Da sala de aula

A nova geração do Rap nacional

Jovens com menos de 25 anos dominam o cenário do estilo musical, cantam suas vivências e levantam questões sociais importantes

Originado em Nova York, o movimento Hip Hop, do qual o Rap é um dos pilares, chegou ao Brasil nos anos 80 e teve sua ascendência somente na década seguinte. A cidade de São Paulo foi a matriz do que hoje em dia se conhece como o Rap nacional. Naquela época, jovens de periferia reuniam-se em praças do Centro da cidade e promoviam as famosas rodas de rima. Mas o movimento não foi aceito facilmente por algumas pessoas, pois consideravam o estilo musical como algo violento, que tratava da criminalidade e da cultura das periferias. Mesmo assim, o Brasil acolheu o rap, que se desenvolveu e hoje é dominado por jovens, a nova geração do Rap nacional.

Sabotage foi um dos maiores nomes da história do Rap Nacional
Foto: reprodução da capa do álbum Sabotage

A história do Rap abriga personagens que marcaram o cenário musical. Ainda na década de 90, surgiram grandes nomes, como Racionais MC’s e Sabotage, artistas que fizeram sucesso e consolidaram o cenário do Rap. Anos se passaram e o estilo musical viveu momentos marcantes, que contaram com uma diversidade incrível de artistas e vertentes musicais. De Mano Brown a Orochi, passando por Marcelo D2, Gabriel O Pensador, Emicida e Karol Conká. Hoje, é possível observar uma geração de jovens na casa dos 25 anos dominando o espaço do gênero musical.

Um destes jovens é o beatmaker e produtor musical Gustavo Luiz, também conhecido como Xizoh, morador de Bangu, bairro da Zona Oeste do Rio de Janeiro, que, aos 19 anos, já produziu mais de mil bases musicais. “O rap para a sociedade é muito importante. Consumo o Hip Hop desde pequeno e sempre quis aprender a fazer música. Tenho um amigo que, infelizmente, está envolvido com o tráfico de drogas, mas que é muito bom fazendo rap. Eu acredito que, por meio do rap, ele pode sair da vida do crime. O hip hop tem o papel mudar o destino de muitos jovens”.

Beatmaker x Produtor musical

O papel do beatmaker dentro do hip hop é construir instrumentais para músicas, que se baseiam principalmente em uma batida e uma melodia. Já o produtor musical é a pessoa que decide a direção do projeto musical, captando a ideia do artista e direcionando a música pelo melhor caminho. É possível uma pessoa exercer os dois papeis, caso se especialize.

Xizoh tem o rap presente em sua vida desde criança, mas foi em 2016, ainda no Ensino Médio, e aos 15 anos, que decidiu desenvolver o talento como beatmaker e trabalhar na área da música. Desde então, ele já conquistou mais de 100 ouvintes mensais no Spotify, quase 3 mil inscritos em seu canal no Youtube e seus trabalhos acumulam mais de 700 mil visualizações. Hoje, Xizoh cursa Engenharia Mecânica pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), mas destaca: “A a carreira como produtor musical é a que mais gostaria de seguir em minha vida”.

Xizoh em um estúdio
Foto: Reprodução Instagram

Já Arthur Leonardo, de 22 anos, se interessou pelo rap por meio das batalhas de rima quando tinha apenas 13 anos. Desde então, rima e compõe letras musicais. Ele vê o rap como a melhor forma de expressar seus sentimentos e emoções. Para ele, o rap é capaz de transformar a vida de pessoas. ARTTY, como é conhecido no meio, é mais um jovem artista que leva o rap como compromisso.

ARTTY, de blusa branca e vermelha, em uma batalha de rima Foto: Reprodução Instagram

E as mulheres?

No início dos anos 90, poucas mulheres se aventuravam no rap. A cena do estilo musical era, em sua maior parte, feita por homens. O machismo dominou o ambiente, impedindo, por muito tempo, que artistas femininas participassem do meio com liberdade. Graças ao empoderamento feminino, isso mudou.

Hoje, o rap feminino domina o país e retrata a realidade das mulheres brasileiras. Rimando sobre suas vivências, essas artistas trazem à tona temas essenciais como racismo, empoderamento, machismo, amor, maternidade, LGBTfobia, entre outros. Negra Li, Clara Lima, MC Soffia, Drik Barbosa, Linn da Quebrada e Tássia Reis são alguns nomes de destaque no mundo do rap feminino. Porém, essa lista de artistas é gigante.

Letícia Reis, mais conhecida como Black Queen, é destaque na nova geração feminina do rap. Ela é cantora e compositora, tem 19 anos e canta desde os 13. Moradora de Vila Valqueire, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, já conquistou mais de 15 mil de ouvintes mensais no Spotify e quase 100 mil reproduções em sua música mais conhecida “Se Envolver”. Para Black Queen, a importância do rap vem a partir da necessidade de expressão por meio de versos, ritmos e pelo contexto histórico. “O rap é de origem preta, ou seja, eu posso falar da minha cultura, da minha raiz, dos meus ancestrais (como cito em um dos meus sons) e de tudo que, de fato, me representa”.

Black Queen teve que enfrentar o preconceito para se destacar no Rap
Foto: Reprodução Instagram

Assim como a maioria das mulheres envolvidas na cena do rap, Black Queen foi vítima do preconceito. Ela diz que, por ser uma mulher negra e jovem, foi subestimada quanto a sua capacidade de fazer música. “Um dos maiores desafios foram os olhares e a aceitação de determinado público em relação às minhas letras. Já sofri preconceito, mas também já fui abraçada. Muita gente me subestimou por ser mulher, negra e jovem. Algumas pessoas até invalidaram os meus posicionamentos, como se eu não fosse capaz de estar ali”, afirma a artista.

EP “Black Queen Vol.1”
Foto: Reprodução Capa

Em março desse ano, Black Queen lançou seu primeiro EP “Black Queen Vol.1” com produção do VV Clã, uma gravadora independente do Rio de Janeiro. O projeto já alcançou mais de 100 mil visualizações até agora e alavancou ainda mais a carreira da artista. Mais uma prova de que, seja entre jovens ou adultos, o rap é o que é. O rap é representatividade. O rap abre caminhos.

O rap é composto em sua maioria por indivíduos negros nascidos em favelas, onde a pobreza e a falta de oportunidades se fazem tão presentes quanto a fome, e o destino final quase sempre é o mundo do crime. Com isso, esses indivíduos veem a arte das rimas como uma válvula de escape, a voz que faltava a eles. O rap é resistência e é compromisso.

Ana Júlia Parreira – 3º período

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “A nova geração do Rap nacional

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns, Ana Julia! Bjs!

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