Da sala de aula

A paixão dos torcedores e as loucuras que são capazes de fazer pelo time do coração

Empréstimo não pago, noite na rodoviária, penetra na torcida adversária e ida ao estádio após acidente de moto: vale tudo por amor ao clube

por Isabela Mello

Paixão é um substantivo feminino que, de acordo com o dicionário, significa “sentimento intenso que possui a capacidade de alterar o comportamento, o pensamento; amor, ódio ou desejo demonstrado de maneira extrema”. Mateus Oliveira (21), Maílson Rodrigues (30) e Leonardo Marques (37) conhecem bem essa emoção quando o assunto é o time do coração. Dispostos a fazer loucuras pelos clubes com que se identificam, os três torcedores já se colocaram em situações desagradáveis por conta dessa paixão. Além deles, a jornalista Julia Malak (29) sente o mesmo quando mistura o trabalho com o amor pelo time por que torce, e seria capaz de encarar poucas e boas em prol disso.

Apesar da pouca idade, Mateus, torcedor do Santos, precisou dormir sozinho na rodoviária e quase ficou com o nome sujo por conta de um empréstimo não pago. Na ânsia de assistir ao Peixe jogar na Vila Belmiro, a mais ou menos 100km de sua casa, o jovem torcedor de na época 18 anos, aproveitou que tinha feito seu primeiro cartão para pedir um empréstimo de R$ 315,00, o limite máximo permitido. Ele tinha um plano e esse valor seria o suficiente para arcar com os custos da passagem de ônibus e do ingresso. 

Como a partida contra o América-MG era em uma quarta-feira e o santista tinha aula no dia seguinte, seus pais não quiseram dar dinheiro a ele. Por isso, a solução encontrada foi pedir um empréstimo ao banco e fingir que sua tia havia lhe dado o dinheiro como presente de aniversário. Apesar de o plano parecer simples, o jovem torcedor demorou para fechar o pedido. “Fiquei namorando o botão ‘concluir empréstimo’ por alguns dias porque eu estava com muito medo. Eu não queria perder o jogo de jeito nenhum, mas também não tinha coragem de fazer o empréstimo, até que uma hora foi”. 

Mesmo nunca tendo viajado de ônibus, e apesar de estar sozinho, com receio e ansioso por não saber muito como funcionava, tudo deu certo – pelo menos até o momento em que entrou na Vila Belmiro. A partida em si não foi tão boa para o Santos, mas, apesar da derrota, Mateus estava feliz de ter conseguido acompanhar o confronto e ver os jogadores de perto.

A única foto do dia foi uma selfie de Mateus no ônibus
(Foto: Acervo pessoal)

Na volta para casa, o nervosismo de algo dar errado havia passado e a tranquilidade já tomava conta do santista. Porém, para sua surpresa, o trem e o metrô haviam desligado a uma hora da manhã e só voltariam a funcionar às quatro horas da manhã. Com receio de avisar aos pais e tomar uma bronca, Mateus resolveu passar a noite na rodoviária.

“Fiquei no portão da estação sentado, morrendo de frio e com medo, porque quanto mais tarde, mais vazio ficava por ali. Foi a parte mais difícil dessa aventura, ficar em um lugar que você não conhece o movimento é muito ruim. Qualquer um podia entrar ali e eu estava sozinho, passando muito frio e com fome”, lembra Mateus.

Além de toda a situação enfrentada, ele ainda tinha mais um problema para lidar: pagar o empréstimo. Sem dinheiro para quitar a primeira parcela e sem coragem de contar a verdade para os pais, Mateus deixou o débito vencer no primeiro mês. E começaram as mensagens e ligações cobrando a dívida. 

“Eu sempre falava nas ligações que eu ia pagar, mas com muito medo, pois nunca tinha feito aquilo. Cheguei a pesquisar em vídeos no Youtube para saber como me virar para pagar, até que chegou uma mensagem dizendo que eu tinha 20 dias para acertar meu débito ou meu nome entraria em ação judicial. Aí ferrou tudo! Pensei muito o que fazer e acabei vendendo alguns pratos da bateria que eu tinha para poder pagar. Mas deu tudo certo, graças a Deus!”, comemora.

Apesar de o torcedor santista considerar a aventura como “top 3 maiores loucuras da minha vida”, ele afirma que não valeu a pena e com certeza planejaria tudo melhor. Hoje, com um pouco mais de cuidado e idade, Mateus prefere ir à Vila Belmiro de carona com outros torcedores e dividir o combustível. Dessa forma, ele evita problemas na volta para casa.  

Viagem longa, joelho aberto e torcida adversária: nada atrapalha o torcedor

Maílson é outro torcedor que já se envolveu em situações complicadas por conta do clube do coração. Apaixonado pelo São Paulo Futebol Clube, ele enfrentou uma viagem de carro de quatro horas para ver o time jogar em Natal, no Rio Grande do Norte. Morador de Mossoró (RN), o são-paulino enxergou a partida entre o tricolor e o ABC como uma ótima oportunidade de poder acompanhar o clube de perto, já que reside a mais de dois mil quilômetros de São Paulo, casa do SPFC.

Planejando os passos da viagem desde que o sorteio da Copa do Brasil havia saído, Maílson combinou com mais quatro amigos de irem a Natal. O que ele não contava era que pouco tempo antes de ir, sofreria um acidente de moto que o deixaria com o joelho aberto. Agora, o torcedor de quase dois metros de altura precisava ficar dentro de um carro pequeno e com um joelho machucado, durante algumas horas. 

Como não podia deixar a chance passar, Maílson fez o que deu. “Eu coloquei uma bandagem, mas quando cheguei em casa, deu um trabalho grande para tirar tudo. Infelizmente, infeccionou e foi difícil para cicatrizar”,

Maílson não tem nenhuma foto do dia da viagem porque foi assaltado quando sofreu o acidente de moto.. O registro acima é de uma ida ao Castelão, estádio do Fortaleza
(Foto: Acervo pessoal)

A estrada havia sido tranquila e a primeira parte da pequena aventura já estava concluída, mas os amigos são-paulinos ainda precisavam comprar os ingressos para assistir ao jogo. Quando chegaram no estádio do Frasqueirão, eles foram surpreendidos com a notícia de que só havia lugar disponível no setor da torcida adversária – o que não seria impedimento para os torcedores que vieram de Mossoró. 

Apesar da tensão de estar no meio da torcida organizada do ABC, o paulista e são-paulino Maílson aproveitou o jogo e ainda ganhou uma cerveja do rival. “Um cara me olhou e disse que eu não parecia natalense, e eu menti dizendo que morava no interior, mas torcia para o ABC. Nessa hora eu gelei. Ele disse que estava brincando e me pagou uma cerveja”, relembra rindo. 

Com um saldo de uma classificação garantida na fase seguinte da Copa do Brasil, uma saída complicada do estádio e um machucado que futuramente infeccionaria, o torcedor acredita que valeu a pena. Porém, cinco anos após essa aventura, Maílson explica que tem mais cuidado nas viagens: “Ir ao estádio é um experimento incrível e para ver o meu São Paulo eu faço de ‘quase’ tudo. Hoje em dia, evito ir de carro particular, eu vou nas caravanas que têm aqui na cidade, de ônibus e já com ingresso garantido. A gente aproveita até para ‘turistar’ antes”. 

Na saúde e na doença (ou pós acidente de moto)

Assim como Matheus e Maílson, Leonardo também fez de tudo para ir ao estádio assistir ao clube que ama. Era 2017 e o Botafogo lutava contra o Grêmio para conquistar uma vaga na semifinal da Copa Libertadores. Com o primeiro jogo sendo no Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro, os botafoguenses estavam animados para acompanhar o time. Leonardo Marques era um desses torcedores, mas por ter sofrido um acidente horas antes, quase não pôde ir. 

A caminho do palco das quartas de finais, o alvinegro e um amigo se envolveram em uma batida, na Linha Amarela. Enquanto pilotava a moto, Leonardo olhou por alguns segundos o GPS no celular do amigo, que insistiu, pois ainda retiraria o ingresso para o jogo, e se chocou com a traseira de um carro. O impacto foi tão grande que ele desmaiou e uma ambulância foi chamada. “O capacete me salvou de uma lesão pior, pois era de uma marca que tinha como abrir e fechar. A parte da frente com a viseira foi praticamente destruída, por isso eu desmaiei. Meu amigo falou que eu fiquei uns quatro a cinco minutos desacordado”, conta.

Os paramédicos não demoraram a chegar e prestaram os primeiros socorros aos dois botafoguenses. Enquanto seu amigo, que estava na garupa da moto, não sofreu quase nenhuma lesão, Leonardo precisou levar cinco pontos no queixo e machucou o braço e o joelho. Apesar da insistência dos médicos de levarem o alvinegro ao hospital, ele, mesmo com dor, recusou para não perder a partida. Após o atendimento, os torcedores seguiram viagem e chegaram antes de o confronto começar.

“A galera da torcida da qual eu sou integrante, a Fogoró, ficou doida comigo ali daquele jeito. Peguei um copo de cerveja, pois bebia na época, e tomei de uma vez para diminuir as dores. Confesso que foi um sacrifício subir a rampa de acesso à leste superior, setor em que eu havia conseguido comprar os ingressos. Depois do primeiro tempo as dores estavam insuportáveis, porém continuei até o fim”, recorda Leonardo.

Apesar do empate no placar e das lesões adquiridas, a aventura valeu a pena e Leonardo não se arrepende de nada. Hoje, os amigos ainda falam do dia e relembram impressionados como o botafoguense conseguiu assistir ao jogo todo no estado em que estava. Na época, os paramédicos que o atenderam desacreditaram que ele ainda iria ao estádio e falaram que Leonardo era um “botafoguense doido de verdade”. 

Paixão em dobro

A jornalista Julia Malak, formada na profissão há sete anos, entende bem o sentimento desses torcedores. Apaixonada pelo trabalho e pelo Flamengo, ela diz que, assim como eles, também faria loucuras para cobrir um grande jogo ou evento: “Além de jornalista, eu sou muito torcedora, então esse meu lado às vezes aflora demais. Me aventurar a trabalho já é incrível, e podendo juntar isso com a paixão pelo meu clube, melhor ainda!”.

Julia Malak já conseguiu estreitar mais ainda o amor pelo time do coração ao trabalho, na passagem que teve pela FlaTv, em 2017
(Foto: Acervo pessoal)

Julia lembra que, graças à profissão, já pôde acompanhar algumas histórias bem legais e contribuir em outras. Tendo pessoas diversas como personagens recorrentes, a jornalista conta que quando foi a Teresina, conheceu diversos torcedores do Flamengo que nunca tinham visto o time de perto e encararam horas de estrada para levar os filhos ao jogo.

Outro caso de que participou, dessa vez diretamente, foi na final da Libertadores 2021, em Montevidéu. Um dia antes do jogo, Julia havia conseguido dois ingressos para a partida e deu como presente de casamento para um casal que estava no Brasil. Apesar de eles precisarem enfrentar horas de carro para conseguirem atravessar a fronteira, deu tudo certo no fim – a não ser pelo resultado do confronto. 

Sentindo essa emoção na pele e podendo ver de perto a de outros torcedores, a jornalista defende o amor intenso e sem moderação pelo time do coração.

“Acho que a paixão que as pessoas sentem pelos seus times é louca e linda. É um amor diferente de amar alguém. Você ama um clube, uma instituição, os valores, a história do time. É uma paixão por algo intocável, sabe? Acho que ultrapassar os limites faz parte da beleza do futebol”, se orgulha a jornalista-torcedora. 

Foto de capa: Reprodução/Goal

Reportagem realizada por Isabela Mello para a disciplina Apuração, Pesquisa e Checagem, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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