“Se a Rua Beale Falasse” é mais um brilho de Barry Jenkins

Na vida, atravessamos por diferentes emoções a todo momento e quanto mais o tempo passa, mais estamos acostumados a não as notar como algo artificial. Rir e chorar. Odiar e amar. Tais sentimentos não vêm e vão na base da escolha, eles simplesmente existem, são resultados de situações as quais vivenciamos diariamente. No cinema, mais difícil do que provocar sensações, é transitar entre elas com naturalidade ao longo da trama. Se a Rua Beale Falasse consegue isso.

Escrito e dirigido por Barry Jenkins (Moonlight: Sob a Luz do Luar), a história é uma adaptação do livro de 1974 do romancista James Baldwin e acompanha a vida do casal Tish (KiKi Layne) e Fonny (Stephan James), que se veem diante de provações em uma época onde os negros viviam às margens da sociedade – não que hoje a realidade seja completamente diferente disso. Não bastasse deixar clara, logo na abertura, a importância do local onde o filme se passa para a população negra americana, o roteiro nos põe diante do que pode ser encarado como apenas um recorte das lutas diárias de um povo.

Jenkins provou em Moonlight que não só é capaz de contar histórias fortes, como faz isso sem precisar ser expositivo. “Eu espero que ninguém nunca precise olhar para alguém que ama através de um vidro”, diz Tish em uma das primeiras falas do filme. Narradora e protagonista, ela está grávida de Fonny, que está preso sendo acusado injustamente de ter estuprado uma mulher a alguns quilômetros de distância de onde morava.

A estreante KiKi Layne está muito bem no papel Foto: Divulgação

O maior mérito de Jenkins aqui é transitar por duas temáticas diferentes e conseguir fazer isso de forma autêntica. Amor e injustiça estão presentes na narrativa, cada um à sua maneira, sem que se perca a mão de um lado ou do outro. Aliás, o fato de sabermos de início as trágicas consequências dessa história, não atrapalha em nada o ritmo do filme, pois a forma não linear como é contado favorece nossa atenção, à medida que vamos descobrindo, por meio de flashbacks, os acontecimentos que os fizeram chegar até ali.

Jenkins entende o poder das histórias que conta e isso faz com que tenha total domínio sobre o que quer transmitir. O fato de repetir recursos que já tinha usado em Moonlight, como os constantes close-ups no rosto dos personagens, os centralizando no quadro, parece emular a sensação de estarmos contemplando uma obra de arte presa na parede, além de evocar um ar de poesia, que nos faz admirar o que está sendo mostrado em tela. Esse mesmo ar é trazido pela belíssima trilha original de Nicholas Britell – que também compôs em Moonlight.

Tish e Fonny dançam em cena no bar Foto: Divulgação

Uma determinada composição inclusive, acompanha praticamente todas as vezes em que vemos Tish e Fonny juntos, não só isso, ela traz um tom que nos faz imaginar estar vendo um conto de fadas, algo genuinamente lírico. Essa harmonia trazida por diversos elementos do filme, é acompanhada de perto pela química apresentada pelo casal principal. Ao notar as trocas de olhares e sorrisos entre eles, presenciamos algo tão real e belo, que os atores parecem desaparecer e dar lugar a um casal que de fato existe fora da projeção.

Outra personagem que se destaca é Sharon (Regina King), a mãe de Tish. Jenkis cria momentos singelos que falam por si, e, sem um diálogo sequer, a coloca em uma das melhores cenas do filme, ao demonstrar seu conflito interno com a própria identidade fazendo o simples uso de uma peruca.

Embora esta seja uma obra preocupada em trabalhar os dilemas morais dos seus personagens, alguns parecem ter sido mal resolvidos ou simplesmente colocados sem necessidade. Outros membros das famílias do casal, por exemplo, apesar de surgirem com relevância no primeiro ato, perdem importância no restante da trama, a não ser em uma cena envolvendo o pai de cada um, que pouco acrescenta. No fim, as brigas envolvendo as duas famílias, repletas de frases de efeito, não parecem ser algo indispensável.

Regina King merece a indicação ao Oscar Foto: Divulgação

Se em Moonlight, Jenkins constrói sua narrativa a partir de três momentos distintos da vida dos personagens, aqui ele faz com que, através de flashbacks – mesmo esses não seguindo uma ordem cronológica –  nos encantemos aos poucos com como Tish e Fonny se conheceram e se apaixonaram. Notamos, portanto, que o mais importante deixa de ser as consequências, para, então, ser a veracidade do sentimentos entre os dois.

Ainda que pareça ficar em segundo plano, a injustiça em torno da prisão de Fonny ganha mais força à medida que o roteiro avança, indo numa progressão até o fim – o filme vai nos consumindo aos poucos, ao longo de duas horas. É na prisão, aliás, que acontecem boa parte das cenas envolvendo os dois. Repare como, mesmo que tenha a presença do vidro que os mantém separados, raramente enxergamos esse objeto, dando a sensação de que Tish e Fonny, por mais que não estejam juntos fisicamente, não enxergam barreiras entre eles. Sem contar momentos específicos em que a expressão dos personagens vai de preocupação à sorrisos em poucos segundos. 

Iluminação e uso de cores vibrantes dão brilho à pele negra dos personagens Foto: Divulgação

O filme, porém, jamais esquece de retratar os temas sociais, por mais que em instantes pareçam ficar de pano de fundo. As críticas ao sistema e à sociedade estão lá, às vezes em pequenos detalhes, como quando é demonstrado que os negros tinham dificuldade de alugar um apartamento pelo simples fato de serem negros. Ou quando, em uma sequência envolvendo o personagem de Bryan Tyree Henry, a direção é precisa ao mostrar o pavor do personagem, relatando a experiência de um negro na prisão – repare em como o diretor fecha o quadro enquanto ele fala, dando ideia de enclausuramento, além da mudança de tom na trilha. Daniel sequer precisa descrever o que passou para que entendamos sua angústia.

Se a Rua Beale Falasse é poesia na tela grande. Histórias de injustiça não podem se apoiar unicamente nas consequências, é preciso entender os personagens e desenvolve-los ao ponto de fazer com que o espectador crie laços com aquelas pessoas – e Jenkins faz isso com maestria. Definitivamente, o mundo precisa de mais trocas de olhares como as de Tish e Fonny.


Márcio Rodrigues – 7º período

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