Da sala de aula

A busca exagerada pela perfeição

A influência da internet no aumento de cirurgias plásticas e procedimentos estéticos

Padrão significa norma determinada e aprovada consensualmente pela maioria, ou por uma autoridade, que é usada como base para estabelecer uma comparação. Esse conceito relacionado à beleza formata como seria o corpo ideal. Ao longo dos anos, o conceito de beleza foi se transformando, mas algo não mudou: a normalidade em se comparar e usar como parâmetros esses modelos. Um fenômeno que, com a Internet, tornou-se ainda mais notável.

Não é de hoje que tais ideais de beleza oprimem o ser humano, especialmente as mulheres. Na Antiguidade Clássica, o conceito de belo vinha da forma ou aparência perfeita, agradável e harmoniosa. A simetria corporal sempre foi algo imposto como bonito na maior parte das culturas ao redor do mundo.

Na busca pelo corpo ideal, muitas pessoas se tornam obsessivas
Foto: Freepik.com

A escritora Naomi Wolf conta em seu livro, “O mito da beleza”, que, na verdade os padrões estéticos servem também para tirar dinheiro de mulheres que demonstram descontentamento com suas aparências e buscam procedimentos estéticos, cosméticos que garantam redução de gordura e outras promessas desse gênero. Essa teoria, entre várias outras, chama atenção, já que o patriarcado e o capitalismo continuam lucrando com as inseguranças das mulheres.

Além de lidar com tais padrões que já vêm sendo impostos por muitos anos, em meio a uma pandemia, estar conectado com as redes sociais acabou virando o novo normal. A internet tornou-se um refúgio para a solidão, mas, ao mesmo tempo, tende a ser tóxica para algumas pessoas. Com imagens e exposições ilusórias,  a frustração de não alcançar tais ideais é presente na vida de muitos e gera preocupação.

É inevitável não falar sobre a rede social mais imagética de todas, e talvez a mais problemática. O Instagram, que foi criado em 2010, já alcança mais de 1 bilhão de usuários, segundo uma pesquisa feita pela empresa Statista.com. Por ser uma rede social que apenas mostra imagens, as ferramentas de curtida, comentário e compartilhamento servem como mecanismo de satisfação.

Filtros transformam a imagem
Foto: Freepik.com

Além disso, essa exposição de vida perfeita que muitos usuários fazem abre uma brecha para que seguidores continuem comparando suas rotinas, muitas vezes se botando para baixo por não possuírem as mesmas condições ou a felicidade que essas pessoas parecem transparecer.

Assim como qualquer área do mundo, as redes sociais estão em constante evolução, e não seria diferente com o Instagram. Em novembro de 2019 foi criado o primeiro filtro do aplicativo. Eles já existiam em redes vizinhas como o Snapchat, mas em sua maioria eram inofensivos, imitando cachorros ou trocando de cara com algum amigo.

Quando os filtros migraram para o Instagram, se expandiram e apareceram de várias formas diferentes, colorindo as fotos e muitas vezes também, distorcendo-as. O que era para ser algo satisfatório mexeu com a autoestima de muitas pessoas. Filtros que aumentam boca, afinam nariz e suavizam a pele aguçaram vontades que às vezes as pessoas nem sabiam que existiam, o que consequentemente aumentou a busca por cirurgias plásticas e procedimentos estéticos.

Além disso, ainda ocorre a falta de sensibilidade de pessoas que utilizam diariamente essa rede. Muitas vezes, os chamados influenciadores, que são as pessoas que têm um alto número de seguidores e/ou trabalham com a rede, apenas postam uma vida perfeita. Viagens, vida saudável, relacionamentos perfeitos, corpos ideias e empregos satisfatórios são o que geram gatilhos para outras pessoas.

A influenciadora Giulia Dantas, que já tem cerca de 267 mil seguidores com apenas 18 anos, defende que é sim um dever de quem trabalha com as redes sociais ter um certo cuidado com tudo que é postado, pois isso interfere na vida de muitas outras pessoas. “Nós devemos nos responsabilizar também por mostrar as partes ruins da vida, não somos só feitos de viagens e corpos lindos, por trás disso todos temos problemas”.

A estudante de Nutrição Juliane Rodrigues, de 19 anos, conta que antigamente se sentia muito influenciada a fazer tais procedimentos, como rinoplastia ou preenchimento labial, mas com o tempo essa vontade foi diminuindo. “Hoje em dia tento me aceitar do jeito que sou e parar de me comparar com os outros. Ser diferente também é bom”. Não só Juliane, como várias outras meninas sofrem do mesmo problema.

O perigo dessa influência é constatado por Mariana Lorente, estudante de 18 anos, que fala sobre a obsessão pela busca do corpo perfeito. “A partir do momento em que se torna uma obsessão pela perfeição de um corpo, que não existe, no qual a pessoa nunca estará satisfeita e com a sensação de que sempre precisa mudar algo em si, além também do risco de vida, dependendo do procedimento/cirurgia, é sim alarmante. Vale a pena arriscar a vida por algo inexistente?”.

Com o crescimento dessa cultura em massa de filtros, rostos simétricos e perfeitos, ocorreu um consequente aumento pela procura de cirurgias plásticas e procedimentos estéticos. Segundo uma pesquisa realizada pela Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (ISAPS), em dezembro de 2019, o Brasil ultrapassou os Estados Unidos e se tornou o país que mais realiza cirurgias plásticas no mundo. Essas estatísticas englobam jovens em sua maioria entre 13 a 18 anos. Dados assustadores, já que seus corpos ainda estão em desenvolvimento.

O cirurgião plástico Heriberto Arias, membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica, diz que é notório o aumento de cirurgias por influência da internet. “Muitas mulheres chegam em meu consultório com fotos de pessoas com rosto harmonizado, rinoplastia e preenchimento labial como referência, desejando efeitos iguais desses procedimentos em seus corpos, mas cada profissional trabalha de um jeito, não existe uma fórmula para reproduzir o mesmo trabalho”.

A busca pela perfeição, muitas vezes, pode levar até a morte. No ano passado, Edisa Solone faleceu após a realização de três cirurgias plásticas. A jovem teria procurado o médico apenas para a realização de um procedimento e foi convencida a realizar mais três. O caso de Edisa é apenas mais um em meio a vários casos que são noticiados ao longo do ano, seja por negligência médica ou por riscos apresentados pela própria cirurgia.

Diminuir a ocorrência de casos como esse ou até mesmo de casos de dismorfia corporal causados pela internet é um dever do qual todos deveriam se encarregar. Preservar pela saúde e aceitação é uma pauta importante na nossa sociedade, já que cada vez mais há relatos como o de Juliane. É preciso de informar, compartilhar mensagens de autoaceitação, como o movimento “Body positive” (corpo positivo), que está cada vez mais popular na internet. Como já dizia Joyce Brothers, uma famosa psicóloga americana, “Uma autoimagem forte e positiva é a melhor preparação possível para o sucesso”.

Nathália Ferreira – 3º período

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

1 comentário em “A busca exagerada pela perfeição

  1. Maristela Fittipaldi

    Parabéns, Nathália! Bjs!

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