Educação

Poesia como fonte de educação, protesto e entretenimento

É a partir de projetos de poesia falada que professores do Rio de Janeiro encaram o desafio de entreter seus alunos e fazer com que eles se sintam mais confortáveis com a literatura.

É a partir de projetos de poesia falada que professores do Rio de Janeiro encaram o desafio de entreter seus alunos e fazer com que eles se sintam mais confortáveis com a literatura

O assunto é difícil de ser abordado, e por mais que já houvesse passado pela roda de conversa com os alunos de Ensino Médio da Escola Estadual Monteiro de Carvalho, Andreia Morais resolve dar uma nova abordagem ao tema feminismo. O poema Meu corpo, meu territóriocomeça a ser versado pela poetisa que, com entusiasmo, grita para os estudantes “quero sangrar somente o que a natureza me exigir”. Os jovens não identificam no começo. “Ouço a música que quero, visto a roupa que quero”. Eles tentam ainda dar respostas a afirmações feitas por ela durante o poema, mas ouvem mais uma estrofe: “eu pertenço a mim mesma e me doo a quem quiser”.

O poema de Andreia, formada em Artes Cênicas pela UNIRIO e professora da rede municipal do Rio de Janeiro, faz parte de um dos projetos de poesia falada que tem sido instalado a fim de educar, em diversas escolas estaduais e municipais do Rio de Janeiro. Uma alternativa para o desafio é estimular o jovem a conhecer a cultura, praticar a leitura e a produção de textos. Assunto importante em um país em que mais de 11, 8 milhões de pessoas são consideradas analfabetas. Uma pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2016 revela que cerca de 51% da população brasileira de 25 anos ou mais tem escolaridade somente até o Ensino Fundamental ou equivalente.

Andreia e alunos em roda de conversa
Foto: Arielle Curti / Agência UVA

Durante entrevistas, os jovens do Ensino Médio não se mostram muito interessados em literatura. Dos doze entrevistados, metade assumiu não ter lido um livro ainda esse ano, apesar de estarem passando pelo estágio escolar que mais exige a leitura.

É preciso, no entanto, compreender que a deficiência literária está principalmente em núcleos sociais comumente marginalizados e que, portanto, tem maior dificuldade ao acesso de ensino. Pessoas negras e pardas compõem os 9,9% da população analfabeta do país, porcentagem duas vezes maior do que a de pessoas brancas, que constituem apenas 4,2%.

Por isso, Eliana Bonfim, Coordenadora Pedagógica do Colégio Liceu Franco e professora da rede estadual de ensino, levou o projeto de poesia falada para dentro de sua sala de aula. “As crianças vivem em um cenário tão opressor que acho que é um novo viés para elas”, afirma.

Mesmo com as dificuldades pelas quais passam, Eliana consegue ver em seus alunos analfabetos funcionais a compreensão de uma nova visão. “Eles se sentem muito mais inseridos quando é falado”. Por intermédio dessa ferramenta, ela consegue estimular a escrita a partir de algo que seja do interesse do aluno, trabalhando neles o desafio de ler mesmo com a sua complexidade. “A poesia é libertadora e é capaz de expurgar os seus demônios dentro da sua própria comunidade”, enfatiza.

Devido à internet, são muitos os jovens que têm acesso ao conteúdo de poesia falada. Vídeos no YouTube divulgam as rodas, e nelas ocorrem competições que existem por todo o estado do Rio de Janeiro. Os chamados Slams, trazidos da cultura norte-americana, abordam a literatura marginal. Um exemplo de roda que traz uma proposta interessante para os dias atuais e que entra no contexto jovem é o Slam das Minas.

Temáticas como racismo, feminismo, homofobia são constantes nestas rodas e revelam a necessidade de se conversar sobre aquilo que a sociedade não está acostumada a falar. Apesar de não ter sido de seu interesse se juntar às rodas de poesia falada da cidade, é agora onde Andreia busca novos métodos de ensinar. “Eu vi o quanto a linguagem poética é mais subjetiva e capaz de fazer o jovem falar sobre questões que atravessam a adolescência que é uma idade complicada”, diz a professora.

São questões como esta que levaram Iara Silva, 16 anos, a ser uma das internautas de poemas pela internet. Consumidora do canal norte-americano de poesia falada Button Poetry, disponível no YouTube, ela consegue relacionar os diversos assuntos comentados com acontecimentos de sua própria vida. “As palavras têm muita força, às vezes chego a chorar”. Ela encara, também, a poesia como algo complementar a educação. “Apesar de não ter esse tipo de projeto de forma tão aberta na minha escola, acho ótimo para aprimorar o conhecimento”, afirma.

O canal apresenta escritores de poesia performando em vídeos aquilo que não pode ser interpretado apenas com a leitura. É com a interpretação que repassam suas vivências de preconceito e violência, formando uma espécie de válvula de escape para suas reais emoções, expondo de forma criativa o que poderia se tornar uma verdadeira dificuldade psicológica.

É esse tipo de reconhecimento que pessoas como o estudante de Pedagogia, Lucas Paiva, 26 anos, querem para os jovens nas escolas do país. “Ajudaria a entender a raiz dessa problemática por que o aluno passa e assim entender e conhecer também as atitudes que ele pode tomar”, diz. Reconhece também como uma forma de entender que, no cenário atual e tecnológico, os alunos podem sentir que estão sozinhos, o que pode ser revertido com projetos em grupo dentro das escolas.

A psicóloga Juliana Barros, entretanto, entende a internet e as redes sociais como uma nova etapa para o jovem. “Vivemos novos tempos, novas configurações. O jovem tem mais propriedade em relação ao que quer consumir”, constata. Ela indica também que o aluno tem, sim, interesse pela leitura, no entanto, isso se torna algo diferente para ele por ser considerado como uma ideia de leitura por obrigação. “Um exemplo disso é que muitos se recusam a ler os clássicos da literatura pedidos pelas escolas, mas devoram as chamadas sagas. Isso não pode ser  desconsiderado”, afirma.

Juliana entende também o adolescente como um ser mais aberto a temas que são considerados tabus. “Falar sobre sentimentos, por exemplo, ainda é algo muito difícil, e muitas vezes não é aceitável socialmente, pois muitos são considerados ruins, como a raiva e o medo”, afirma. Por isso, investir em projetos sociais que trabalhem com assuntos mais diversificados pode ser a resposta para uma reforma social mais contundente. “Ter consciência e permissão, principalmente interna, para vivenciar e falar sobre o que se sente é muito importante, e escrever pode ajudar a processar os sentimentos”, conclui.

A partir deste pensamento, Andreia Morais, juntamente com sua equipe de psicólogos do projeto PRONAIPE, da prefeitura do Rio, criou um livro com os poemas dos estudantes das escolas municipais, daqueles que já escreviam e tinham vergonha de mostrar, e daqueles que não achavam possível poder escrever algo importante. “Quando você apresenta algo pela arte, esse assunto te toma sem pedir licença”. E é o que ela espera que os alunos que passam pelo projeto vivenciem.

São pessoas como Andreia e Eliane que tornam o mundo para pessoas como Iara e Lucas levemente mais fácil. Ao estimular a criação de textos, o ser humano entra em contato com a leitura e com uma nova concepção de mundo, o que é necessário para enfrentar os diversos desafios diários, além de ajudar a pensar de forma clara e eficiente.

Arielle Curti – 7º Período

 

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