A luta de mulheres que traçaram a história feminista pelo mundo

O feminismo surgiu devido à necessidade de mulheres gritarem por liberdade. Contra qualquer tipo de opressão ao sexo feminino, o movimento veio para quebrar paradigmas e extinguir todas as diferenças entre os gêneros. Por conta do sucesso do movimento, principalmente graças às manifestações de maio de 68 pelo mundo, várias mulheres de destacaram nessa luta e entre elas estão: Frida Kahlo, Angela Davis e Rose Marie Muraro.

Como uma das que mais se destacam no movimento está Magdalena Carmen Frida Kahlo y Calderón, mais conhecida como Frida Kahlo. A pintora mexicana ficou famosa por seus autorretratos com pinturas surrealistas, apesar de negar isso, já que declarava que ela não pintava sonhos, e sim a sua realidade. Ela também afirmava que as pinturas expressavam os seus sentimentos, muitos deles chocam por mostrar momentos de dor de angustia como, por exemplo, do período em que ela ficou debilitada da saúde e teve inúmeros problemas em uma das pernas. Com 18 anos, Frida sofreu um acidente de ônibus, em que foi necessário passar por cirurgias para que ela pudesse ficar viva. Ela sobreviveu, mas vivia na cama, e foi obrigada a amputar uma das pernas.

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Mesmo com todos os contratempos, Frida não deixou a arte de lado e pendurou um espelho na frente dela para que pudesse continuar os autorretratos. Mesmo de cama, nunca parou de exercer a sua arte e usava as pinturas como refúgio para expressas as emoções, daí que veio a famosa frase: “Para que preciso de pés quando tenho assas para voar”. Entre os anos 1922 e 1925 entrou para a Escola Nacional Preparatória do Distrito Federal do México para estudar desenho e modelagem. Alguns anos depois, se casou com o pintor Diego Rivera, bastante influente na época. Ele tinha quase o dobro da idade dela, mas isso não foi nenhum problema para ambos, já que ele se apaixonou pela arte e o jeito da Frida.

A pintora sempre chamou muita atenção por onde quer que fosse. Se não era por seus autorretratos, era pelas suas roupas, enfeiteis na cabeça e um riso solto que não tinha como não olhar. Ela era alegre e amava o marido, porém existiam muitas traições, inclusive com mulheres. Mesmo com todo amor, Frida se separou e, em 1939, fez sua primeira exposição individual em Nova York. O sucesso foi tanto que ela foi procurada por grandes nomes como Pablo Picasso e Wassily Kandinsky, e teve um dos seus autorretratos adquiridos pelo Museu do Louvre.

Mesmo com todas as impossibilidades, a paixão da Frida pela arte falou mais alto e ela não parou de pintar em momento algum. As pinturas eram uma mistura de arte indígena e mexicana, influenciada pela cultura de seus pais, rodeada de cores fortes e vivas, principalmente nos autorretratos. Em 1942, ela começou a dar aula de artes na Escola Nacional de Pintura e Escultura. Foi uma das primeiras mulheres a conseguir espaço com suas pinturas, se tornou uma grande defensora dos direitos das mulheres e tornou-se um símbolo na luta pela causa. Morreu em 1954 na Casa Azul, no México, onde hoje tem um museu em homenagem à pintora.

Com a visão de uma especialista, a professora formada em história e sociologia, Elisa Goldman, destaca a importância de uma mulher latina para o movimento feminista. 

– Ela teve uma história de vida muito sofrida. Passou por um acidente quando era mais nova e teve uma série de restrições físicas. Também teve poliomielite na infância e isso gerou outras limitações. A questão do sofrimento está muito presente na arte que ela produz. Ela foi uma mulher que ingressou no Partido Comunista Mexicano, então foi uma militante de esquerda lá. Ela denunciou um México oligárquico, com concentração de renda notável. Além de ter ingressado no Partido Comunista Mexicano, também presenciou uma série de movimentos sociais e teve uma inserção política explícita. Além disso, existiu uma relação estreita dela com  Leon Trotsky, que foi assassinado no México. Ela foi amiga e amante dele, então a militância dela se confunde um pouco com a própria trajetória do Trotsky no México. Ela é uma mulher para ser lembrada, não só pela sua trajetória artística, estética e intelectual, mas também pela sua história como militante política em um país marcado pela política e pelos movimentos sociais.

Outra mulher que teve que superar as dificuldades em nome da arte foi Rose Marie Muraro. Carioca, nascida em 1930, ela veio ao mundo com a visão comprometida e nasceu praticamente cega. Porém, ao invés disso se tornar uma dificuldade para ela, ela fez a deficiência como forma de força e motivação para se dedicar ao trabalho e se tornar uma das mulheres mais significativas do século XX, além de também se tornar uma das vozes mais importantes do feminismo no Brasil e no Mundo.

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Rose Marie Muraro foi uma das pioneiras do feminismo no Brasil com livros sobre sexualidade e libertação feminina, junto da batalha pelo direito das mulheres

Rose Marie foi uma escritora que buscava a defesa da luta pelos direitos das mulheres, e chegou a escrever mais de 40 livros, entre eles estão: Os seis meses em que fui homem, Sexualidade da mulher brasileira, Memórias de uma mulher impossível, Por que nada satisfaz as mulheres e os homens não as entendem, entre inúmeros outros sucessos. Um tempo depois, Rose Marie começou a dedicar o seu tempo como editora da Vozes e, logo após, na Rosa dos Tempos. Nesse meio tempo, foram 1.600 livros publicados.

A escritora foi uma das pioneiras do Movimento Feminista no Brasil, em 1971, quando deu o pontapé inicial trazendo a feminista Betty Friedan para o Brasil. Na década de 80, com parceria de Leonardo Boff, ela fez surgir uma nova era de um dos principais movimentos do século XX: o Movimento de Mulheres e a Teologia da Libertação, com o intuito do debate de gênero, liberdade de expressão e democratização. Porém, eles não foram muito bem aceitos pela Igreja Católica, então os livros foram proibidos durante o regime militar.

Ela também publicou, em 1983, um dos seus livros mais importantes: A sexualidade da Mulher Brasileira. Até os dias atuais, ele foi o único livro desta envergadura se tratando da sexualidade no idioma da língua portuguesa. Ela também foi nomeada, pelo Governo Federal, Patrona do Feminismo Brasileiro. Faleceu em 2014 por conta de problemas respiratórios.

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Rose Marie partiu, mas os legados dela ficaram. Um deles foi o Instituto Cultural Rose Marie Muraro (ICRM), que funciona desde 2009. Ele tem a função, desde o começo, de ser um grande núcleo de discussões culturais, aberto para todas e quaisquer manifestações de cultura. Nele também são oferecidos programas, palestras e inúmeros eventos que contribuam para a população. O núcleo encontra-se no Alto da Glória, Rio de Janeiro.

A historiadora e socióloga Elisa Goldman também fala sobre a importância da militância da brasileira Rose Marie Muraro.  A história dela se destaca pela luta de direitos, produção cultural marcante, luta contra a discriminação da mulher e forte atuação política nos anos 60.

– Ela, na verdade, foi uma das primeiras inovadoras, uma mulher de vanguarda. Nos anos 60, enquanto o sexo feminino estava procurando quebrar todos os tabus, pensando na revolução comportamental, no uso da pílula e na queima dos sutiãs, ela teve toda uma trajetória marcada com uma necessidade de falar desse rompimento com o comportamento sexista, machista e com a inserção assimétrica da mulher na sociedade brasileira. Eu lembro de uma cena dela em um documentário onde ela fala que também combatia muito a própria esquerda, que nos anos 60, parecia ser muito machista. Então, nesse documentário, ela questiona como é que a esquerda pode pensar o caráter libertário da revolução socialista sem pensar no papel da mulher nessa luta política. Rose era uma mulher militante fervorosa, que teve um papel atuante de vanguarda nos anos 60 e era também uma pessoa que buscou se inserir e produzir intelectualmente.

Outra mulher que batalhou muito pelos direitos de mulheres, e continua na mesma luta, é Angela Davis. Americana, nascida em 1944, a feminista não mede esforços quando o assunto é a luta pelas mulheres e a resistência ao racismo. Criada em Birmingham, cidade conhecida pelo preconceito racial estar entranhando em suas raízes, ela cresceu querendo mudar esse cenário e acompanhada de sede por mudanças, desejos de igualdade social, abominação ao machismo e, principalmente, lutando contra a violência à negros.

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Símbolo da luta pelas mulheres e em defesa dos negros, Angela Davis continua exercendo sua militância até os dias atuais

Com tanta determinação e vontade por mudanças, ela sofreu algumas represarias por conta disso. No ano de 1969, enquanto lecionada filosofia na Universidade da Califórnia, ela foi desligada da instituição por conta da sua ligação com o Partido Comunista Americano e com os Panteras Negras. Logo após isso, por conta da sua luta, a feminista foi caçada e adicionada à lista dos criminosos mais perigosos do país. Logo após ser feito um enorme circo midiático em busca da caça de sua liberdade, a sentença foi dada e, mesmo sem provas, ela foi condenada.

Contraditoriamente, Angela foi presa por conta de uma das suas lutas: o aprisionamento injustos e reformas no sistema prisional. Na época, ela defendia três jovens negros que foram presos com a acusação de assassinato contra um policial. No dia do julgamento, um deles sacou uma arma e matou três réus e o juiz. A feminista foi acusada de ter comprado as armas que foram usadas no crime e, sendo assim, levou a culpa de ser cúmplice desse crime, conforme as leis da Califórnia, sendo classificada como uma terrorista de alta periculosidade.

Diante de tanta injustiça, a população não se calou e logo formaram inúmeros comitês em prol da libertação da ativista, nascendo um novo movimento cultural por toda América. Para se ter uma noção da tamanha comoção, John Lennon e The Rolling Stones tem musicas dedicadas especialmente à Angela. Um ano e meio depois da prisão, ela foi solta por falta de provas.

A historiadora e socióloga Elisa Goldman conta que inúmeras mulheres foram importantes para o movimento, mas algumas conseguiram se sobressair, entre elas, a militante negra Angela Davis.

–  A Angela é conhecida pelo vínculo dela com a luta pelos direitos civis e o movimento negro dos anos 60, que é muito forte. Ela foi uma intelectual que produziu sistematicamente, falou bastante sobre o papel da mulher na militância política negra e, para além disso, ela foi uma pessoa perseguida. Foi presa política nos EUA, sinal que de alguma maneira ela incomodou bastante o estado e, principalmente, o sistema político americano. Isso se dá pelo motivo de que ela falava não só dos direitos dos negros, mas no contexto onde havia uma supremacia racial branca e uma lógica de segregação quase na mesma dimensão de um Apartheid, e ela denunciava isso. Também era comum ela fazer denúncias sobre o sexismo e a segregação contra as mulheres nos EUA. Com isso, abririam duas entradas: a do movimento feminista e a do movimento pelos direitos civis, o movimento negro.

Elisa também destaca outro ícone do movimento, mas, dessa vez, brasileira. Com a história muito semelhante da militante negra Angela Davis, a história de Rose Marie Muraro também se destaca pela produção cultural marcante, luta contra a discriminação da mulher e forte atuação política nos anos 60.

– Ela, na verdade, foi uma das primeiras inovadoras, uma mulher de vanguarda. Nos anos 60, enquanto o sexo feminino estava procurando quebrar todos os tabus, pensando na revolução comportamental, no uso da pílula e na queima dos sutiãs, ela teve toda uma trajetória marcada com uma necessidade de falar desse rompimento com o comportamento sexista, machista e com a inserção assimétrica da mulher na sociedade brasileira. Eu lembro de uma cena dela em um documentário onde ela fala que também combatia muito a própria esquerda, que nos anos 60, parecia ser muito machista. Então, nesse documentário, ela questiona como é que a esquerda pode pensar o caráter libertário da revolução socialista sem pensar no papel da mulher nessa luta política. Rose era uma mulher militante fervorosa, que teve um papel atuante de vanguarda nos anos 60 e era também uma pessoa que buscou se inserir e produzir intelectualmente.

Mulheres sendo inspiradas por mulheres

E são mulheres como Frida, Rose Marie e Angela que fazem com que o movimento feminista continue crescendo e exemplificam a importância de se ter exemplos para que as ações continuem. A ativista e estudante de jornalismo Eloá Custódio é defensora do Movimento Feminista e afirma que a criação dela sempre foi ligada aos direitos das mulheres.

– Sempre tive uma criação que, hoje, nós podemos chamar de feminista, ou até de “mulherista”. Minha mãe é de Movimento Negro sindicalista, de central sindical e do Movimento de Mulheres, então, em toda minha vida,  eu estava fazendo parte disso, só que não de forma ativa, e com essa convivência eu entendi a necessidade de ter uma militância, e militância que eu digo não é só de ir em manifestações ou postar nas redes sociais, e sim através da minha postura, das coisas que eu falo e faço para e com as pessoas.

Ela também afirma que hoje o Movimento Feminista está passando por mudanças: se antes o foco era sobre a desigualdade de salários, hoje se trata de direitos e deveres.

– O fato da mulher receber menos simplesmente porque é mulher é um problema grave.  Vivendo em uma sociedade capitalista, isso é muito forte. A coisa do machismo é muito direta quando você recebe menos trabalhando tanto, ou até mais, que os homens, só por ser mulher. Mas eu acredito que o feminismo vai além disso. Não é só sobre um capital, é também porque eu acredito que ele é uma das formas que sustenta o capitalismo.

A estudante também fala que não basta somente igualar o salário, mas também é necessário mudar os hábitos que estão intrínsecos na sociedade.

– Não adianta, aqui no meu trabalho, eu receber o mesmo salário do meu amigo sendo homem, no mesmo cargo que eu, se eu continuo sofrendo assédio dentro e fora do trabalho, se as pessoas continuam achando que eu não tenho a capacidade de realizar certas tarefas simplesmente por ser mulher, se eu ainda não me sinto segura perto de pessoas que eu não conheço, se eu tenho medo de andar na rua, entre outras coisas relacionadas ao machismo.

A ativista também aponta um problema grave que as mulheres vivem diariamente, mas também diz que a melhor forma de mudar isso é começar com a mudança de pequenos hábitos desde a infância.

– Isso começa desde pequenos, estimulando a menina a brincar com o que quiser e não somente ensinar sobre rosa e azul, mas sim sobre todas as coisas. Caso queira brincar de ser mãe, brinca. Se quiser brincar de ser engenheira, que seja. Se quiser jogar bola, soltar pipa, que faça. O importante é que ela cresça sabendo que pode fazer de tudo. Na escola, a mesma coisa: que as meninas sejam relacionadas a ciências e não somente aos cuidados. Ligam muito a mulher ao cuidado, cuidar de outra pessoa, mas isso tem que ser do ser humano, e não somente do sexo feminino. Isso vem desde a família, já que é esperado que a mãe cuide do filho e não o pai. Ele estaria ali somente para dar estrutura. Isso que é essencial no feminismo e não só sobre salário.

Uma das principais referências da estudante quando o assunto é o direito das mulheres é a Angela Davis, que defende, principalmente, o direito das mulheres negras. Ela conta que conheceu a ativista por meio da mãe, que é de Movimento Negro há mais de 20 anos, e o nome da feminista sempre aparecia como referência.

“A Angela Davis foi do partido dos Panteras Negras, que era de cunho anticapitalista. Nos anos 60, ela foi presa e, mesmo sem advogado, foi solta um tempo depois. Ela é um nome muito importante na luta antirracismo, então eu ouvia minha mãe sempre falar muito bem dela. Então, depois que soube da existência do Panteras Negras, eu fui buscar quem era ela e vi que, além de uma luta racial, ela também tinha uma luta de capital e de mulheres, e mulheres negras, daí que me despertou interesse na militância dela.”


Raiane Godinho

Reportagem realizada para a disciplina de oficina multimidia

 

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