Entenda como foi a Guerrilha do Araguaia, principal movimento contra a ditadura no Brasil

Em resultado final, o relatório da Comissão Nacional da Verdade contabiliza 70 mortes decorrentes da maior guerrilha armada do Brasil

Muito se ouve a respeito dos movimentos contra a ditadura militar no Brasil que aconteceram no eixo do Sudeste, entre Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. Eram nesses estados onde estavam concentradas as maiores forças da repressão e os mais utilizados centros de tortura do país. Era no Sudeste também onde estavam estabelecidas as inteligências das forças de combate contra a ditadura. Mas, apesar disso, o maior movimento armado de combate à ditadura aconteceu na região Norte, mais precisamente ao longo da bacia do Rio Araguaia, na região Amazônica no Brasil.

Comandada pelo Partido Comunista do Brasil (PC do B) e com mais de 100 pessoas envolvidas, entre guerrilheiros e força de inteligência, a Guerrilha do Araguaia tinha como inspiração as Revoluções Chinesa e Cubana, em que o combate às ditaduras e o estabelecimento de governos socialistas partiram do campo. A guerrilha começou no fim da década de 60, quando os guerrilheiros se estabeleceram na região. O objetivo era criar uma zona livre no Norte do Brasil e, com apoio da população, criar uma força-tarefa para depor o regime militar.

Guerrilheiros rendidos no Araguaia. Foto: Divulgação

Guerrilheiros rendidos no Araguaia. Foto: Divulgação

Para conseguir esse apoio da população, os guerrilheiros, que eram conhecidos como “paulistas”, compraram pedaços de terra, estabeleceram comércios, atuavam na agricultura e estabeleceram uma comunidade socialista no local. Disseminando as ideias de igualdade e de melhorias na região com o fim do regime, eles conseguiram forte apoio da população e conseguiram viver por quase seis anos sem que houvesse qualquer tipo de interferência do governo.

O combate com as forças armadas começou apenas em 1972, quando alguns dos moradores passaram informações às forças de repressão sobre o estabelecimento da guerrilha. Para o combate, o Exército enviou cerca de 10 mil homens, em três campanhas. Só se havia visto tanta mobilização de combate do Exército brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial, quando o Brasil lutou ao lado dos Aliados.

Os destacamentos vinham por terra, ar e água. E, tendo falhado as duas primeiras operações, os comandantes deram a ordem para que cerca de dois mil homens se destacassem para o Araguaia. Em depoimento para a Comissão Nacional da Verdade, o general reformado do Exército Nilton de Albuquerque Cerqueira afirma que “prender não era uma opção” no Araguaia e que o militar “preparado para a lura armada tem a convicção de que está com a razão, ele está disposto a morrer. E quem enfrenta o combate está com disposição de morrer ou matar”.

Justamente por essa ordem de matar todos os integrantes da Guerrilha do Araguaia, Carlos Danielli foi assassinado. Ele, que era um dos membros do “seio da inteligência” guerrilha e atuava em São Paulo, juntamente com Lincol Oest e Luís Gilhardini, no Rio de Janeiro, de acordo com o autor da biografia de Danielli, Osvaldo Bertonlino. “Para as pessoas participarem da guerrilha, tinham que passar por um crivo do Danielli”. Era Carlos Danielli quem fazia a ligação da cidade com os guerrilheiros e camponeses no Araguaia e conhecia as pessoas que desejavam integrar a guerrilha, a fim de saber se elas tinham convicção política e disponibilidade para serem enviadas ao Araguaia.

Danielli também organizava a parte da infraestrutura, como arrecadação de alimentos e demais aparatos que davam sustentação material à guerrilha. “Ele era peça chave na guerrilha do Araguaia, principal esteio da organização da guerrilha em São Paulo”, declara Osvaldo, que credita a esse cargo o fato de Danielli ter sido tão torturado antes de morrer. “Quando o pegaram, sabiam que ele teria todas as informações que eram necessárias para a guerrilha. E Carlos, apesar de saber todas as informações, não entregou nada. Ele sabia que, apesar de detido e, mesmo que falasse, ele não seria poupado, porque a ordem dada aos militares era liquidar o cérebro da guerrilha”.

E foi exatamente o que foi feito: segundo relatórios da Comissão Nacional da Verdade, foram 67 mortos pela ação do governo no Araguaia, de um total de 98 pessoas, entre guerrilheiros e camponeses que se juntaram à luta armada. Desses 67, 41 foram torturados e mortos após terem se rendido, o que é classificado por Osvaldo Bertolino como “um massacre, em que, além de matar e torturar, fizeram questão de desaparecer com os corpos e não permitiram sequer um enterro dado pela família”.

Em seu relatório final sobre a Guerrilha do Araguaia, que tem como base depoimentos de ex-militares, ex-guerrilheiros e camponeses e depoimentos dos torturados, a comissão da verdade emitiu a seguinte conclusão:

“A documentação, toda, aqui examinada, confirma, em essência, o Relatório produzido pelo general Antônio Bandeira, que se constituiu no tomo 1, retro, dedicado ao tema: Araguaia.

“Portanto, pouco mais de cinquenta (50) brasileiras e brasileiros, que se opuseram ao Estado Ditatorial militar e se embrenharam na região do Araguaia em resistência armada, transformaram-se em alvos de treinamentos militares, de exercícios operacionais que mobilizaram, como foi visto, e comprovado, mais de 2.000 agentes públicos militares, dotados de estrutura e equipamentos bélicos incomparavelmente superiores aos dos guerrilheiros mas, e como mesmo atestam os documentos, tratava-se de exercitarem-se em “operação de limpeza”, eliminando-se esses opositores.

A brutalidade estampada na gritante desproporção de forças e o tratamento deferido aos opositores – eliminação sumária ou aprisionamento ao completo arreio do sistema legal – marcam o desatino do Estado Ditatorial militar”.


Reportagem de Raiane Godinho e Valdirene Martins para a disciplina Jornalismo Especializado, com mentoria dos editores do Diário da Província e da AgênciaUVA

Um comentário sobre “Entenda como foi a Guerrilha do Araguaia, principal movimento contra a ditadura no Brasil

  1. Pingback: Memórias de um guerrilheiro — A vida e a trajetória de Carlos Nicolau Danielli | AgênciaUVA

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