Da sala de aula

Alunos-trabalhadores enfrentam dificuldades para cursar o Ensino Superior

Entenda quais são os problemas na rotina de quem concilia trabalho e estudo

por Stefany Moura

A rotina de um trabalhador pode ser cansativa. Acordar cedo, depender do transporte público para chegar ao trabalho e ficar horas nos engarrafamentos do Rio de Janeiro. Agora, imagine quem precisa enfrentar jornada de, além de trabalhar, ser estudante universitário. Essa é a realidade de muitos alunos que não podem abrir mão de seus empregos, pois têm necessidade de ajudar na renda familiar ou de se sustentar para sobreviver.

Altayr Derossi, coordenador do curso de Jornalismo e professor de Fotografia da Universidade Veiga de Almeida (UVA), sempre foi um aluno que trabalhou e estudou, e relembra que conseguiu manter seu rendimento ao longo de seus estudos mesmo trabalhando. “O aluno que só estuda e não trabalha, claro, tem uma vantagem em relação ao tempo, ao contrário do aluno que trabalha”, afirma ao recordar da sua própria trajetória.

O tempo para conciliar estudos e emprego é a maior dificuldade. Essa falta de tempo foi a principal questão para Davi Cerqueira, 22 anos, ex-estudante de Jornalismo, que precisou trancar a graduação por não conseguir conciliar as duas atividades. Ele explica que não estava dando conta dos trabalhos acadêmicos e que, algumas aulas, tinha que ouvir dentro do ônibus enquanto voltava do seu emprego, mas não conseguia prestar muita atenção e corria o risco de ser assaltado enquanto usava o celular.

Davi Cerqueira, supervisor de vendas e ex-aluno de Jornalismo, precisou trancar o curso por conta do trabalho (Foto: Acervo pessoal)

Sobre como a instituição de ensino poderia evitar que ele trancasse o curso, Davi acredita que poderia haver uma melhor compreensão sobre faltas e atrasos por parte dos professores. Para ele, não são todos que entendem as dificuldades enfrentadas por esses alunos.

“Para a gente que é universitário, é complicado quando você trabalha. Não são todos os professores que aceitam justificativas, não são todos que aceitam atraso na prova ou em aulas. A faculdade poderia ser mais maleável, mais flexível nesses fatores”, pondera Davi.

Assim como Davi, a professora e mestre em Comunicação, Cecília Seabra, concorda que certas flexibilizações se fazem necessárias. Ela explica que lecionou para um aluno que quase perdeu um estágio pois, no meio do período, não podia trocar de turno. “O diálogo é sempre bem-vindo, e algumas regras são impossíveis de se manejar, porque são necessárias, mas muitas outras podem ser revistas ou ter suas exceções abertas, a depender do caso”, concorda a professora. Ela ainda enfatiza que é preciso empatia para compreender a necessidade do aluno, e também entender que o mercado de trabalho é cruel.

“Uma vez no mercado de trabalho, você tem que dançar conforme o ritmo da música que está tocando, e nem sempre esse ritmo é conciliável com ter que fazer outras coisas. Há alunos que abandonam o estudo por conta do trabalho, não só porque é incompatível com a universidade, mas porque precisam dele para sustentar a vida. E, nessa vida, não cabe mensalidade do Ensino Superior”, avalia Cecília.

A professora também conta sobre um caso de uma aluna que considera “uma eterna orientanda”, que não consegue terminar o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) devido ao trabalho. A própria Cecília foi uma aluna que precisava trabalhar durante a graduação, e por isso demorou seis anos para entregar seu TCC.

Dados do Censo da Educação Superior de 2020 fornecidos pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) apontam que o turno da noite é o que mais abriga estudantes matriculados no modelo presencial, pois, em sua maioria, é o melhor horário para quem tem a necessidade de trabalhar durante o dia.

Ingryd Evelyn Araújo, de 21 anos, aluna de Moda, é uma dessas estudantes: trabalha oito horas diariamente como auxiliar administrativa e faz faculdade no turno da noite. Ela conta que não tem muito tempo para estudar fora da sala de aula, apenas nos fins de semana. Sendo assim, dispõe de pouco tempo para, de fato, descansar, e devido a isso, já pensou em trancar a faculdade.

“Eu não posso parar de trabalhar porque preciso, é como eu pago a faculdade, e sem a faculdade eu fico nesse trabalho no qual não quero continuar por muito tempo”, desabafa Ingryd.

Ao longo dos últimos anos, houve um aumento no número de estudantes que desistem da sua formação superior, assim como mostra o gráfico abaixo, fornecido pelo Inep.

Fonte:  Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP).

Discentes e docentes parecem concordar que é importante abrir espaços para a invisibilidade dos alunos-trabalhadores junto às instituições de ensino, e reconhecer as dificuldades de quem trabalha e estuda para conciliar os horários de ambos.

Reportagem realizada por Stefany Moura para a disciplina Apuração, Pesquisa e Checagem, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi

Foto de capa: Pixabay

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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