Da sala de aula

O impacto da pandemia na vida das mulheres

A perspectiva feminina sobre o cotidiano imposto pelo Coronavírus

Há mais de um ano o mundo está vivendo uma pandemia. Nesse tempo, as pessoas precisaram se adaptar a uma nova rotina. Uns passaram a ficar mais tempo em casa, em home-office, outros continuaram trabalhando presencialmente. A carga de horário de trabalho se tornou mais cansativa, o uso de tecnologias aumentou e, para muitos, ainda há as tarefas domésticas que precisam ser feitas, especialmente as mulheres. Aliado a tudo isso, ainda há a avalanche diária de notícias ruins, além do medo e da preocupação constantes por causa de um inimigo invisível: o Coronavírus. Diante tudo isso, ainda é preciso conseguir tocar para frente vida pessoal e profissional. Como fica a saúde física e mental?

Uma pesquisa feita pela Kaiser Family Foudation, ONG americana voltada para questões de saúde pública, constata que 58% das mulheres afirmam que a preocupação ou estresse ligado ao novo Coronavírus teve impacto negativo no psicológico delas. “Eu simplesmente não sei como tenho conseguido levar até agora”, afirma Juliana Negreiros, 23 anos, estudante de Serviço Social. Juliana sente essas questões no dia a dia dela. Ela mora junto com a mãe e os irmãos, e precisa conciliar a faculdade – que, no momento, está sendo remota – com o trabalho presencial.

Em casa, Juliana não é responsável por todas as tarefas, pois parte delas é feita por sua mãe. Mas a rotina de acordar de segunda a sexta às 4 da manhã para ir ao trabalho e ficar duas a três horas sentada de frente para um computador estudando tem sido desgastante para ela. “Às vezes não estou com vontade ou não estou com paciência. Já aconteceu de eu sem querer dormir e perder a hora”, conta Juliana. 

Apesar disso, ela não saber dizer como vem conseguindo levar adiante tudo isso, mas confessa que às vezes tem vontade de largar tudo. Mesmo assim, tem momentos em que ela se cobra, se questionando se ela deveria estudar mais e conseguir dar conta de tudo. Ela tem focado tanto em dar conta das demandas da faculdade e do trabalho, que uma rotina de autocuidado, por exemplo, nesse momento, tem ficado em segundo plano.

Juliana sente os efeitos da pandemia em sua rotina
Foto: Acervo Pessoal

Assim como Juliana, Mariana Brum, 20 anos, também está fazendo faculdade, de Terapia ocupacional, de modo remoto por causa da pandemia, e em casa divide as tarefas domésticas com os que moram com ela, pais e irmão. Ainda assim, é complicada a rotina. Alguns dias ela consegue lidar com os afazeres de forma tranquila, outros não.

Mas, diferentemente da Juliana, ela consegue buscar maneiras de aliviar o estresse do dia a dia e encontrar um momento para ela, seja praticando uma atividade física ou estudando uma música que ela goste. “Tem sido difícil lidar com as oscilações de autoestima, ainda mais nesses tempos em que se passa cada vez mais nas redes sociais. Sempre tive questões com a autoestima, mas a pandemia potencializou ainda mais”, destaca Mariana.

Mariana Brum alivia o estresse fazendo atividade física ou estudando música
Foto: Acervo Pessoal

Já para Marcelly Marques, 23 anos, conciliar afazeres domésticos com o trabalho ainda é algo que ela consegue fazer. Entretanto, com a pandemia, os cuidados com a limpeza da casa tiveram que ser redobrados, o que tornou a rotina mais cansativa. Marcelly é professora e mediadora, mora com o marido e um filho, e diz que criança que exige atenção, principalmente, agora que, por conta do Covid, está tento que ficar mais tempo em casa “Sem poder sair de casa, meu filho fica entediado mais rapidamente, fazendo com que ele exija mais de mim e do meu curto tempo livre”.

O filho de Marcelly Marques exige atenção em casa
Foto: Acervo Pessoal

 Além de ser cansativo ter que dar conta de tudo, ela conta que fica preocupada em tem que sair para trabalhar e acabar trazendo o vírus para dentro de casa. “A possibilidade de submeter minha família ao risco de contrair o Covid-19 me deixa nervosa”. Durante esse período, ela tentou voltar a fazer pós-graduação, mas teve que interromper porque não consegue acompanhar as disciplinas, pois quando sobra um tempo, encontra-se cansada. “Ter um tempo só para mim acaba sendo algo complicado, às vezes no fim de semana”.

Márcia Oliveira, 54 anos, auxiliar administrativa, mora sozinha, e com a pandemia e as regras de distanciamento social, ficou longe da família, “No começo eu senti muito, mas, agora, eu estou aceitando mais”, conta ela. Apesar disso, o emprego dela continua de forma presencial em alguns dias. Trabalhando dia sim e dia não em casa, ela viu sua rotina doméstica mudar. Apesar disso, Márcia soube lidar bem com as adaptações do dia a dia e com as novas demandas postas a ela.

De modo geral, na parte da manhã, Márcia trabalha e à tarde ela consegue dar atenção aos cuidados da casa. Ela conta que, agora, faz tudo sem correria, devagar e com calma, pois teve Covid no fim do ano passado, e uma das sequelas foi o cansaço e a falta de disposição. Como refúgio para os dias pesados, devido ao atual momento, ela procura evitar assistir em excesso reportagens a respeito do Coronavírus e busca nos filmes e livros um acalanto. 

Márcia Oliveira sente cansaço e falta de disposição como sequela da Covid
Foto: Acervo Pessoal

A psicóloga Carolina Garcia diz que no fazer clínico dela, antes mesmo da pandemia, eram as mulheres o público que mais procurava terapia. O desgaste físico e emocional sempre foi presente na vida da mulher, pois a carga de trabalho, os afazeres domésticos e os cuidados com os filhos são pontos impostos a elas muitas vezes. O que a pandemia fez foi deixar mais evidentes essas questões.

“É importante buscar autoconhecimento e se desvincular do olhar do outro, coisas que, no dia a dia, as mulheres acabam tendo que abandonar. Com a pandemia, isso passou a ter destaque, já que as pessoas tiveram que ficar mais em casa, entretanto o público feminino teve que se redobrar para dar contar de todos os compromissos do dia a dia”, destaca Carolina.

Carolina Garcia destaca que a pandemia deixou mais evidente a sobrecarga feminina
Foto: Acervo Pessoal


      

O peso do dia a dia

As mulheres estão de fato com mais demandas. “A pandemia intensificou mais essa questão da estafa mental”, avalia a psicóloga. Diante de tantas tarefas, sem conseguir um tempo para si, as mulheres estão cada vez mais exaustas, estressadas, dormindo mal e desmotivadas. Para Carolina, futuramente os transtornos psicológicos e a utilização de psicotrópicos serão cada vez mais frequentes na sociedade. O aumento de pessoas ansiosas, desenvolvendo síndromes e neuroses, e a prevalência do medo, que permeia o mundo nos últimos anos, potencializam isso.

O Burnout

A Síndrome de Burnout é conhecida por alguns estudiosos do assunto como o resultado marcante do estresse, principalmente o estresse profissional, a exaustão emocional, o negativismo de si e a insensibilidade a tudo ao seu redor. Com a pandemia, o surgimento de pessoas com esta síndrome vem aumentando. Apesar de não ser algo novo, muitos ainda não sabem distingui-la, ou até mesmo não sabem que estão desenvolvendo um Burnout. A psicóloga Carolina explica que a síndrome gera nos indivíduos preocupações e cansaço demasiado. Além disso, é importante ter atenção aos níveis de ansiedade, pois ela é uma das precursoras das doenças. 

Para deixar o cotidiano mais leve

Diante tudo que está acontecendo não apenas no exterior, mas também no interior de cada indivíduo, a psicóloga Carolina fala sobre a importância de buscar o que faz bem a cada pessoa. “Procurar um hobby, descobrir e desenvolver coisas”, sugere ela. Mas só buscar uma válvula de escape para os dias ruins não basta, também é preciso ressaltar o papel fundamental da terapia. A pandemia intensificou muitos sentimentos das pessoas, nem sempre é possível lidar com eles sozinhos. Por isso, um acompanhamento psicológico é fundamental.

Aline Meireles – 3º período

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “O impacto da pandemia na vida das mulheres

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns pela publicação de sua matéria, Aline! Bjs!

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