Da sala de aula

Os desafios da retomada do ensino presencial

O receio do retorno à normalidade

por Jessica Lins Filgueira

Mudanças de hábito acarretam significativos ajustes emocionais. E não foi diferente com a retomada das aulas presenciais. Durante um ano e meio, a rotina escolar se dividiu entre ensino presencial e híbrido. De um lado, jovens que tiveram dificuldades de se adaptar às aulas remotas; do outro, aqueles que se moldaram muito bem às novas realidades e hoje têm receio de voltar à rotina presencial. O fim das aulas remotas aconteceu em outubro de 2021, mas uma das maiores preocupações é a falta de linearidade de aprendizagem, seja por ensino remoto ou presencial.

Caroline Araújo, de 24 anos, aluna do sexto período do curso de graduação em Letras, se encaixa no grupo de jovens que sentem receio de voltar à rotina presencial. E afirma que no ambiente de ensino, nem todos cumprem os protocolos sanitários de segurança, além de não se sentir segura ao sair de casa, mesmo com todas as doses da vacina em dia. “Moro com minha avó de 84 anos e tenho muito medo de transmitir Covid 19 para ela. O que eu posso fazer em home office, eu faço, além de me adaptar perfeitamente ao ensino hibrido”. 

Caroline Araújo em aula por meio do ensino online, pois se sente mais segura
(Foto Acervo pessoal)

Um levantamento feito pela ONG Todos pela Educação, com respaldo nos dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), constata que o Estado do Rio de Janeiro soma aproximadamente cerca de 600 mil alunos que deixaram as salas de aula em 2020, por não se adaptarem ao ensino hibrido ou em situações de descontinuidade e até mesmo por falta de conexão de internet e necessidade imediata de gerar renda para apoiar a família.

O estudante da rede pública de ensino Kauã Breno Luís, de 17 anos, teve sua forma de aprendizagem defasada durante o ápice da pandemia, pois a escola em que cursa o terceiro ano do Ensino Médio não adotou o ensino remoto, pois a maioria dos alunos não tinham acesso à internet de qualidade.

Por conta da falta de aparelhos para acompanhar às aulas, ele teve extrema dificuldade em aprender durante esse período. A saída adotada pela Escola foi viabilizar de alguma forma a realização de atividades distribuídas em forma de materiais pedagógicos e a criação de grupos em redes sociais, para não perderem a continuidade dos estudos. As dificuldades de adaptação às novas demandas foram desafios para os pais e para os profissionais da educação, mas a retomada das aulas presenciais foi um desafio ainda maior.

A especialista em neuroaprendizagem Luana Uchoa destaca que os alunos sofreram com a síndrome da gaiola, fenômeno que pode mascarar adoecimento psicológico se não assistido corretamente. A nomeação dessa síndrome se dá em analogia às aves que crescem em cativeiros, mas permanecem dentro do espaço mesmo quando a gaiola é aberta. Ela explica ainda que esse comportamento está relacionado a um conjunto de pensamentos, emoções e sentimentos que podem denunciar diferentes quadros clínicos, como depressão e ansiedade.

“O medo é uma emoção comum ao ser humano e está relacionado à autoproteção e à autopreservação. Sempre digo que é preciso assimilar os gatilhos e pensamentos de aflições,para não serem maiores que nós”, afirma Luana Uchoa.

A especialista Luana Uchoa, responsável pela visão avaliativa da retomada das aulas
(Foto Acervo pessoal)

A rede de apoio familiar é um ambiente fértil para o fortalecimento das vinculações e de reconhecimento de si, além da construção identitária. E foi graças a essa rede de apoio familiar que o estudante João Victor Soares, de 24 anos, pôde retomar as aulas presenciais e sua vida cotidiana como era antes da pandemia.

“Eu me arrumava para ir assistir às aulas, mas em certo momento antes de sair de casa eu travava. Era um frio na barriga, uma ânsia de vômito e muita pressão psicológica. Me sentia um idiota por sentir essas coisas”, lembra João Victor.

Foi necessário conciliar a necessidade do isolamento e a volta gradativa para ter avanços na retomada das aulas, como também de sua rotina. Foi a partir de momentos de lazer familiar que a realidade presencial foi se tornando algo leve, afirma João Victor.  

 

João Victor sentiu dificuldades iniciais na volta às aulas presenciais
(Foto Reprodução Jéssica Lins)

Compartilhar questões internas e entender que cada pessoa tem seu tempo para ir construindo sua retomada é essencial para lidar com sua própria bagagem de forma leve e segura. Algumas dicas que a especialista em neuroaprendizagem utiliza com seus alunos são técnicas de respiração para auxiliar no gerenciamento da ansiedade e promoção de situações em que seja possível experimentar tentativas de aproximação do dia a dia e de condições favoráveis ao aprendizado, sobretudo na confiança como algo motivacional.

Reportagem realizada por Jessica Lins Filgueira para a disciplina Apuração, Pesquisa e Checagem, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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