Trama de “As Viúvas” vai além dos clichês dos filmes de assalto

Os chamados “filmes de assalto” sempre foram um subgênero que volta e meia fizeram sua participação marcante em Hollywood. Desde clássicos, como Bonnie e Clyde, de 1967, até o mais recente Oito Mulheres e Um Segredo, o estilo se notabilizou por trabalhar planos mirabolantes e, na maioria das vezes, a introdução de múltiplos personagens – ainda que isso não signifique que todos sejam explorados da mesma forma. Mas esse não é o caso de “As Viúvas”, novo filme de Steve McQueen (12 Anos de Escravidão), adaptação de uma série britânica dos anos 80.

A trama envolve três mulheres que se tornam viúvas após a morte dos seus respectivos maridos durante a fuga de um assalto. A motivação principal, porém, surge quando Veronica (Viola Davis) recebe a visita do então candidato a vereador, Jammal Manning (Bryan Tyree Henry), a intimando a devolver o dinheiro que seu falecido marido havia lhe roubado. Há também Jack Mulligan (Colin Farrell), concorrente ao cargo, que se vê na posição de tentar manter o legado da família, que se mantém há 30 anos.

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Daniel Kaluuya (Pantera Negra) e Bryan Tyree Henry (Atlanta) em cena de “As Viúvas” Foto: Divulgação

Escrito por Gillian Flynn (Garota Exemplar) em parceria com o próprio McQueen, o longa faz um bom trabalho ao estabelecer suas personagens principais. Ainda que todas não tenham o mesmo peso dentro da trama, suas motivações são convincentes e acontecem de forma gradual. Linda (Michelle Rodriguez) se vê pressionada por conta das altas dívidas deixadas pelo marido em sua loja, enquanto Alice (Elizabeth Debicki) é coagida pela própria mãe a se prostituir para ganhar dinheiro. O elenco de fato é estrelado, no entanto, é no fio conduzido pela personagem de Davis que o filme cresce.

É interessante notar como, já na primeira cena, McQueen faz questão de deixar claro mais de um detalhe importante para o público. Por meio do uso da montagem paralela – quando vemos eventos intercalados acontecendo em tempos diferentes – ele nos mostra a fuga do marido de Veronica, Henry (Liam Neeson), ao mesmo tempo em que observamos a intimidade dos dois, enquanto se beijam na cama. Portanto, o que poderia apenas estabelecer o afeto e até um certo desejo carnal entre eles, se torna algo mais quando temos a vida do casal sendo simbolicamente atravessada pelo que significará o fim daquele casamento, por mais trágico que seja.

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Michelle Rodriguez (Velozes e Furiosos) e Elizabeth Debicki (O Grande Gatsby) em destaque Foto: Divulgação

Aliás, ao acompanharmos o ponto de vista de Veronica percebemos que ela se encontra em um estado de dualidade, dividida entre o luto pela perda do marido e a determinação que precisa ter para recuperar o dinheiro. Dualidade essa, que pode ser vista no trabalho de direção de arte e figurino, que insistem em usar preto e branco nas cenas em que Davis aparece. Chega a ser gritante o contraste visto no interior de sua casa e, principalmente, nas roupas que veste – observe como a única vez que a vemos usando uma cor diferente é num momento chave do filme. Já é de praxe ver como Davis tem presença de cena e passa credibilidade constante – o plano longo dela em frente ao espelho arrepia –, mas outro que se destaca aqui é Jatemme Manning (Daniel Kaluuya).

Intimidador, Kaluuya faz o primo de Jammal, que funciona como uma espécie de “cobrador de dívidas”. Impressiona como esse rapaz consegue ser o contrário do que foi em “Corra!”. Não em termos de atuação, porque ele é competente nos dois, mas em como demonstra ser tão eficiente ao trabalhar personalidades totalmente diferentes. Enquanto lá suas expressões representavam alguém indefeso e confuso, aqui sua presença amedronta, chegando a fazer com que fiquemos preocupados com a vida daqueles que se tornam seus alvos. Aliás, se existe um certo grau de violência nos seus atos, McQueen sabe o momento certo de segurar a mão e não tender para o exagero. Depois de duas cenas em que vemos Jatemme se estabelecer como alguém frio e impiedoso, numa terceira oportunidade, um simples movimento de câmera confirma não precisarmos mais ser expostos a isso. O som se torna o bastante.

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Kaluuya é um dos destaques de “As Viúvas” Foto: Divulgação

Por mais que se enquadre em um gênero que costuma trabalhar com elementos repetitivos, “As Viúvas” vai além ao inserir discussões sociais em seu roteiro. O fato de uma família branca e rica estar no poder há mais de 30 anos não torna artificial que o pai de Jack seja alguém preconceituoso e preso a pensamentos retrógrados. Em um momento específico, uma cena que parece estranha no início, se transforma em genialidade no trabalho de McQueen. Ao deixar a câmera parada do lado de fora de um carro, o personagem de Farrell transita entre a parte pobre e rica do bairro, e, em um plano longuíssimo, podemos ver o contraste gigantesco presente no modo de vida daquelas pessoas. Por mais que haja um diálogo na cena, ele não é o foco ali, portanto sequer vemos os personagens que estão falando.

Ainda que no geral seja sério, “As Viúvas” trabalha bem as sutilezas como quando insere momentos de alívio cômico, que, apesar de pontuais, funcionam. Outros momentos sutis acontecem quando a personagem de Debicki demonstra óbvios traumas de abuso – a maquiagem que faz para encobrir hematomas e a cena do bar quando inclina a cabeça para evitar contato são claros sinais disso. O mesmo não se pode dizer da trilha sonora, já que Hans Zimmer tem a péssima mania de querer ser maior que o próprio filme – gosto de muitos trabalhos dele, mas confesso que esse hábito incomoda.

Por mais que “As Viúvas” se enquadre na categoria de filme de assalto, ele consegue ser mais do que isso e explorar outras camadas. A grande quantidade de personagens não infla a trama, como acontece em muitos longas desse gênero, e, embora cometa pequenos deslizes ao não conseguir explorar o trio principal da mesma forma, a presença constante ao lado de Viola Davis soa mais como um presente do que propriamente algo a ser criticado. Ao inserir temas como racismo e empoderamento feminino, McQueen soube trabalhar um filme com ares comerciais, sem que esse seja apenas uma casca vazia.


Márcio Rodrigues – 7° período

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