Motivos para dizer “sim” ao vegetarianismo

Por Karolyne Caparelli

Nem sempre é fácil lidar com mudanças, ainda mais quando o assunto é alimentação. Afinal, essa fase é iniciada aos seis meses de idade e é construída ao longo da vida, além de ser considerada parte da identidade cultural. Às vezes, a decisão de modificar radicalmente os hábitos alimentares pode ocorrer por diversos motivos: o amor pelos animais que são explorados para o consumo, a redução dos impactos ambientais causados pela pecuária, a busca por uma vida saudável e com mais qualidade ou até mesmo, para o tratamento de doenças. Independentemente da razão, o vegetarianismo é uma tendência cada vez mais comum entre as pessoas.

Não é à toa. De acordo com uma pesquisa do Ibope realizada em 2018 em parceria com a Sociedade Vegetariana Brasileira (SVB), 14% da população do Brasil se declara vegetariana – quase 30 milhões de pessoas. Nas regiões metropolitanas de São Paulo, Curitiba, Recife e Rio de Janeiro, esse número cresce para 16%, representando um aumento de 75% em relação a 2012, quando o levantamento foi feito pela primeira vez. Diante disso, surge a dúvida: o que o vegetariano come? Depende. O indivíduo que decide aderir ao vegetarianismo não se alimenta com nenhuma proteína animal nem derivados, porém se ele não comer carne e consumir leite e ovos é classificado como ovolactovegetariano. Quando ingere somente leite é lactovegetariano e caso coma apenas ovos, ovovegetariano.

Pedro Bernardi Salvador é vegetariano há seis anos Foto: Acervo Pessoal

Pedro Bernardi Salvador, vegetariano há seis anos, faz parte da estatística da pesquisa. O estudante de Educação Física, de 23 anos, diz que a alimentação sem proteína animal auxilia na prática de exercício. “Faço esporte todos os dias e me sinto mais leve”. Ele ainda acrescenta sobre sua relação com a carne. “Algumas mudanças aconteceram depois que parei de comer. Consumir a morte de um bicho pesa espiritualmente para quem acredita como eu”. O principal motivo para decidir ser vegetariano foi a compaixão pelos animais, que sofrem durante o processo de abate. Ele afirma que deseja continuar seguindo esse estilo de vida futuramente. “Alguns acham que é moda, mas para mim não foi. Acredito que adotei mesmo a cultura do vegetarianismo. Enquanto puder ser saudável, sem matar o bicho, continuarei sendo vegetariano”.

Quem também decidiu se tornar vegetariana, pelo mesmo motivo, foi a estudante de Publicidade e Propaganda, Mylena Gonçalves. Aos 20 anos e vegetariana há quase dois, ela conta que o amor pelos animais foi a principal razão para mudar sua alimentação. Antes de escolher o vegetarianismo, ela consumia todos os tipos de fonte de proteína. “Não gostava de carne como a maioria das pessoas. Tinha nojo de carne vermelha, porém comia frango e o peixe era apenas na comida japonesa”, destaca. Quanto aos benefícios desse estilo de vida, ela diz ser uma pessoa muito mais saudável do que antigamente. “Jamais vou me arrepender de ter me tornado vegetariana. Saber que não estou consumindo um bicho que tanto sofreu faz com que eu me sinta mais leve”, acrescenta.

Mylena, apaixonada pelos animais e sua gata Amy Foto: Acervo Pessoal

A sensação de leveza é explicada pela nutricionista Bruna Ferreira Ribeiro, que afirma que isso pode estar associado ao maior tempo de digestão da carne e à consciência mais tranquila. No entanto, ela justifica a importância das fontes de proteína animal, pois são ricas em vitamina B12, essencial para o bom funcionamento do organismo. Por isso, alerta: “Normalmente, vegetarianos precisam de suplementação da B12, já que não consomem carne, leite, queijos e ovos”. Sobre as vantagens da dieta vegetariana, a especialista cita que pode melhorar a atividade intestinal, porque legumes e verduras são ricos em fibras. Apesar disso, ela aponta: “De nada adiantarão os benefícios do vegetarianismo, se a pessoa tornar hábito consumir açúcar e outros alimentos maléficos à saúde”. Segundo Bruna, um estudo recente revelou que vegetarianos têm menos chances de ter doenças cardiovasculares e apresentam níveis de colesterol mais baixos.

A nutricionista Bruna Ferreira Ribeiro Foto: Acervo Pessoal

Pensando justamente na saúde devido à mudança alimentar, Frederico Madeira de Ley Servos, 25 anos, planeja suas refeições de acordo com os nutrientes diários que o corpo necessita. Vegetariano há dois anos, ele explica que o processo de transição começou com o movimento Segunda Sem Carne, que tem a proposta de substituir a proteína animal pela vegetal em um dia específico da semana. Trabalhando em uma Organização Não Governamental (ONG), Frederico conta que o motivo para aderir ao vegetarianismo foi o meio ambiente. “Teve a ver com as mudanças climáticas que estamos vivendo hoje. A pecuária é responsável por uma emissão gigantesca de gases poluentes do efeito estufa”. Ele relaciona a dieta vegetariana com a causa que defende: “Como ativista ambiental, sou contra isso. É uma hipocrisia continuar lutando e comendo carne”. Após adotar o novo estilo de vida, sua percepção em relação aos animais mudou para melhor.  

Além de Frederico, Rafaella de Souza Torres declara que sua proximidade com os animais aumentou depois que virou vegetariana, mas eles não foram a razão principal de sua mudança alimentar. “Foi o meio ambiente, porque comecei a entender que a criação de gado gastava muita água e desmatava as florestas”, afirma a estudante de Economia. Com 21 anos e vegetariana há quase três, ela comenta que tem somente um primo que também é adepto ao vegetarianismo e explica sobre o crescimento desse estilo de vida. “Está crescendo pela informação a que temos acesso hoje em dia. A tecnologia ajuda e deixa a pessoa mais segura para decidir”. Embora sinta um pouco de dificuldade de comer quando sai com os amigos à noite, dependendo do lugar, Rafaella argumenta que no dia a dia é diferente. Quando pensa no futuro, ela acredita que continuará sendo vegetariana e se arrepende apenas de não ter mudado antes.

Rafaella Torres: “Não me arrependo em nenhum momento de ter virado vegetariana” Foto: Acervo Pessoal

Seguir o estilo de vida sem proteína animal é uma ótima opção, segundo a nutricionista Cleonice Cristina Pereira. Vegetariana há 24 anos, ela diz que todos podem escolher o vegetarianismo, entretanto, alerta: “A pessoa precisa fazer acompanhamento nutricional”. Cleonice esclarece que, devido ao consumo de alimentos com mais proteínas biodisponíveis, facilmente absorvidas pelo organismo, o vegetariano tem uma série de benefícios. “Cabelo, pele, saúde e raciocínio lógico são diferentes, porque ele não come alimentos altamente inflamatórios e estimulantes como carne, leite e derivados, que podem proporcionar doenças e alergias”.

Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou que a carne processada é um alimento carcinogênico tipo 1 e que as não processadas são do tipo 2, o que significa que quem come proteína animal está mais propenso a ter câncer. Por isso, Cleonice fala sobre o tratamento de seus pacientes oncológicos e a relação com à alimentação. “Todos são vegetarianos. Se eles não quiserem ser, não trato”. Portanto, o número de adeptos ao vegetarianismo tem crescido não somente pelo amor aos animais, pela proteção do meio ambiente ou em busca de qualidade de vida, mas também para tratar patologias.

Opções de proteína vegetal para substituir a animal Fontes: Nutricionistas Bruna Ribeiro e Cleonice Pereira


Reportagem produzida para a disciplina de 5º período Projeto Interdisciplinar em Jornalismo Impresso

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