Da sala de aula

O Twitter como ambiente de radicalização

Rede que aproxima brasileiros da política pode ser fator de polarização

O Twitter se tornou uma das redes sociais mais usadas pelos brasileiros na atualidade. A plataforma, que se consolidou como uma espécie de veículo de comunicação entre os políticos e a sociedade – além de local de geração de debate sobre os mais diversos assuntos, conscientização sobre variadas pautas e um local para uma boa gargalhada com os memes -, pode ser também um fator de radicalização entre seus usuários.

Uma pesquisa realizada pela própria plataforma em 2020 constatou que 75% dos usuários brasileiros usam o Twitter para acompanhar a política, sendo que 48% dizem que acompanham sempre e 35% quando há algum acontecimento. Fora isso, 74% dos usuários disseram que as ideias que um candidato defende no Twitter podem ajudar a definir o voto.

Muitos usuários confessam ter começado a se interessar mais por política partidária depois de começar a usar o Twitter com frequência e confirmam ter tomado maior conhecimento sobre religiões, partidos e movimentos políticos. Outros tantos afirmam que se aproximaram dos ideais de algum político e mudaram de opinião em relação aos ideais que antes defendiam.

É o caso de Luís Felipe Motta, estudante de 16 anos, que conta como se radicalizou: “Desde que entrei na rede social, em 2018, me aproximei das diversas visões ideológicas do mundo, o que me levou a radicalizar meu posicionamento. Para mim, foi justamente o contato com os debates oferecidos pela rede que me levaram a querer participar de grupo de estudos marxistas e a querer militar pelo Partido Comunista Brasileiro”.

Por outro lado, Rafael Carvalho, graduando em Física, de 20 anos, afirma o contrário. “Apesar de leigo em política, sempre fui anticomunista, e ao ver o crescimento de perfis comunistas, decidi estudar o Movimento Integralista e cheguei a montar um grupo de estudos com outros perfis da plataforma que compartilham da mesma visão que eu. Para mim, a minha iniciativa parte de uma reação à ascensão do comunismo”, conta

Enquanto isso, outro usuário traz uma experiência diferente. “Eu usava o Twitter apenas para ver memes, mas a rede me instigou a querer acompanhar o que acontece dentro do congresso nacional, e cheguei a assinar diversas petições e a tentar conscientizar meus amigos”, explica Guilherme Martins, de 24 anos, trabalhador da área de Engenharia.

O fator da radicalização é explicado pela cientista social e pesquisadora Lays Vieira, que analisa o fenômeno como sendo parte de um processo de globalização e pós-verdade, em que as redes ampliam o espaço e a visibilidade pública de discursos de ódio e aproximam pessoas com visões parecidas.

“No contexto das redes, a imensa quantidade de informação chegando à população o tempo todo, muitas vezes sem mediação crítica ou científica, como no caso das fake news, gera um ambiente propício para radicalizações. Isso pode representar um sintoma grave do problema no sistema educacional brasileiro”, explica a pesquisadora.

Lays destaca ainda que, por conta do isolamento da dimensão pública da política, o debate vem sendo privativo, e as discussões se voltaram cada vez mais não só para redes sociais, mas também para grupos de WhatsApp e Telegram, que, muitas vezes, são geradores de fake news e ataques a determinados grupos.

“Muitos teóricos falam de despolitização e noções correlatas de pós-política, de pós-democracia, mas é preciso atentar ao fato de que estas tendem a uma primazia da economia e do indivíduo, que desemboca em um processo de individualização e transformação da política em estilos de vida e opiniões”, finaliza a especialista.

A rede, que antes parecia inofensiva, hoje se transforma em um verdadeiro caos no sentido de propagação de ideias subversivas, radicais e violentas, tanto para um lado, quanto para o outro, o que nada mais é do que um reflexo da polarização do ambiente político sendo refletido na sociedade.

João Gabriel Lira Gavião – 3º período

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “O Twitter como ambiente de radicalização

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns, João. Bjs!

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