Museu Nacional: é possível sim reconstruir

No atual momento da nação brasileira, a pergunta mais comum é: quem irá vencer nas urnas eleitorais? Porém, quatro semanas atrás, o brasileiro sofreu um grande golpe em sua história com o incêndio que destruiu o Museu Nacional, localizado no Rio de Janeiro. Nesse período, outros acontecimentos viraram notícia e aos poucos esse fato acabou caindo no esquecimento. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), órgão responsável pela gestão do museu, não tem medido esforços para evitar que isso aconteça. Portanto, outra pergunta retorna à cabeça do cidadão: como reconstruir o que foi destruído?

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Bombeiros trabalham no Museu Nacional no dia seguinte ao incêndio Foto: Andressa Gabrielle / AgênciaUVA

De acordo com os representantes do museu, parte do acervo foi preservada, pois algumas peças não estavam no prédio onde ocorreu o incêndio. Contudo, isso não significa muito, já que cerca de 90% do patrimônio foi perdido. Uma missão de emergência organizada pela Unesco chegou ao Brasil no último dia 13 e tem acompanhado de perto o processo de pesquisa e recuperação. Uma de suas propostas é que algumas das peças que foram perdidas possam ser replicadas utilizando a tecnologia da impressão 3D.

“A tragédia do museu representou uma perda irreparável, mas isso não significa o fim do museu, de seu acervo e de suas pesquisas, mesmo porque seu acervo pode ser ampliado por doações de museus brasileiros e estrangeiros. O que foi perdido é insubstituível, uma vez que a peça musealizada é única, mas as funções do museu continuam”, explica o Dr. Ivan Coelho de Sá, diretor da Escola de Museologia da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UNIRIO).

O professor diz ainda que essas funções não estão relacionadas apenas à parte de exposição. O museu era o mais antigo e um dos mais importantes centros de pesquisa do país. Sediava prestigiados programas de pós-graduação nas áreas de arqueologia, antropologia, botânica, geologia, linguística e zoologia, cujas pesquisas são referências nacionais e internacionais. A principal fonte de estudo desses programas referia-se exatamente aos acervos.

Luciene Aragon é jornalista e professora na Universidade Veiga de Almeida. Ela leciona duas disciplinas relacionadas à arte e cultura e esteve com seus alunos no museu poucos dias antes do ocorrido. Artista, ela acredita que essa reconstrução será muito importante para as próximas gerações, que terão a oportunidade de valorizar o patrimônio cultural do mundo. Assim como Ivan, ela ratifica que, para o que foi perdido, não há muito o que se fazer:

“Seria interessante recriar o museu de forma virtual, buscando financiamento de parceiros na iniciativa privada, a partir do momento que o prédio estiver restaurado e houver condições adequadas para abrigar objetos de grande valor artístico e cultural. Acredito que muitas peças também poderão ser recebidas como doações. Não vejo sentido em fazer réplicas de todos os objetos artísticos e culturais perdidos. Eles eram importantes por terem sido realizados em determinadas situações que conferiam a eles um caráter único e impossível de ser reproduzido, por serem peças históricas.”

Essa perda foi sentida pela nação de um modo geral, entretanto para o carioca, ela foi muito mais dolorosa. Aquele era um espaço democrático, onde todos tinham livre acesso ao conhecimento e à cultura. Luciene conta que seus alunos ficaram encantados com a visita e chocados com a perda. Ela acredita que talvez esse fato se torne um incentivo para que a sociedade se conscientize da importância da preservação do patrimônio cultural.

“Acho que cabe a todos que tiveram a sorte de ter acesso ao conhecimento e à diversidade cultural, a missão de incentivar a divulgação deste conhecimento criando oportunidades nos meios onde trabalham e habitam”, diz a professora.

A tragédia afetou não só os que conheciam o prédio histórico, como também aqueles que não tiveram a oportunidade de visitá-lo. A fotógrafa Danielle Cabral, de 37 anos, estava planejando uma visita com seus filhos, Guilherme, 14, e Pedro, 5. “Eu e meu esposo iríamos levar os meninos lá. Quando soubemos do ocorrido, ficamos perplexos. Não deu tempo”, conta ela.

Para o professor Ivan, o Estado tem uma parcela de culpa por muitos brasileiros não darem a devida atenção à memória, à história e à preservação do patrimônio. “É uma questão de base. O Estado tem que investir na Educação, inclusive na Educação Patrimonial, isto é, na consciência da importância da preservação de seus patrimônios. O brasileiro tem que sentir orgulho de suas culturas e de seus patrimônios para que possa entender a necessidade de preservação”, pondera ele. Tudo isso porque não há a aplicação de recursos destinados a essas áreas: “Os museus poderiam se tornar mais atraentes e poderiam investir mais em divulgação se tivessem mais recursos. Os recursos são mínimos e normalmente destinados ao que é indispensável, sobrando muito pouco ou quase nada para investir em todo um arsenal de mídia que os tornassem interativos e, consequentemente, mais atrativos ao público”.

Para aqueles que têm uma relação afetiva com o museu e com o espaço da Quinta da Boa Vista, o abalo foi sentido. Formado há trinta anos, Ivan conta que tanto o lado profissional quanto o lado cidadão sofreram com esse baque: “ Pessoalmente, como todo cidadão, esta catástrofe mexe com o meu imaginário de criança, com relação ao fascínio que exercia o museu e seu acervo. Em termos profissionais, a catástrofe materializa todo um sentimento de descaso do Estado brasileiro em relação ao seu patrimônio. Fui aluno de museologia nos anos 80, e sempre tive consciência, sofrendo na carne o descaso do Estado e dos poderes públicos.”

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Fachada do museu após o incêndio Foto: Francisco Valdemir dos Santos / AgênciaUVA

 

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Abraço solidário ao museu um dia após o incêndio Foto: Francisco Valdemir dos Santos / AgênciaUVA

Agora, o momento é de olhar para frente. Não há muito que se possa fazer além de esperar o desenrolar dos fatos e suas conclusões. A Unesco já afirmou que levará em torno de dez anos até que toda a restauração esteja concluída. Em nota da Casa Civil, o Presidente Michel Temer atribuiu à Agência Brasileira de Museus (Abram) o comando da reconstrução, retirando assim o controle do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram) sobre o processo. O Ibram foi criado em 2009, com a intenção de dar suporte aos museus, uma vez que não existem políticas ou leis voltadas para essa área (museus estão inseridos em dois ministérios diferentes: cultura e educação).

O museólogo concluí, alertando que essa mudança de gestão pode caminhar para um futuro projeto de privatização dos museus: “O Ibram foi desmobilizado recentemente por uma medida provisória oportunista e covarde cuja intenção velada é exatamente abrir caminho para a privatização dos museus nacionais. Muito longe de ser uma saída é um retrocesso e um grande risco ao patrimônio público. Museus e acervos públicos não podem ser expostos à pura especulação como se fossem mercadorias. Museus e patrimônios de caráter nacional têm que ser públicos. Se o Estado e os poderes públicos respeitassem as leis e reconhecessem o IBRAM e o Estatuto de Museus, haveria uma política nacional para a área e os museus não ficariam à mercê de sua própria sorte”.


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