Desafios da contemporaneidade no futebol com o uso da tecnologia no Brasil

Técnica, estilo e competitividade. Essas são algumas das características que o futebol carrega em sua história e que a todo momento atraem cada vez mais pessoas para esse ambiente. Lugar onde o espetáculo promovido por jogadas bonitas, dribles desconcertantes e gols de placa leva ao delírio o público apaixonado.

Manter esse ambiente de pura magia é algo que tem se tornado um grande desafio ao longo dos anos. Com o número de erros crescendo devido à falha de inúmeros árbitros e seus auxiliares, o esporte passou a ter que se adaptar a constantes mudanças, que hoje ainda são muito questionadas.

Com as seguidas alterações feitas para a melhoria do esporte, como o uso de comunicação entre os árbitros e a tecnologia da linha do gol, a prática esportiva passou a ter um número menor de erros, proporcionando um espetáculo melhor para torcida e para os telespectadores.

No entanto, isso não foi o suficiente. Mesmo com as diversas ferramentas já implementadas dentro do esporte, os erros ainda persistiam a acontecer.  Algo que, com o tempo, passou a tirar o brilho das competições e levantar diversos questionamentos sobre qual seria a melhor solução para o fim destas falhas.

Pensando nisso, órgãos e entidades do futebol entenderam que seria necessário dar mais um grande passo, a fim de aplicar possíveis melhorias e vencer esse grande desafio, que seria aplicar o uso do árbitro de vídeo (VAR), que já era utilizado em outros esportes como voleibol, tênis, natação, entre tantas outras modalidades, dando início a um grande desafio na contemporaneidade, que é o uso da tecnologia no futebol.

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Arbitragem com o uso da tecnologia antes do árbitro de vídeo (Foto: Pixabay)

Dado o primeiro passo para a utilização da ferramenta em campeonatos com tanta importância e visibilidade, questões como a competitividade, o andamento do espetáculo, o fim dos erros dos árbitros e tantas outras situações estão sendo debatidas constantemente entre dirigentes do futebol, entidades e clubes. O presidente do Clubes de Regatas do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello, acredita que qualquer auxílio que a arbitragem possa ter para diminuir o número de erros nos campeonatos é importante. “Acredito que isso possa resolver 20% ou 30 % dos casos. Mas de qualquer maneira é uma ajuda que não pode ser desprezada”.

Bandeira de Mello ainda ressalta que o custo para a utilização do VAR no futebol brasileiro ainda é uma grande barreira e que a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) deve financiar os custos das operações. “Pelos principais campeonatos serem organizados pela CBF, entendo que ela deva arcar com os custos. Mas na impossibilidade, acredito que os clubes podem pagar as despesas”.

Eduardo Bandeira

Presidente do Flamengo, Eduardo Bandeira de Mello (foto: Lucas Candido)

Com a dificuldade em tornar a ferramenta uma prática regulamentada dentro dos campeonatos, torcedores e amantes do esporte observam a arbitragem seguindo para um caminho em que os erros vêm se tornando a cada dia mais recorrentes. Algo que com o tempo está tirando a graça dos espetáculos, que antes eram vistos como oportunidade de lazer e entretenimento e agora ganham visibilidade negativa pelo aumento da cobrança por parte dos torcedores, que clamam pelo uso do árbitro de vídeo.

O estudante e torcedor do Flamengo, Hugo Alves, 22 anos, acredita que ainda possam ocorrer erros na arbitragem, mas com o uso do árbitro de vídeo, com certeza, diminuirão as infrações. E ainda reforça que a ferramenta só tem a melhorar o futebol, além de auxiliar os profissionais que comandam as partidas e que entram pressionados nos jogos por já terem cometido muitos erros anteriormente. “O maior desafio dos árbitros é lidar com tanta pressão. Muitos já entram em campo pressionados pelos erros e acabam por conta disso influenciando as partidas”.

Diante das cobranças que o quadro de árbitros sofre de maneira recorrente em todas as partidas, órgãos como as Federações de Futebol, a Confederação Brasileira de Futebol e outras entidades buscam a todo momento melhorar a capacitação dos profissionais já formados e passar novas orientações com a futura a utilização do VAR nas partidas. O espetáculo antes vivenciado por muitos, hoje está se tornando diferente e, dessa forma, o diretor da Federação de Futebol do Rio de Janeiro e especialista em didática e currículo de cursos de formação de árbitros de futebol, Carlos Elias Pimentel, avalia o uso do árbitro de vídeo como um instrumento que ainda precisa ser visto com muita atenção. O alto custo para a utilização em diversas competições ainda é uma barreira que precisa ser vencida, junto com a mudança de comportamento e da cultura do futebol brasileiro, que é diferente dos demais países. “Aqui no Brasil o árbitro é obrigado a trabalhar muito mais a parte técnica e disciplinar com os jogadores, enquanto em outros países isso não acontece”.

Carlos Pimentel

Diretor da Federação de Futebol do Rio de Janeiro, Carlos Pimentel (Foto: Lucas Candido)

Com o grande número de erros observados nas partidas, devido à grande pressão sofrida dentro dos estádios pelas torcidas e pelos jogadores dentro do gramado, os árbitros passam de maneira recorrente por um processo de “reciclagem”, para corrigir erros que estejam cometendo durante as partidas. O estudante de Jornalismo e árbitro da Federação do Rio de Janeiro, Fabio Schuch, 23 anos, conta que, ao realizar o curso de árbitro, em 2013, a questão do VAR ainda não era pensada. E que durante os últimos anos, com a entrada em vigor da utilização tecnologia nas partidas, sempre há palestras e orientações para os profissionais ficarem aptos e preparados para a possível utilização da ferramenta nos jogos. “Já existem algumas simulações e exercícios com o árbitro de vídeo para que no ano que vem seja usado nas competições”.

Com a capacitação dos profissionais e com a nova ferramenta para os jogos, lances mais duvidosos tendem a diminuir, deixando os jogos mais dinâmicos. “Acredito que possa sim ter o árbitro de vídeo, mas é necessário que se haja uma regra para utilizá-lo, para os jogos não ficarem muito automáticos e chatos”, afirma Fabio.

Soluções mais simples e que minimizem os erros em determinadas partidas podem ser utilizadas também, é o que destaca Fabio, que acredita que a atenção e a concentração são as chaves  para que se tenha uma clareza melhor das jogadas, mediante o estudo das regras, junto com o bom senso nas tomadas de decisões, que são importantes para o andamento das partidas. “Acredito que estar próximo às jogadas e ter confiança na sua equipe de trabalho são fatores importantes”.

Com base na dificuldade das jogadas, que a cada dia são mais rápidas, tendo menos tempo para serem analisadas, a ferramenta que é vista com uma solução para a diminuição de pressão sofrida nas partidas, hoje torna-se o meio mais viável e mais próxima para o fim dos erros. Acreditando no árbitro de vídeo como ferramenta de extrema importância, torcedores pedem a rápida adesão nos principais campeonatos.

A auxiliar administrativa e torcedora fanática do Fluminense, Mariana Pereira, 25 anos, frequenta os estádios de futebol desde os 14 anos com o pai, entende que o árbitro de vídeo ajudaria na contribuição de um jogo mais limpo e destaca a questão do preparo da arbitragem para os jogos. “O clima que se tem no estádio é surreal. O árbitro de vídeo não será completamente responsável pela solução dos erros. O certo seria termos árbitros bem mais treinados para situações de jogo.  Por fim, Mariana aponta que as paradas nos jogos são algo que ainda precisam ser vistas “A questão das paralisações com o uso da ferramenta seria algo a ser estudado, para que não houvessem muitas interrupções no andamento das partidas”.

Já o jogador de voleibol e estudante de Educação Física, Rogério Carlos Silva, 21 anos, torcedor do Flamengo, acredita que o esporte precisa de mudanças por conta da velocidade com que as jogadas vêm se desenvolvendo. “O futebol, como todos os outros esportes está evoluindo em questão de velocidade. E para que a qualidade do esporte não caia, é necessário investimento”. Acreditando que a ferramenta possa mudar o futuro do esporte com o auxílio da tecnologia em jogadas mais duvidosas, Rogério destaca a importância do árbitro de vídeo para a mudança de patamar do esporte. “Ele vai servir para tirar dúvida de lances decisivos nas partidas e ainda vai tirar um pouco da pressão que os árbitros sofrem nos jogos”.

Acreditando na tecnologia e na inovação como solução para os problemas existentes dentro do futebol, torcedores, dirigentes e órgãos do futebol projetam mudanças que serão benéficas para o esporte, sendo promovidas de maneira gradativa e de forma inteligente, buscando uma prática esportiva mais justa e com menos erros. Pensando nas alternativas que o VAR poderá trazer para o futebol, o jogador do Flamengo, Diego Ribas, 33 anos, comenta que o árbitro de vídeo é uma opção válida dentro do futebol e que vai melhorar bastante o espetáculo, diminuindo erros, mas não serão a solução para o fim dos erros da arbitragem. “Mesmo que exista uma câmera e tenha várias repetições, será um ser humano que irá julgar a intenção ou não do jogador”.

Diego Ribas

Jogador do Flamengo, Diego Ribas (Foto: Lucas Candido)

Diego ainda ressalta que no seu retorno ao país, após 12 anos jogando no futebol europeu, pôde observar que a diferença entre o Brasil e os outros países em que atuou diminuíram bastante. “Estive em cinco países diferentes e no meu retorno pude ver um futebol mais bem preparado e com uma mentalidade melhor, onde cada clube está buscando evoluir e melhorar sua estrutura”.


Lucas Candido

 

 

 

 

 

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