Por João Agner
Existe uma atmosfera diferente que rodeia um corpo adolescente. Ansiedades únicas, inseguranças sazonais, desejos efervescentes — tudo que rodeia esse ciclo tem uma intensidade pujante que não está presente em nenhum outro momento da vida. Sempre fui atraído pela análise desse ciclo, mesmo enquanto o vivia no momento. Era difícil associar o fato de que temos tão pouco tempo para sermos adolescentes, e o resto da vida para ser adultos.
Recentemente, um dos meus discos favoritos completou dez anos de seu lançamento. “Pure Heroine”, álbum de estreia da neozelandesa Lorde, foi lançado em 2013, quando ela tinha 16 anos, e eu 10. É claro que esse disco não fazia tanto sentido para mim aos dez, quando o ouvi pela primeira vez, mas ao passar dos anos, aquelas canções se tornaram um espelho. Cada verso, rima e sintetizador transcendiam a dimensão sonora e se tornavam parte da minha linha do tempo. Não poderia ser diferente; nele, ela escreve sobre essa intensidade. “Pure Heroine” é sobre ser adolescente.
Lorde escrevia sobre adolescentes como eu — criados no subúrbio, com ansiedades, acne, tédio e desejo, e medo do futuro mas o querendo o mais depressa possível, enquanto, mesmo assim, querendo aproveitar o momento. Muitos estudiosos de sociologia e terapeutas argumentam que essa é a fase na qual começamos a moldar quem vamos nos tornar, o que sempre me soava aterrorizante, mas olhando para trás, consigo enxergar cada aspecto de quem eu sou hoje em uma versão mais crua, mapeando precisamente a evolução dessa narrativa pessoal. Lorde documentou o primeiro crush (“400 Lux” e “No Better”), as percepções da falta de controle do mundo fora de sua bolha (“Buzzcut Season”), as mudanças que vem com trabalho, ou no caso dela, a fama (“Still Sane”), os grupinhos de Ensino Médio (“White Teeth Teens” e “The Love Club”) e o papel dos amigos nesse momento (“Team” e “Tennis Court”), além de seu clássico hino sobre não ser uma adolescente rodeada de privilégios (“Royals”). Lorde mapeava perfeitamente essa intensidade singular que encaramos dos 12 aos 18.
Um aspecto que percebo quando consumo algum formato midiático sobre adolescência — sejam filmes, séries ou livros, e até mesmo música — é que não tenho uma facilidade clara em me ver nela, seja pela forma na qual os personagens se comunicam ou se vestem, e até como pensam. É quase como se os criadores desses produtos não tivessem sido adolescentes. Me pergunto o quão distante dessa fase precisamos estar para atingirmos um ponto no qual esquecemos quem éramos quando jovens, e como nos comunicávamos, amávamos e sonhávamos. Essa é uma das qualidades que enxergo no álbum da Lorde, e uma na que me orgulho em ter persistido contra minhas inseguranças e seguido com minha visão enquanto produzia meu primeiro conto publicado — eles foram escritos enquanto éramos adolescentes, presentes no momento.
Muitas canções já foram escritas sobre a experiência de ser adolescente antes e depois de Lorde. Olivia Rodrigo com a eletrizante “brutal” e Billie Eilish com a serene “Getting Older”, ou o violão forte de Green Day em “Good Riddance” e a guitarrada de “The Kids Aren’t Alright” do The Offspring, sem contar o boom na cena de jovens alternativos — a lista é extensa. Mas o que é tão impressionante sobre a poesia interna do “Pure Heroine” é a percepção única e enriquecedora da filosofia do quão efêmera essa fase é, e o quão duradouras são as memórias. É claro que Lorde não tinha noção absoluta disso no momento, e é algo que ressoa em seus trabalhos posteriores, mas a realização de que esse é um momento que nunca mais será dela quase a paralisa. Quase. Você imaginaria que a repetição do coro “Eu as quero de volta, as noites que tivemos, e como os pensamentos moviam em nossas cabeças” de “Ribs” a deixaria estática, mas é na faixa final, “A World Alone”, onde Lorde percebe que seus dias antes de florescer como adulta estão chegando ao fim. “Eu sei que não duramos para sempre/Somos um desastre esperando para acontecer/Um dia o sangue não correrá tão bem/Você é meu melhor amigo e dançamos nesse mundo sozinhos”.
Uma das características fortes da exposição de Lorde como celebridade é a forma como ela se abstém das redes sociais. Seu contato com os fãs é por meio de uma newsletter; aleatoriamente, cartas longas escritas pela artista chegam na caixa de e-mail dos fãs. Na última, o tema foi especial: um longo texto celebrando toda a narrativa de seu álbum de estreia, observado com uma década de distância. Em uma das imagens, ela listava agradecimentos dos mais diversos: aviões, maconha, garotos que podiam dirigir, suco de laranja, artistas e figuras como Lana del Rey, Kanye West, Grimes e até Maria Antonieta, pílulas do dia seguinte, introspecção, endorfinas e sua cidade.
Pela minha adolescência, agradeço a: balas juquinha, Tumblr, o trajeto de Higienópolis para o Leblon, aquele poema de Emily Dickinson sobre ficar cega, antidepressivos, encontros na Tenente, guaravita, Rita Lee, manhãs no terraço do Norte Shopping, tequila, Wattpad, skits de comédia do Pete Davidson, Nova York, a vila do meu melhor amigo, máquinas de raspar cabelo (meu último grande ato) e, claro, “Pure Heroine”.
Foto de capa: Reprodução/YouTube
Crônica de João Agner, com edição de texto de Larissa Martins
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