Da sala de aula

Um reencontro com a música durante a quarentena

Em tempos de isolamento, muitas pessoas têm a música como companhia em casa

Diante da pandemia do Covid-19, boa parte da população tem se mantido em isolamento social e passado ainda mais tempo dentro de casa, trabalhando, se exercitando e sempre em busca de uma distração do mundo e da enxurrada de notícias, o que tem trazido grandes frustrações e aumento das tensões e ansiedade. Nesse momento difícil, uma ferramenta que muitos têm encontrado é a música. Ciente disso, muitos artistas têm feito lives pelo Youtube e por outros aplicativos e plataformas em suas próprias casas, tomando todo o cuidado com suas equipes para promover uma estrutura semelhante a de um show para os telespectadores.

Raniere Freire, o DJ Ranizinho, de 20 anos, é um dos que vem apostando nas lives para levar diversão e entretenimento a quem está em casa. “Acredito que é a melhor maneira para manter a ligação público e artista. Tenho buscado fazer lives dentro da minha realidade, com o máximo de qualidade possível, respeitando sempre a quarentena e tendo contato com o mínimo possível de pessoas”. Essas transmissões têm o intuito de incentivar que todos fiquem em casa e curtam a apresentação do próprio sofá.

Transmissão ao vivo, pelo Youtube, do DJ Ranizinho. Com o máximo de dedicação e aparelhagem disponível, Raniere levou a animação de uma festa para casa de seus fãs e seguidores. (Foto: arquivo pessoal)

Algumas pessoas já tinham o hábito de escutar música diariamente, ou durante seus afazeres, mas mesmo assim notaram uma ressignificação dessa ação durante o isolamento. Maria Beatriz Teixeira, de 20 anos, estudante, relata: “A música é uma das minhas maiores distrações. Ela me ajuda a não perder a cabeça em vários momentos. Ainda mais agora, que estamos limitados. Até minha mãe, que não ouvia música fora do carro, por exemplo, tem acompanhado diversas lives!”. Isso demonstra o espaço que a música tem tomado na vida das pessoas, até mesmo daqueles que não tinham tanta proximidade com ela.

Não é à toa que isso acontece. A música já é reconhecida por pesquisadores como uma modalidade de desenvolvimento da mente humana, que promove o bem estar e o estímulo do raciocínio, até mesmo em questões reflexivas voltadas para o pensamento. Por isso, é comum que as pessoas busquem por ela nesse momento, podendo servir como forma de terapia.

Ione Ayres, psicóloga, terminando a formação de Arteterapia, fala sobre a relação entre a música e o indivíduo “A música serve como uma conexão afetiva com a vida. E isso é o que as pessoas vêm perdendo quando estão entrando em um processo de declínio, seja emocional ou cognitivo. Elas já estão cansadas e resistindo. Então a música revigora, conecta de novo!“.

Consumir música ainda vai além de apenas escutar. Nesse período, algumas pessoas ainda estão buscando um autoconhecimento e acabam se encontrando na música. Júlia Pinho, de 20 anos, estudante, relata: “A música sempre foi algo muito terapêutico para mim, até por eu cantar e tocar violão desde muito cedo. Então, nesse momento, tem me ajudado muito e tem se tornado algo essencial. Eu tenho esse costume de ouvir música no meu quarto para relaxar. Com esse maior tempo para mim, é como se eu entrasse na frequência da música”.

Júlia Pinho, 20 anos. Durante esse período de isolamento social, ela encontra seu refúgio dentro da música e, principalmente, na companhia de seu violão. (Foto: arquivo pessoal)

Um pouco mais inovador foi Lourenço Sertã, de 19 anos, morador de Niterói, que resolveu colocar uma caixa de som na janela para animar seus vizinhos. Ele conta que sempre gostou de montar playlists e até fazia alguns trabalhos como DJ. Lourenço também fala sobre sua motivação para iniciar essa atividade “Diante do cenário atual, todos os eventos e festas foram cancelados. O clima que a gente está vivendo é muito para baixo. Então, tive a ideia de usar meu equipamento, selecionar algumas músicas e colocar para os meus vizinhos. Como uma festa à distância”. E a cada dia ganhava mais ouvintes.

A música foi contagiando todos os apartamentos ao redor. E o trabalho diário na janela durou um mês. Todos os dias, na mesma hora, Lourenço selecionava algumas músicas, de diferentes estilos, para tocar, além de atender a pedidos gritados pelos vizinhos. Contudo, seu maior sucesso foi a Ave Maria, às 18h, que continua até hoje. Lourenço comenta sobre sua repercussão: “Moro em um bairro com muitos idosos. É uma música antiga e clássica, talvez ela agrade mais”. Todos os dias, é possível escutar as palmas vindas de vários quarteirões e observar o maior número de pessoas na janela quando essa música toca. “A Ave Maria é uma música que toca as pessoas. Independentemente da sua religião você se sente comovido”.


Lourenço tocava Ave Maria para seus vizinhos. A partir de uma simples música, muitos conseguem criar forças para seguir. (Foto: arquivo pessoal)

*Matéria produzida pela aluna Jullia de Azevedo para a disciplina Teoria e Técnica da Notícia, ministrada pela professora Maristela Fittipaldi.

Agência UVA é a agência experimental integrada de notícias do Curso de Jornalismo da Universidade Veiga de Almeida. Sua redação funciona na Rua Ibituruna 108, bloco B, sala 401, no campus Tijuca da UVA. Sua missão é contribuir para a formação de jornalistas com postura crítica, senso ético e consciente de sua responsabilidade social na defesa da liberdade de expressão.

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