Da sala de aula

Moda: a extravagância e o fora do comum como expressões sociais  

As diversas formas de se vestir expressam individualidades e histórias diferentes

por Juan Ferreira

A extravagância não é algo novo na moda. No passado, ela era indício de luxo, riqueza e vaidade. No século XVII, o rei Luís XIV, extremamente vaidoso, apresentou à sociedade hábitos que permanecem até a atualidade, como o uso de perfume e até mesmo o salto alto. Mas foi sua esposa, Maria Antonieta, a responsável por ditar a tendência que ganhou novos significados na atualidade, deixando de ser restrita às elites e chegando às massas.  Representada nas passarelas de moda e na cultura pop, a extravagância permite que as pessoas expressem suas individualidades, quebrando as correntes do que é considerado comum e ousando em cores, texturas e moldes exagerados. 

A moda evolui em conjunto com a sociedade. Se houve época em que vestidos armados, mangas bufantes, acessórios mirabolantes e penteados arqueados eram algumas das características das roupas que, de tão exageradas, dificultavam o andar, por outro lado, passaram-se períodos nos quais a extravagância foi reprimida, e o que era mais simples dominou. A revolução francesa, as grandes guerras e crises do passado afetaram a forma como a moda refletia na sociedade de diversas maneiras, até os dias atuais. As diversas fragmentações da vestimenta ao longo dos séculos trouxeram uma moda multifacetada. Nessas diversas facetas, algo nunca se perdeu: a busca pela individualidade. 

Para a stylist e figurinista Carina Caldas, a moda é um fator revolucionário do ponto de vista cultural, já que ela é um reflexo do que se vive como sociedade: ‘’Uma das minhas missões como profissional e como pessoa é provocar micro-revoluções por meio do vestir. Eu gosto quando as roupas trazem mensagens, e principalmente essa mensagem de que a gente é livre para usar o que estamos a fim’’. 

Carina Caldas acredita que a extravagancia não só veio pra ficar, como já tem uma história muito grande
(Foto: Acervo Pessoal)

O interesse pelo extravagante vem desde a infância para Mario Germanetto, professor de arte e artista independente. Crescido em uma cidade interiorana e de origem católica, sempre foi fascinado pelo que era considerado diferente. Fã da cantora e atriz Lady Gaga, Mário considera a artista uma grande inspiração. ‘’Foi minha primeira diva, me ajudou a me entender um pouco, e a me desafiar artisticamente. Me mostrou que eu poderia ser protagonista das minhas histórias e tudo aquilo que eu sonhava em ser de alguma forma’’, conta o professor. Mario também vê no seu passado uma fonte para sua inspiração.

“Ressignifico uma infância cristã-católica. Esses signos que disseram que não eram meus, de alguma forma eu me aproprio hoje e transformo essas histórias e traumas de infância nas roupas que eu visto’’, diz o artista. 

Mario, além de professor, é costureiro. Para ele, a magia vai desde a busca por referências e a compra de material, até a satisfação de ter o look feito por ele no corpo
(Foto: Acervo pessoal)

Para Pedro Ribeiro, analista comercial, a moda teve um papel essencial em sua vida. Para ele, foi uma forma de encontrar-se e elevar sua autoestima. Como um homem negro e gay, Pedro, por muitas vezes, optou por passar despercebido e reprimir sua identidade por receio do que a sociedade pensaria, até entender que estava tudo bem em ser diferente.

As grandes inspirações de Pedro Ribeiro foram ícones como Grace Jonnes, Prince e as supermodels negras Tyra Banks e Naomi Campbell
(Foto: Acervo pessoal)

“A partir do momento em que você assume essa posição, de ser diferente sim, de ser extravagante, de poder chamar atenção, poder ser e falar o que acredita, isso nos conecta com quem também está nessa posição de ser diferente. A forma como nos vestimos é uma forma de nos posicionarmos’’, opina Pedro.

Já para o modelo e influencer, Júlio Rodrigues, a moda pode ser um fator tanto de inclusão como de exclusão, pois em certos ambientes você pode acabar sendo excluído por estar vestido de forma diferente. Para ele, olhares de reprovação e surpresa pela forma como se veste são interessantes, pois acredita que a moda é justamente para isso: despertar sensações no outro, sejam elas quais forem: ‘’Quebrar padrões é sobre criar novas possibilidades de existir, e isso é fundamental. São pelos padrões quebrados no passado que eu posso achar que estou, de alguma forma, quebrando novos hoje’’.

Para Júlio, como um homem gay e negro, produzir conteúdo que foge heteronormatividade mostra novas possibilidades para quem o acompanha nas redes sociais
(Foto: Acervo pessoal)

E os padrões de agora não são restritos e sinônimos de luxo, na verdade, permitem que se possa ousar e ser extravagante sem necessariamente gastar muito em um look. O influencer James Holies afirma que a criatividade é o principal: ‘’Já fiz looks com cartolina, plástico, pedaços de manequins, e foram looks incríveis. Se você tem uma ideia, pode fazer coisas grandiosas. O dinheiro não é o principal’’.

James é um entusiasta, e ama ousar em looks para festas e festivais. Para ele, a extravagância é sobre vestir-se como quiser, ignorando padrões de gênero e sessões masculinas ou femininas. Assim também pensa a stylist Carina, que reforça: “Uma peça de roupa nada mais é que um tecido costurado, e isso não tem gênero nenhum. É um pedaço de pano, não é feito para homens ou mulheres, e sim para pessoas”.

O influencer James Hollies já teve looks fotografados nos perfis oficiais do Rock in Rio, Itaú, e recentemente participou de um comercial para o Multishow
(Foto: Acervo Pessoal)

Seja para elevar a sua autoestima, criar revoluções, ressignificar traumas do passado ou quebrar padrões do considerado tradicional, a extravagância está na atualidade para libertar, permitir, e mostrar que não existe diferente, e sim pessoas com suas próprias individualidades e formas de expressão. Ela, definitivamente, veio para ficar.

Reportagem realizada por Juan Ferreira para a disciplina Apuração, Pesquisa e Checagem, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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