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Debate sobre animação no Brasil é uma das atrações da SIQ 2019

Animadoras também discutem a atuação da mulher no mercado de animação e o cancelamento de Super Drags.

Animadoras também discutem a atuação da mulher no mercado de animação e o cancelamento de Super Drags.

No 5° e último dia da Semana Internacional de Quadrinhos (SIQ), realizado na Universidade Veiga de Almeida (UVA), animadoras debatem a atual situação do mercado de animação no Brasil, o papel da mulher dentro dessa área e o cancelamento da série Super Drags. O debate contou com as animadoras Gika Carvalho, Cláudia Bolshaw e Rosária Moreira.

Animação no Brasil

Claúdia Bolshaw, doutora em animação e coordenadora do Núcleo de Arte Digital e Animação (N.A.D.A), dá o panorama atual do mercado brasileiro de animação. “Não há momento melhor para se interessar por animação. A animação brasileira vem se aprimorando constantemente muito devido à evolução que a tecnologia da área vem sofrendo. Então, se há a vontade de aprender sobre esse tema, a hora é agora”, fala Cláudia.

Se por um lado, aprender sobre animação nunca esteve tão acessível, o mesmo não se pode dizer sobre o ingresso no mercado de trabalho. Cláudia conta que a animação no Brasil, assim como outros segmentos, sofre bastante com o período de recessão que o país enfrenta. “Na década passada, os editais foram os responsáveis pelo crescimento de produções animadas no país permitindo que o setor crescesse. Já hoje, o mercado de animação passa por uma fase difícil, mas isso é um reflexo da economia do Brasil e não da decadência da nossa área”, completa a coordenadora do N.A.D.A.

Gika Carvalho, integrante do Combo Estúdio e professora do AnimaMundi, fala sobre as mudanças que ela espera que ocorra no cenário da animação. “Sonho com o dia em que o Brasil vai exportar animações e não animadores. Fico feliz de ver colegas conseguindo grandes oportunidades de trabalho, mas é uma pena que eles precisem sair daqui”. Ela também comentou sobre a importância de produzir obras autorais e não apenas se contentar em cumprir uma determinada função. “A gente precisa ser mais que um operador de software. Animação comercial é o que paga nossas contas, mas não podemos deixar nosso lado autoral de lado”, disse a animadora.

Da esquerda para direita: Rosária Moreira, Cláudia Bolshaw e Gika Carvalho Foto: Facebook / SIQ

Cancelamento de Super Drags

Gika fez parte da produção da série animada Super Drags que estreou ano passado na Netflix. A série, no entanto, acabou não sendo renovada para uma segunda temporada. A animadora falou sobre os motivos que levaram a Netflix a tomar essa decisão. “Devíamos receber um posicionamento deles (Netflix) até o fim de novembro. Recebemos um posicionamento oficial e alguns que não eram. Oficialmente, a série não obteve o retornado desejado e que segundo eles muitas pessoas que fazem parte de grupos LGBTI não gostaram da representação que a série deu para os personagens”.

Mas para Gika o principal motivo foi outro. “Acho que muita gente rejeitou a animação pela questão da sexualidade. Chegamos a receber ameaças de morte e tivemos que trabalhar com o estúdio fechado algumas vezes”. A série sofreu com três petições exigindo o seu cancelamento antes mesmo dela sequer ter estreado. Gika, no entanto, ainda tem esperanças que a animação possa retornar. “Super Drags está com 85% de adesão na plataforma, quem sabe ela não volte no futuro”.

O papel da mulher no mercado da animação

As animadoras contam como é trabalhar em uma área em que as vagas são majoritariamente ocupadas por homens. “Por muito tempo, fui a única animadora no meio de vários homens. Felizmente, esse quadro vem mudando. Atualmente, no N.A.D.A são eu e outras oito mulheres produzindo animações”, afirma Claúdia.

Gika fala que essa diferença no percentual de homens e mulheres que trabalham com animação não passa pela falta de interesse do público feminino. “Nas universidades, o interesse por animação era dividido. Sempre via várias garotas com vontade de estar nesse meio, mas no mercado de trabalho isso não se refletia”. Ela ainda conta que várias mulheres acabam trabalhando como produtoras nas animações. “Muitas vezes as mulheres ficam relegadas a trabalhar na produção e não na animação. Existe um pensamento que nós somos capazes apenas de gerenciar algo, mas não de produzir”.

Elas também comentaram situações constrangedoras que aconteceram com elas ao longo de suas carreiras nas animações. Rosária Moreira conta que já sofreu com algumas piadas e tentativas de a colocarem para realizar funções secundárias por parte de alguns colegas de trabalho. “Nunca me incomodei com as piadas, mas o que não aceitava era tentar ser passada para trás. Diferente de outras garotas, eu tinha a fama de ser um pouco rebelde e sempre respondia quando algo me desagradava e isso me ajudou. Passei a ser mais respeitada”.

Já Cláudia fala que alguns homens com quem trabalhou não a respeitavam como uma figura de autoridade. “Certa vez estava dirigindo uma animação e passei as diretrizes que os animadores deveriam seguir, Retornei para ver o andamento do projeto e eles não seguiram nada do que eu falei. Precisei repetir várias vezes as orientações para que eles obedecessem”, relata Claúdia.

Para Gika, as mulheres devem continuar cavando o seu espaço dentro da profissão e que não desanimem, caso encontrem dificuldades. “O cenário melhorou bastante, mas ainda podemos conquistar muito mais. A Rosária disse isso antes e repito: Não aceitem serem jogadas para funções inferiores, somos tão capazes de animar quanto qualquer outro animador”, desafaba.

Breno Silva – 6° período

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