Da sala de aula

Transporte público na pandemia: problemas sem ponto final

Os riscos e desafios de quem precisa enfrentar ônibus, trens e metrô para se locomover pela cidade

Em meio à pandemia da Covid-19, que já matou mais de meio milhão de brasileiros e quase 4 milhões de pessoas em todo o planeta, chegou um momento em que, mesmo com todas as medidas restritivas e a quarentena, os brasileiros tiveram que voltar aos seus trabalhos. E como a maioria dos trabalhadores depende de transportes públicos para se locomover de suas casas para seus locais de trabalho e vice-versa, passaram a enfrentar desafios e a correr mais riscos de contaminação.

Um levantamento da Confederação Nacional da Industria (CNI), confirma que mais de 25% dos brasileiros utilizam ônibus para ir para seus trabalhos todos os dias. Em metrópoles e cidades maiores, é muito comum também a utilização de trens e metrôs como principais meios de locomoção dos trabalhadores. Com um vírus tão contagioso quanto letal, somado à falta de estrutura e organização nos transportes públicos no Brasil, a necessidade do trabalhador de continuar sustentando sua família e pagar suas contas pode se tornar um grande risco para ele e para as pessoas ao seu redor.

O virologista Rômulo Neris, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), explica que em um cenário muito comum de superlotação dos transportes públicos, o risco de exposição ao Coronavírus nesse ambiente de pouca ou nenhuma circulação de ar, sem distanciamento social e sem o respeito às demais medidas de proteção, pode aumentar consideravelmente, causando casos graves de contaminação e até a morte pela Covid-19.

Não é difícil entender por que isto ocorre. Milhares de pessoas ficam propícias à contaminação dentro de ambientes fechados e com pouca ventilação todos os dias. Em um ônibus lotado com cerca de 50 pessoas, por exemplo, se apenas metade contrair a Covid dentro da condução, e, ao ir para casa, conviver com quatro indivíduos, só em uma viagem, seriam 100 novos possíveis casos da doença.

Sthefany Maia, 18 anos, atendente, enfrenta todos os dias este risco. Ela mora em Campo Grande, no Rio de Janeiro, e trabalha no BarraShopping, na Barra da Tijuca, e para chegar ao serviço, pega uma van por volta das 6h da manhã, vai até Santa Cruz, e de lá pega o BRT para ir até a Barra, levando cerca de uma hora e quarenta minutos no trajeto. “A van não tem nenhum tipo de distribuição ou exigências de máscaras ou álcool gel. As pessoas ficam totalmente aglomeradas, sem máscara, umas em cima das outras, respirando o pouco ar que entra pelas janelas. A gente vai praticamente em uma lata de sardinha até Santa Cruz”.

No BRT que Sthefany pega depois para ir até a Barra, a situação é ainda pior. “As pessoas vão se empurrando e às vezes acontecem até brigas para poder caber dentro do ônibus. Não é raro ter que ir de porta aberta, porque não cabe tanta gente assim e é uma aglomeração imensa. Poucas pessoas utilizam máscara e não há nenhum stand de álcool gel nem no embarque ou desembarque. Também não tem nenhum tipo de fiscalização. É uma situação bem ruim e o risco de contaminação ali dentro é altíssimo, visto que nada é respeitado”.

Sthefany Maia enfrenta todos os dias transportes lotados para chegar ao trabalho
Foto: Acervo Pessoal

Ela também conta que uma amiga sua, que sempre se cuidou, não saia de casa – a não ser para ir ao mercado ou para emergências -, usava máscaras e respeitava todas as normas e restrições para o combate à Covid, desconfia que tenha sido contaminada pelo Coronavírus no transporte público: “Poucos dias depois que nosso trabalho voltou, ela contraiu a doença. Não podemos jurar que ela contraiu o vírus no transporte público, mas podemos fazer uma grande aposta que sim, pois ela se cuidava totalmente”.

A atendente ainda completa: “Mesmo usando máscara dentro do ônibus, de nada adianta se o transporte anda lotado e ninguém usa a proteção ao seu redor, porque a máscara não é 100% eficaz, ainda mais se as outras medidas não forem respeitadas”. Ela conta que sua amiga já está bem e se recupera da Covid.

A preocupação é tão grande que a Fiocruz, uma das entidades mais conceituadas no meio científico no Brasil, divulgou um boletim falando sobre o descaso do governo e das empresas de transportes com a fiscalização e a organização dos passageiros dentro de seus veículos. Um trecho do boletim diz: “Além das medidas de distanciamento físico e social, dentre as quais as envolvendo supressão e bloqueio, o uso de máscaras em larga escala social deve ser ampliado e estimulado, pois apresentam grandes impactos na redução da transmissão e por conseguinte ao número de casos e óbitos”.

Quem conhece bem esta realidade com a qual a Fiocruz se preocupa é Alex Lopes, 47 anos, técnico em eletrônicos. Ele mora em Paciência, no Rio de Janeiro, trabalha em Olaria, e pega dois trens para chegar ao serviço, num trajeto que leva em média duas horas. “Os trens do Rio sempre foram famosos por uma superlotação surreal. Nos horários de rush não sobra um centímetro quadrado livre dentro dos vagões”.

Alex Lopes enfrenta diariamente a situação caótica dos trens lotados em plena pandemia
Foto: Acervo Pessoal

Quando o trabalho dele voltou, Alex imaginou que isso mudaria um pouco, pois achou que haveria algum tipo de fiscalização de distanciamento, mas se enganou. “O trem continua sendo o mesmo de antes da pandemia. Na verdade, se tirar as pessoas que utilizam a máscara, nem parece que estamos em uma pandemia. Você sequer é impedido de entrar nos trens caso não esteja usando máscara. Até existem alguns guardas nas estações, mas eles fingem que não veem, parece que não estão nem aí para a situação caótica”.

No trem, descreve Alex, as janelas são lacradas e não há nenhuma ventilação. “Se alguém ali estiver doente, o risco de contaminar mais de metade das outras pessoas é muito grande”. O técnico em eletrônicos chega a utilizar duas máscaras ao mesmo tempo quando vai trabalhar. “Tenho plena convicção de que a falta de fiscalização e de organização nos transportes foram responsáveis por muitas mortes nessa pandemia, tendo em vista que existem pessoas assintomáticas, que nem sabiam que estavam contaminadas e continuaram a usar os transportes normalmente, e até mesmo sem máscara”.

Mas não são apenas os passageiros que estão em risco. Quem trabalha nos transportes públicos todos os dias para levar a população até seu destino – motoristas, cobradores e pessoas que atuam nas plataformas de embarque e desembarque – estão propensos ao contato com pessoas infectadas diariamente e também a transmitir o vírus aos passageiros.

Frank Martins, 21 anos, encarregado administrativo – que diariamente vai de van até a rodoviária de Campo Grande, onde mora, e de lá pega um ônibus até Itaguaí, onde trabalha – tem uma história para contar. Ele lembra de um dia em que o motorista do ônibus que pegou estava tossindo muito. “Um rapaz perguntou se ele estava bem, e ele respondeu que estava apenas resfriado. Uma passageira levantou e pediu ao encarregado dos motoristas, que estava lá fora, para trocar o motorista. O homem disse que não poderia fazer isso, ela se revoltou e disse que era uma falta de responsabilidade da empresa deixar um motorista naquelas condições ir trabalhar. Foi uma confusão. Ela desceu do ônibus e atrasei para chegar ao serviço”.

Franklin Martins leva quase duas horas no trajeto de casa ao trabalho
Foto: Acervo Pessoal

Estudioso e especialista no assunto, o pesquisador da Universidade de Brasília (UnB), Doutor em Saúde Pública e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Roberto Bittencourt, deixa claro que os transportes públicos no Brasil são as veias da contaminação da Covid-19: “O transporte já era superlotado, não mudou nada, e isso são as veias. São as linhas de transmissão do vírus que passam, principalmente, por aí”.

Bittencourt também destaca as medidas que já deveriam ter sido tomadas pelas autoridades: “Se o governo for rigoroso em relação a ter um mínimo de contenção da circulação da população no transporte, oferecer mais transporte coletivo para a população não ficar aglomerada, seria um bom começo para melhorar o enfrentamento de verdade à pandemia”. A pandemia ainda não acabou e a necessidade de trabalhar não pode se transformar em um risco de morte, nem para o trabalhador e nem para as pessoas que vivem ao seu redor.

MEDIDAS DE COMBATE À PROPAGAÇÃO DA COVID-19  

  • As máscaras de pano multicamadas podem diminuir cerca de 70% a 80% o risco de propagação da Covid-19.
  • Com 80% ou mais da população utilizando máscaras, existe uma grande redução da transmissão do vírus, porém se somente 50% da população respeitar essa medida, a redução será muito baixa.
  • A combinação de elevados percentuais de uso de máscaras com medidas de distanciamento físico e social tem resultado em maior controle da transmissão.
  • As regulamentações governamentais sobre o uso de máscaras são muito importantes, porém sozinhas são insuficientes, devendo ser realizadas campanhas sobre a importância do uso delas e sobre como usar, além da distribuição gratuita de máscaras em larga escala.

Matheus Pimentel – 3º período

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “Transporte público na pandemia: problemas sem ponto final

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns pela publicação de sua matéria Matheus. Bjs!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s