Cinema nacional sofre com falta de identidade e má distribuição

Um ambiente considerado de baixo nível, sujo e voltado para a classe trabalhadora. Quando surgiu, era assim que o cinema era visto pelo público em geral. Nos Estados Unidos, os imigrantes eram grande parte do público. Nas casas de espetáculo francesas, chamadas de Vaudevilles, visitantes bebiam e fumavam enquanto os filmes – que ainda se resumiam a cenas do cotidiano – eram exibidos apenas nos intervalos das apresentações teatrais, circos e shows de mágica. Embora tenha passado por um longo processo de evolução ao longo de mais de cem anos de existência, a sétima arte enfrenta desafios até hoje. No Brasil, não é diferente.

O cinema nacional talvez esteja atravessando seu melhor momento, é verdade. Leis de Incentivo, como a do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), têm contribuído para se produzir cada vez mais, mas isso não significa que árduos caminhos deixaram de existir. Exemplo disso são os números: eles mostram que o brasileiro ainda assiste a poucos filmes nacionais. De acordo com dados do Observatório do Cinema e do Audiovisual (OCA), por mais que tenha havido um recorde na quantidade de títulos nacionais exibidos em 2017, o público sofreu uma queda de 42,8% em relação a 2016. Resultado disso é a participação de apenas 9,6% de pessoas que foram assistir a filmes brasileiros contra 90,4% para longas estrangeiros. No entanto, é preciso ir além dos dados para se ter uma melhor compreensão do panorama atual.

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Longas filas: algo raro quando se trata de filme nacional Foto: Arquivo Pessoal

Para isso, uma questão que merece ser analisada é a linguagem. O brasileiro ainda assiste a muita TV. É cultural. De acordo com dados do IBOPE de 2013, cada telespectador permaneceu em média cinco horas e 45 minutos por dia assistindo à televisão, no ano em questão. A partir desse costume nacional, é possível enxergar o quanto o formato televisivo está presente no inconsciente coletivo. No caso do cinema, não é difícil notar que os filmes brasileiros de maior bilheteria seguem alguns padrões, sejam as comédias caricatas com atores globais, ou, mais recentemente, com a presença de personalidades da internet ou de temáticas religiosas. São essas as tendências seguidas por aqui.

Há quem diga que os desafios vão além. Para o professor e crítico de cinema Pedro Ferreira, levar o público brasileiro a assistir filmes nacionais está longe de ser apenas uma questão de linguagem. Ele explica que há um domínio histórico de filmes estrangeiros no mercado exibidor e, como consequência, o espectador foi educado a se acostumar com publicidade e padrões da cultura cinematográfica norte-americana. “Em muitos sentidos, poderíamos dizer que o público termina colonizado”, enfatiza. Uma das maiores razões para essa “invasão hollywoodiana” são os chamados blockbusters.

Com produções milionárias e uma indústria consolidada, o cinema americano se tornou absoluto no mundo inteiro, ao menos no aspecto comercial. O Brasil investe igualmente nessa tendência – com muito menos dinheiro, é claro. Com a diferença de que aqui, um gênero é absoluto: as comédias. Há pouco espaço para o novo, o diferente. A estudante de Cinema Josiane Mendes, de 21 anos, acha que o problema não está no que é produzido, mas sim em uma certa rejeição das empresas exibidoras: “Sou 100% a favor dos blockbusters. Não acho que o problema seja esse, mas sim a massiva divulgação dos filmes americanos”. Com base nesse panorama, existe um árduo caminho que precisa ser trilhado entre produção, distribuição e exibição de um filme.

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A quantidade de produções nacionais vêm aumentando, mas o público ainda é baixo Foto: Arquivo / ESPM

É por conta desse percurso que alguns números chamam a atenção: no ano de 2017, a produção bateu recorde. Foram 158 filmes brasileiros lançados em território nacional. Nunca se produziu tanto. Desses, no entanto, apenas 23 alcançaram público superior a 100 mil pessoas. Em comparação, entre os estrangeiros, 102 longas atingiram essa marca. A professora de distribuição e marketing do produto audiovisual Marina Band explica que é das distribuidoras o papel de marketing, divulgação, número de cópias e até mesmo quantidade de salas em que o filme irá estrear. “Infelizmente qualidade, originalidade e bilheteria não são uma lógica que se combinam”, lamenta.

Se falta investimento, falta também conhecimento. Na Argentina, cinema nacional é uma disciplina escolar, o que faz com que as gerações mais novas aprendam a apreciar as obras do país. Por aqui, é fácil achar quem pense que filmes brasileiros se resumem às comédias. Cristiane Dantas, de 44 anos, é professora do Ensino Médio e costuma assistir a em média um filme brasileiro por mês – mas são sempre comédias. Para ela, os desafios são claros: “Acho que os filmes nacionais não apresentam muita diversidade entre os gêneros. Acredito que ainda temos muito a melhorar quanto a isso”. O estudante de cinema Rodrigo Tancredi, de 22 anos, acredita que existe um receio por parte das produtoras como consequência da falta de interesse do público. “Não se quer fazer filme de gêneros diferentes no Brasil por conta do preconceito das produtoras. Para mim, não faz sentido as pessoas assistirem a um filme de ação de outro país e não assistirem a um brasileiro”.

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Rodrigo Tancredi (22) é estudante de Cinema e já fez curso de Direção de Arte na Academia Internacional de Cinema (AIC) Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

O maior desafio nesse caso seria reeducar o espectador médio. Não é fácil. O professor e crítico Pedro acha que não se deve responsabilizar as produtoras nem o público por não conhecer diferentes experiências. Para ele, o meio é encontrar formas que fortaleçam essa mediação. “Instâncias como a crítica cinematográfica ocupam papel fundamental neste âmbito de fornecer ao público outros tipos de experiência”. Ele cita ainda a democratização e o acesso facilitado às obras – com a internet – que fazem com que o papel do crítico perca força. “Esse papel vem sendo desacreditado. Quem vai precisar de um crítico ou um curador para lhe apontar caminhos? O importante seria fortalecer essas instâncias, para que o público fique menos refém da lógica de mercado e da publicidade”. Os obstáculos ficam ainda mais claros quando analisados em nível regional.

Ainda existe muita desigualdade quando se compara número de salas de cinema no Brasil. A região Sudeste, por exemplo, concentra 54,7% das salas de exibição – é claro que é preciso atender a uma demanda populacional maior, como é o caso de São Paulo, que atingiu mais de mil salas em 2017. No Maranhão, que tem um dos piores índices, quase 80% da população vive em cidades sem salas de cinema. Clíssia Carvalho, de 25 anos, que mora em Porto Velho, diz que gostar de cinema por lá é um verdadeiro desafio – o estado de Rondônia tinha só 15 salas até 2016. “É bem difícil ter tão poucas salas. Às vezes você quer assistir a um filme e ele não fica sequer duas semanas em cartaz, porque tem que dar lugar para outros. Muitos nem chegam aqui”, lamenta. Na contramão, a tendência é se tornar cada vez mais comum trocar a sala de cinema pelo sofá de casa.

Não bastasse a internet ter facilitado o acesso a filmes e séries, novos formatos se lançaram no mercado e têm se mostrado fórmulas de sucesso: as plataformas de streaming. Assistir de casa, no horário que for conveniente, tem sido algo cada vez mais valorizado. Netflix e Amazon são apenas dois casos que vêm dando muito certo. A primeira inclusive já é queridinha dos brasileiros. Alguns, aliás, estão aceitando trocar a tela grande pelo conforto de casa. Como é o caso da estudante Valentina Mendes, de 19 anos: “Acho um benefício ter a escolha de onde assistir. Não me importo de assistir em casa”. Além disso, é interessante observar que essa pode ser uma chance de se ter ainda mais produtos nacionais sendo feitos.

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Serviços de streaming podem ser uma forma de expandir ainda mais as obras nacionais Foto: Pixabay

A própria Netflix apostou recentemente em conteúdos nacionais, como as séries “3%” e “O Mecanismo”, além do filme “O Matador”, em 2017. Marina Band cita a importância que é ter conteúdo brasileiro sendo feito, independentemente de ser no cinema ou não. Segundo ela, qualquer produção nacional é bem-vinda: “É o audiovisual brasileiro quebrando fronteiras, sendo assistido no mundo todo. Obras brasileiras sempre tiveram mais dificuldade de circular mundialmente por conta dos temas ou de idioma, diferentemente das argentinas, por exemplo. Sem contar que acaba sendo um chamariz, uma porta de entrada para muita gente”. A estudante Josiane destaca a chance de inovar: “Acho que dá abertura para diversificação. A gente precisa sair desse molde que já existe”, reflete.

Essa é apenas uma das ideias a serem postas em prática. Não é fácil reeducar uma população tão grande num estalar de dedos. É impossível, hoje, competir com o cinema norte-americano. Investir, de um modo geral, requer dinheiro e o país definitivamente não vive seu melhor momento econômico. Ainda que alternativas que possam ser benéficas tenham surgido, como a internet e as plataformas de streaming, os passos ainda serão lentos e os caminhos incertos. Talvez sirva olhar para o passado e ver que o cenário atual não é dos piores. Resta esperar para saber se, quando os créditos subirem, as luzes voltarão a acender em meio à sala escura. 

O Cinema Novo e a Era Collor

Ainda que enfrente desafios até hoje, o cinema brasileiro já viveu diversos períodos de transição e fortes turbulências. Alguns são lembrados até hoje e se tornaram influência para diversos cineastas. É o caso do movimento chamado “Cinema Novo”, que ocorreu nas décadas de 60 e 70. Sob influência de outros movimentos, como o neorrealismo italiano e a Nouvelle Vague francesa, os idealizadores se opuseram ao cinema tradicional feito até então – que se resumia a musicais e comédias hollywoodianas – e apostaram em filmes de baixo orçamento, mais realistas. A ideia era ser uma resposta à instabilidade racial e classicista pela qual o país passava. O auge viria na década seguinte, com a criação da Empresa Brasileira de Filmes (Embrafilme) e o Conselho Nacional de Cinema (Concine).

Apesar de sofrer críticas por concentrar os recursos apenas para produções feitas no Rio de Janeiro, a Embrafilme foi responsável por um dos melhores momentos na história do cinema do país. Ao utilizar parte dos lucros obtidos com o faturamento de filmes estrangeiros para a produção de longas nacionais, fez com que a produção brasileira atingisse um patamar nunca antes visto. Exemplo disso foi que cerca de 20 filmes nacionais atingiam 500 mil espectadores por ano. Em 1975, 36 bateram essa marca. Dois anos depois, o Brasil chegou a ter mais de 3 mil salas de cinema – número esse que só foi igualado novamente em 2015.

Na década de 80, porém, os caminhos foram penosos. O país passava por uma forte crise econômica, que fez com que, de 3 mil salas, o número caísse assustadoramente para 1.033, em 1995. E piorou. No início da década de 90, durante a vigência do mandato do presidente Fernando Collor de Mello, houve a extinção do Concine e da Embrafilme, o que levou à estagnação das produções nacionais. Em 1992, só um filme brasileiro foi exibido nos cinemas: “A Grande Arte”, de Walter Salles, falado em inglês. Passado esse período, embora não tenha conseguido chegar perto do auge da década de 70, foram vistos sinais de melhora.

A retomada e Leis de Incentivo

Após a renúncia de Collor, o presidente Itamar Franco instaurou a Lei do Audiovisual, em 1993. Por meio de incentivo fiscal, a lei existe até hoje e permite que empresas e pessoas físicas tenham abatimento ou mesmo isenção de tributos, desde que direcionem recursos a novos projetos. A lei certamente tornou a impulsionar a produção nacional. Não à toa, o filme “Carlota Joaquina”, de Carla Camurati, lançado em 1995, é tido como um marco da “retomada”. Foi o primeiro da década a atingir 1 milhão de espectadores no cinema. Além disso, o público que ia aos cinemas assistir a filmes brasileiros subiu gradativamente, chegando a cerca de 800 mil, em 1996 e mais de 22 milhões, em 2003.

Ainda em 1998, foi criada a Globo Filmes, responsável por boa parte dos filmes que são produzidos até hoje. Em 2001, foi criada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso a Agência Nacional de Cinema (Ancine), que funciona como órgão regulador da indústria cinematográfica no país. Tida como uma das responsáveis por estimular a produção e promover a cultura nacional, foi a partir dela que surgiu, em 2006, o Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), espécie de capital de giro. O fundo coleta recursos a partir de tudo que se produz e repassa para aqueles que têm seu projeto aprovado. Há uma polêmica envolvendo o FSA por não “equilibrar bem a balança”, uma vez que acaba fornecendo ainda mais investimento para filmes que já são de grandes produtoras. Esse certamente foi um passo importante, mas que não impediu que novos desafios pudessem surgir. Evolução é necessária, mas precisa ser constante.


Márcio Rodrigues – 7º Período

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