Geral Saúde

Relação sem equilíbrio com a ingestão de comidas pode se tornar distúrbio alimentar

Nutricionista informa as diferenças entre o alto consumo de alimentos de forma momentânea e a compulsão alimentar

Se sentir ansioso com o fim do ano, organizar confraternizações e pensar na comida do Natal são questões que exercem influência na alimentação. Este período, marcado por churrascos e ceias, causa preocupação entre muitas pessoas, que possuem o desejo de comer tudo o que o mês de dezembro propicia, mas ao mesmo tempo listam ‘emagrecer’ como uma das metas de ano novo. Essa relação conturbada com alimentação e a apreensão com os números da balança, que costuma se intensificar com a chegada do verão, podem atingir níveis que não são considerados saudáveis.

As inquietações com o corpo e com o peso afligiram a vida da universitária, Isabella Lima. A jovem, de 22 anos, teve obesidade grau II na infância e anorexia na adolescência. “Quando tinha 16 anos, eu pesava 90 quilos e tinha um distúrbio de imagem. Mesmo obesa, eu não me via com aquele peso. Eu só me preocupava com o meu rosto. Na minha cabeça eu idealizava um corpo que eu não tinha, eu não enxergava que estava com compulsão alimentar. Fui obesa desde pequena até os 17 anos e fiquei anoréxica em seguida”, relata Isabella, que atualmente cursa nutrição. 

Biotipo da estudante de nutrição, Isabella Lima, se modificou devido a anorexia. Hoje a universitária possui uma rotina de treinos.
(Foto: Reprodução/Instagram)

A estudante vivenciou dois extremos e buscou ajuda psicológica para estabelecer uma relação mais equilibrada com a sua alimentação. “Durante a compulsão alimentar eu comprei livros de auto ajuda, que realmente me ajudaram, mas não me livraram dela. A compulsão está comigo até hoje. Eu parei de ser compulsiva por comida, mas eu a transferi para o treino. Cheguei a emagrecer mais de 30 quilos, mas o distúrbio de imagem permaneceu. Aos 18 anos eu pesava 57 quilos, mas achava que estava gorda. Até o dia que eu percebi que isso não era normal e esse ano busquei uma terapia especializada em transtornos. Acho que o certo a se fazer era que eu tivesse tido um acompanhamento psicológico desde o início, ainda não descobri o porquê eu não enxergava a realidade”, conta. 

A nutricionista Aline Fernandes informa que “a compulsão alimentar é um distúrbio caracterizado pela grande ingestão de alimentos em um curto período de tempo, sem que a pessoa esteja com fome física, com necessidade de comer” e ainda afirma que há sintomas que podem ser observados neste caso. “As pessoas que passam por isso acabam perdendo o controle sobre a quantidade de alimento e a qualidade do que comem. Quando o período de compulsão acontece, muitas vezes a pessoa não está consciente do que está fazendo, então isso gera o sintoma de culpa posteriormente. Outros sinais de compulsão podem se apresentar, por exemplo, às pessoas que não têm paciência para aquecer a comida, ingerem a comida gelada, ou às pessoas que fazem combinações muito diferentes. A pessoa simplesmente precisa comer, não importa o que”, explica.

Além disso, a profissional ainda alerta que aqueles que fazem dietas muito rígidas e possuem outros sinais como os listados, também podem estar passando pela compulsão alimentar. Ainda é importante ressaltar que comer exageradamente por um momento, durante um evento, por exemplo, se distingue de comer compulsivamente, já que quem passa por essa última situação apresenta um padrão recorrente no dia a dia. “Para caracterizar um transtorno de compulsão alimentar o episódio precisa acontecer pelo menos uma vez na semana, durante 3 meses seguidos, informa Aline. A frequência e a perda do controle da situação diferem-se de pessoas que comem muito em determinado dia porque querem. “Em muitos casos os pacientes relatam que não comem de forma consciente, só se dão conta que comeram compulsivamente porque acordam e encontram um pacote de biscoito aberto ou uma panela vazia, quando o episódio ocorre de madrugada, por exemplo”, completa a nutricionista.  

Nutricionista Aline Fernandes relata como a compulsão alimentar pode ser identificada.
(Foto: Júlia Reis)

Identificar os estímulos que favorecem os episódios de compulsão alimentar ajuda a evitá-los. “É importante conhecer os níveis de fome, tentar levar uma rotina mais leve e não ficar completamente dependente de uma dieta porque quando nos privamos muito de comer o que gostamos isso pode nos estressar, contribuindo para a compulsão alimentar, para tentar encontrar na comida um conforto”, afirma a nutricionista Aline. 

A realidade de ser adepta às dietas restritivas também já fez parte da rotina de Isabella Lima.  “Eu fazia muitas dietas e essa questão de ter regras, ter uma determinada quantidade especificada me gerava mais ansiedade porque eu precisava me preocupar com o que eu ia comer no dia seguinte, em como eu ia preparar. Hoje eu tenho um comer intuitivo, como o que eu tenho vontade e exerço um autocontrole. Posso comer um pedaço de pizza se tiver vontade e sei que está tudo bem, antigamente eu me culpava por isso. Desmistifiquei essa noção de ter um ‘dia do lixo’. 

Atualmente Isabella pratica CrossFit e consegue manter uma relação mais equilibrada com a alimentação.
(Foto: Reprodução/Instagram)

Outra regra que bastante comentada quando o assunto é ser mais saudável refere-se a ingestão de alimentos de 3 em 3 horas. Entretanto, segundo os especialistas essa questão pode ser desconsiderada.  De acordo com a nutricionista Aline, hoje isso já não é mais considerado o ideal. “A gente precisa respeitar os limites de fome e saciedade do nosso próprio corpo. É possível que uma pessoa sinta fome antes do período das 3 horas e que outras precisem de um período mais extenso para sentir fome. Regras assim acabam contribuindo para que a pessoa crie o vício de comer o tempo inteiro. Existem vários tipos de fome, quem passa por uma situação de compulsão pode estar com uma fome emocional e achar que precisa comer para suprir alguma outra necessidade”, reitera. 

A profissional ainda recomenda o auxílio psicológico para os pacientes que apresentem o distúrbio. “Buscar ajuda de um profissional da psicologia é extremamente importante para auxiliar o fundo desde transtorno. Associado a isso, a nutrição também ajudar o paciente a distribuir melhor as refeições ao longo do dia. Além disso, existem nutrientes específicos que ajudam a saúde cerebral, ajudando na produção de hormônios que levam a saciedade e hormônios que são responsáveis pelo bem-estar”, conclui. 

Uma das formas de evitar as situações de compulsão alimentar e tornar a relação com a alimentação mais positiva, no caso de Isabella Lima, é conversar sobre o assunto com seus seguidores nas redes sociais. “Quando eu emagreci, procurei um nutricionista esportivo para me ajudar a ganhar músculo. Ele falou para eu postar meu antes e depois e então as pessoas começaram a se interessar pela a minha história e eu comecei a contar sobre mim”, comenta a estudante de nutrição sobre o momento em que também começou a atuar como digital influencer. 

Trabalhar com as redes sociais serviu para auxiliar Isabella em sua recuperação e também inspira quem acompanha seus conteúdos voltados para autoaceitação. “Comecei a mostrar quem é a Isabella de verdade e eu consegui fazer as pessoas verem que estava tudo bem com o corpo delas, que elas não precisam tentar se encaixar em um padrão que não existe. Eu queria ser perfeita e vivia frustrada. Agora prefiro me mostrar real e não ter vergonha de mim. Não vou dizer que é fácil postar as minhas fotos com celulite e estria, é um desafio. Mas eu coloquei na minha cabeça que estaria tudo bem se aquilo fosse mal repercutido. Da mesma maneira que eu me ajudo, também sei que estou ajudando a outras pessoas. Hoje eu penso que uma mente saudável é um corpo saudável”, expressa. 

Júlia Reis – 6º período

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