, está o nome da série, a sinopse, o nome do diretor, mas não colocam o nome do roteirista.
“Muitas vezes, vejo sites até grandes produtores, e lá contém o nome da série, a sinopse, o diretor, mas não tem o nome do roteirista, justamente o autor da obra”, comenta a autora.
Complementando a fala de Angela, Daniel explica que durante muitos anos, alguns autores na TV aberta tinham mais autoridade sobre a obra, e acredita que isso tenha assustado o mercado. Mas afirma que os autores só tem a agregar.
Foto de capa: Juliana Abrantes/Nfoto
Reportagem de Mariana Motta, com edição de texto de Gustavo Pinheiro
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