“A Onda” e a eterna vulnerabilidade humana

Símbolo de autoridade e união. É o que representa a origem do termo “fascismo”. Fascio, do italiano, era uma espécie de machado revestido por varas de madeira que davam sustentação, daí a ideia de união. Na Roma antiga, o objeto era usado por guardas de quem detinha o poder, para punição corporal. Sabendo da fragilidade que o país vivia no período após a Primeira Guerra, Mussolini se aproveitou da representação do fascio ao adotá-lo como símbolo de seu novo partido político.

A ideia de um governo totalitário e antidemocrático, que privilegiava os valores da nação acima dos conceitos individuais, além da desvalorização da liberdade, ficou conhecido não apenas na Itália. Perto dali, a Alemanha nazista já abraçava os mesmos princípios. Os capítulos seguintes nós já conhecemos. Recorte da história os caminhos que levaram a humanidade a chegar nesse ponto e temos a trama do filme A Onda.

A Onda

Doutrina, disciplina e união: típicos pilares de um regime fascista Foto: Divulgação

Dirigido pelo alemão Dennis Gansel, o longa é baseado em um experimento real feito pelo professor americano Ron Jones, em 1967, na Califórnia. O teste consistia em colocar à prova, em uma sala de aula, a ideia de que um regime ditatorial, embora temido à primeira vista, não é algo tão difícil assim de acontecer. Mesmo com o trauma – que até então era recente – vivido por parte do povo europeu, basta que um grupo esteja disposto a comprar as ideias de uma figura central, que se torne um líder.

É o que vemos com toques de realismo no filme, que esse ano completa dez anos de seu lançamentoA exemplo da história que lhe deu origem, o diretor – que contava com apenas dois longas no currículo na época – expressa com doses de competência, os riscos que um cenário como esse pode oferecer. O primeiro fator que colabora com isso é o fato de o filme se passar não nos Estados Unidos, mas na própria Alemanha.

A Onda 3

Não se adequar às imposições de um regime ditatorial te torna um opositor Foto: Divulgação

Aliás, já na primeira cena na sala de aula, fica claro o quanto os traumas são presentes. O professor, interpretado por Jürgen Vogel (Adeus, Lenin!), ao perguntar se seria possível uma nova ditadura na Alemanha, tem na resposta “De jeito nenhum, estamos além disso”, a motivação necessária para levar o experimento à frente. A narrativa é dinâmica e nos conduz ao longo de cinco dias. Exemplo desse dinamismo está na montagem, que, em alguns momentos, conecta diferentes cenas por meio dos diálogos.

Apesar do ritmo bom, é evidente que nem tudo foi bem dosado. Os alunos parecem mudar de opinião de forma brusca, com o único objetivo de atender aos atos seguintes. É notável quando os personagens parecem hesitar em alguns momentos, mas um dia depois, já estão comprando as ideias do professor. No entanto, se a tentativa de os explorar individualmente parece não funcionar, é quando estão em grupo que o filme entrega seus melhores momentos.

A Onda 2

Alguns enquadramentos nos colocam na posição dos alunos e nos torna parte do experimento  Foto: Divulgação

As cenas na sala de aula são essenciais e dão o tom que o contexto da história exige. À medida que os dias vão passando, somos cada vez mais levados a crer que um cenário como esse não é impossível. A Onda é o tipo de filme que não precisa de apuro estético para passar sua mensagem. Ainda que na maior parte do tempo faça o básico, quando sobem os créditos, percebemos que o impacto final está acima de qualquer apelo visual.

Somos seres sociais e o tempo inteiro fazemos parte de algum grupo, seja na família, no meio de amigos ou no trabalho. A Onda é a demonstração de como estamos propensos a perder nossas personalidades individuais, quando passamos a fazer parte desses grupos. Mais do que isso, é a prova de como o ser humano jamais deixará de ser perigosamente manipulável.


Márcio Rodrigues – 7º período

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s