Da sala de aula

Aumenta violência de gênero contra jornalistas

Quase 40% dos ataques foram direcionados a mulheres

por Gabriella Portela Lourenço

Não há dúvidas de que a violência de gênero contra jornalistas assola o país, interferindo muitas vezes na qualidade da informação. Em 2021, foram registrados 119 ataques contra mulheres jornalistas e ataques de gênero envolvendo a imprensa, segundo dados divulgados pela Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji). A maioria dos ataques revela um caráter pessoal e de maior agressividade, pois combina a tentativa de cercear o exercício profissional com machismo e misoginia.

Nos últimos anos, ficou perceptível o crescimento das agressões contra jornalistas. Entre os anos de 2020 e 2021, houve um crescimento de 23,4% nos alertas de violações à liberdade de imprensa, de acordo com monitoramento feito pela Abraji. No entanto, essas estatísticas chamam atenção para casos recorrentes nacional e internacionalmente: a violência de gênero contra jornalistas e suas múltiplas particularidades e causas.

Desmoralizar jornalistas mulheres é uma tática habitual para quem comete agressões, a fim de diminuir a credibilidade das informações dadas pelas profissionais. Dessa forma, jornalistas mulheres sofrem ataques sexistas e são impedidas de realizar coberturas constantemente quando estão exercendo seu trabalho de informar, como foi o caso da jornalista Rayanna Bartholo.

“Era meu primeiro vídeo reportagem, eu estava esperando para entrar ao vivo e estava tranquila. Cheguei no local em que ia realizar a matéria, cumprimentei as pessoas presentes e expliquei o que ia ser feito. Foi quando fui para fora do estabelecimento que tudo começou.  Uma pessoa chegou perto de mim e, no primeiro momento, ficou me olhando e circulando em volta. Depois começou a me agredir verbalmente, me intimidou e fez acusações. Foram cenas terríveis. Já sofri outras violências, mas nenhuma comparada a essa”, afirma a jornalista.

Jornalista Rayanna Bartholo, agredida verbalmente enquanto estava exercendo seu trabalho
(Foto: Acervo pessoal)

Fica evidente que jornalistas mulheres são o grande alvo dos ataques, em geral, mais do que os jornalistas homens. Apenas no ano passado, a cada três dias, houve, em média, um ataque a mulheres jornalistas e/ou ataques de gênero, ainda segundo a Abraji. A principal motivação de uma agressão de gênero é determinada pelo fato de que o autor do ataque se baseia no gênero, na aparência ou na sexualidade da vítima para agredi-la e deixá-la em situação de vulnerabilidade.

À vista disso, as agressões contra jornalistas mulheres e de gênero se baseiam em insultos, assédios sexuais, violência física, comentários negativos, ameaça de estrupo e de agressão sexual. Além disso, se a jornalista é presente na internet e nas redes sociais, outras formas de ataques se evidenciam, como ataque online, ataque à reputação e à moral da mulher, divulgação e manipulação de imagens, hackeamentos, divulgação de dados pessoais e discriminações direcionadas à orientação de gênero, tendo como objetivo o silenciamento, a mudança de comportamento e de apuração de reportagens dessas profissionais. Segundo Letícia Kleim, assistente jurídica da Abraji, os discursos estigmatizantes são a agressão mais predominante no Brasil contra jornalistas.

Letícia Kleim, assistente jurídica da Abraji, argumenta que discursos estigmatizantes são a principal agressão contra jornalistas
(Foto: Acervo pessoal)

“O monitoramento de ataques feito pela Abraji mostra que nos últimos três anos a principal forma de atacar a imprensa foi por meio dos discursos estigmatizantes. Esses podem ser discursos de autoridades descredibilizando o trabalho da imprensa ou campanhas sistemáticas de ataques que ocorrem principalmente nas redes sociais. Nesses casos, costuma haver um agressor principal, geralmente uma pessoa pública influente, que chama seus seguidores e apoiadores a ampliarem o ataque por meio da perseguição, ameaça e ofensa em massa nas redes sociais. Além disso, tem chamado atenção o potencial que esses ataques têm de transbordar a esfera online e resultar em agressões e outros ataques físicos”, declara Letícia Kleim.

Termos usados para ofender mulheres jornalistas brancas, negras, indígenas e asiáticas
(Foto: Reprodução/Az.minas.com)

Grande parcela dos ataques online contra mulheres jornalistas ocorre por meio das redes sociais, sendo o Twitter a principal usada pelos agressores, que, em suas falas, utilizam argumentos estereotipados de personalidade, provocações de viés ideológico e questionamentos de credibilidade pela aparência, idade, raça e relacionamentos.

A maior parte das agressões também aponta que as mulheres são desqualificadas para argumentar sobre o cenário político e consideradas incapazes de interpretar um texto. De acordo com a segunda vice-presidente da Federação Nacional dos Jornalistas e jornalista, Samira de Castro, a violência de gênero contra as jornalistas revela maior agressividade e carácter pessoal.

Jornalista Samira de Castro, segunda vice-presidente da Fenaj, expõe que jornalistas mulheres sofrem com maior agressividade
(Foto Acervo pessoal)

“A violência de gênero contra as jornalistas, embora apareça em menor número de registros no Relatório da FENAJ, revela um carácter mais pessoal e de maior agressividade. As mulheres jornalistas são chamadas de “burras”, “vadias”, “putas, “gordas”, entre outros termos. E, em boa parte dos casos, as agressões são replicadas nas redes sociais. Muitas mulheres têm dados pessoais e fotos vazadas, além de sofrerem ameaças que envolvem suas famílias”, argumenta Samira de Castro.

Twitters feitos por agressores contra jornalistas mulheres, como Vera Magalhaes, Maju Coutinho, entre outras
(Foto: Reprodução/Twitter)

Embora esses ataques sejam presentes nas redes sociais, as plataformas até então não fazem nada contra as agressões vigentes. Segundo Letícia Kleim, as plataformas digitais devem desenvolver suportes e implementações de proteção, com o intuito de punir esses crimes. “As plataformas digitais necessitam aprofundar e aperfeiçoar suas políticas de moderação de conteúdo no caso de algum assédio ou perseguição online. Agentes humanos de moderação, com treinamento específico e fundamentado na proteção dos direitos humanos e combate ao discurso de ódio, são fundamentais para conseguir identificar um caso, cessar os ataques e buscar punir agressores reincidentes”, expõe Letícia.

Autores estatais são os principais agressores, utilizam discursos que geram desinformação e ataques contra profissionais da comunicação
(Foto: Reprodução/Abraji)

Conforme o relatório publicado pela Abraji, os principais perfis e classificações dos agressores que cometem violência de gênero contra jornalistas são autoridades do governo, servidores públicos, líderes religiosos, meios de comunicação partidários, grupos de crimes organizados, trolls e trolls-centers, entre outros. A questão política também influencia de forma acentuada esses tipos de ataques, estimulando de forma crescente agressões a jornalistas e à democracia, além de gerar um clima de desinformação, de violência e hostilidade. Para a assistente jurídica, esse fator leva à maioria dos ataques de gênero.

“Por volta de 60% das agressões contra mulheres e ataques de gênero no jornalismo ocorreram no contexto da cobertura política. Neste ano, já são 50% dos casos que se iniciaram por conta de algum comentário ou da cobertura jornalística de temas ligados à política. Isso se reflete também nos agressores, que são, em sua maioria, atores estatais”, afirma a assistente jurídica Letícia.

Essa realidade interfere diretamente no trabalho dos jornalistas e se agravou ainda mais após as eleições de 2018, quando autoridades governamentais passaram a utilizar os espaços institucionais que tinham para promover ataques contra jornalistas e a imprensa. Ressalta-se que a forma utilizada ainda é presente atualmente. Segundo a jornalista Gabrielly de Souza, essa condição é um dos principais motivos para os ataques. “Com certeza, esse fator influencia. Acredito que esse seja um dos principais motivos. Considero também as fake news uma motivação para as revoltas, logo, os jornalistas são alvejados”.

Jornalista Gabrielly de Souza afirma que a questão política influencia nos trabalhos realizados pelas jornalistas
(Foto: Acervo pessoal)

As hostilidades à liberdade de imprensa e os riscos de atividades jornalísticas exercidas por mulheres estão cada vez mais elevados. A jornalista Samira de Castro explica que essas violências contra jornalistas estão realmente ligadas a essas razões políticas.

“Não resta dúvida de que a ascensão da extrema direita ao poder no Brasil vem influenciando no incremento da violência contra jornalistas e profissionais da mídia no país. O presidente da República, seus ministros, filhos políticos e apoiadores são os maiores agressores de jornalistas hoje. O ódio e a incitação à violência vindos do mandatário na Nação acabam por influenciar a população a investir contra os trabalhadores da mídia”, evidencia Samira.

Ademais, a jornalista acrescenta que há três aspectos que realizam essa manutenção da violência de gênero contra jornalistas. “A manutenção dessa violência contra jornalistas está associada a três fatores: à sistemática atuação de Jair Bolsonaro para descredibilizar a imprensa; à ação de seus auxiliares e apoiadores contra veículos de mídia e contra jornalistas e à censura estabelecida pela direção da Empresa Brasil de Comunicação”, realça a segunda vice-presidente da FENAJ.

Presidente da República, Jair Bolsonaro, em uma comitiva de imprensa com jornalistas
 (Foto: Marcos Correia/Brasil de Fato)

A pandemia de Covid-19 é um fator que modificou totalmente as circunstâncias de trabalho dos jornalistas, tornando-os dependentes de canais de comunicação e mídias sociais, o que exacerbou o problema da violência cibernética. Durante a pandemia, diversas manifestações contrárias aos jornalistas foram feitas, motivadas por discursos negacionistas e ataques à imprensa, acontecendo uma intensificação dos casos no país e grandes riscos para profissionais de comunicação.

Para a assistente jurídica Letícia Kleim, o contexto da pandemia de Covid-19 trouxe um cenário de insegurança e riscos para o exercício do jornalismo. “Foram diversos episódios de ataques durante a cobertura da pandemia, que vão de agressões físicas em manifestações contra medidas de contenção da pandemia, até ataques online pela publicação de alguma matéria ou comentário nas redes ou na televisão. As agressões se intensificam quando, além de tratar do tema da saúde, estão inseridos em uma discussão política. Como resultado, os monitoramentos mostram um aumento das violações da liberdade de imprensa e uma insegurança quanto ao exercício do jornalismo tanto online quanto offline”, argumenta Letícia.

Repórter Clarissa Oliveira, da BandNews, sendo agredida por apoiadora de Bolsonaro
 (Foto: Reprodução/BandNews)

Não há dúvidas que a crescente violência influencia no trabalho realizado pelos jornalistas, mudando seu comportamento na hora da apuração de uma reportagem, em fatores da sua vida pessoal ou profissional, levando até mesmo a um desconforto na hora de gravar matérias externas. A jornalista Samira expõe como isso afeta a sociedade e o psicológico do profissional.

“Não há dúvidas de que a violência crescente acaba interferindo no volume e na qualidade da informação que chega ao cidadão. Na verdade, não se trata de uma agressão individual, mas coletiva, e que atinge o direito da sociedade de ser informada. Além disso, traz prejuízos pessoais às vítimas, como ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais. Em alguns casos, quando o jornalista é processado, há também o desgaste financeiro”, conclui Samira de Castro.

A jornalista Rayanna Bartholo, vítima dessa violência, argumenta também como se sente após passar por um episódio de agressão. “Certamente, não tenho vontade alguma de gravar matérias na rua. Principalmente não nesse sentido e contexto. Talvez em outro, passar por aquilo para fazer outro tipo de matéria. Não mais estar lá a serviço da sociedade e trabalhando para um veículo para sofrer violência dessa forma. Jornalismo não tem adicional de insalubridade e passar por aquilo da forma que foi e naquela posição, nunca mais”, afirma a jornalista.

Além disso, ela expõe como se sentiu psicologicamente após passar pelo ataque. “No início achei que não tinha me afetado psicologicamente, por já ter uma vivência de trabalho no campo social. Porém, depois que caiu a ficha, comecei a ter medo, as pessoas chamavam pelo nome na rua, algumas ovacionando e outras xingando. Jornalismo para mim não é isso, meu sonho nunca foi ter meu nome vinculado a nada, então só de reconhecerem meu nome na cidade, eu tranquei minhas redes e tentei fugir de todas as formas”, revela Rayanna.

O papel do jornalista é informar os cidadãos, a fim de construir um país mais democrático. Sempre que um jornalista sofrer algum ataque, ele deve procurar o Sindicato dos Jornalistas de seu estado ou município e deve sempre registar um Boletim de Ocorrência, além de informar à empresa se estiver sendo ameaçado. É preciso também que empresas jornalísticas criem comissões nas redações para avaliar os riscos de uma determinada cobertura e tentar mitigar as possíveis violências que dela resultem. Jornalistas são mais que uma pauta.

Reportagem realizada por Gabriella Portela Lourenço para a disciplina Apuração, Pesquisa e Checagem, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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