A realidade do estudante na Ditadura Militar e o reflexo na educação

Instaurada no Brasil em 1964, por meio de um golpe de estado, a Ditadura Militar foi o período da política em que os militares ficaram responsáveis em conduzir o país. O Regime marcou a época através de Atos Institucionais, principalmente em 1968, quando o Estado gerou uma repressão baseada em tortura, vigilância, prisões ilegais, perseguição política e censura. Censura essa que muitos estudantes sentiram durante todo esse período.

Nascida em 1963, Ana Barreira passou toda sua infância e adolescência sob a influência do regime militar. Estudou no Colégio Santo Amaro, colégio particular católico exclusivo para meninas, dirigido por freiras alemãs. As regras de comportamento eram, portanto, duplamente rígidas.

Todos os dias, na hora da entrada, as turmas eram formadas em filas duplas no pátio, onde se cantava o hino nacional e o hino da bandeira. Depois, as turmas subiam, em formação, para suas respectivas salas. Não havia estímulo ao pensamento crítico. A escola ensinava apenas o que fazia parte do currículo oficial, sem questionamento.

As matérias mais emblemáticas da época eram Educação Moral e Cívica e Organização Social e Política Brasileira (OSPB), que fazia um doutrinamento das crianças em relação à política do governo. “Éramos crianças, mas acho que a gente tinha noção de estar sendo doutrinado, porque lembro que a gente não gostava daquela matéria, achávamos muito chato, cheio de regras”, relata Ana.

O ensino de História e Geografia foi profundamente marcado pelo patrulhamento oficial. Não se ensinava sobre história contemporânea do Brasil ou do mundo, mas se sabia tudo sobre Egito e Roma antigos. Ensinava-se tudo sobre a época do descobrimento do Brasil e do império, mas a república não passava do Marechal Deodoro da Fonseca.  Em geografia só se aprendia sobre relevo e as diferentes paisagens, nada sobre geopolítica.

Hoje médica, e com 55 anos, Ana relata: “Lembro de estudarmos sobre a construção Transamazônica e de como se falava disso com orgulho. Aliás, a gente era ensinada sobre todas as grandes obras do governo, como Itaipu e o programa nuclear brasileiro, sem nenhuma crítica.” A escola era usada como um meio de exaltação da política nacional e havia mesmo um policiamento do pensamento.

Não havia muita possibilidade de se conseguir informações além do que era publicado oficialmente nos jornais. Isso dificultava ainda mais a aquisição de novos conhecimentos e ideias. As fontes de conhecimento eram as enciclopédias e os livros didáticos, todos devidamente filtrados e censurados pelo governo.

No inicio dos anos 80, já na faculdade, ainda era patente a influência da ditadura, com a obrigatoriedade de assistir aula de OSPB, que reprovava quem não tivesse presença e nota boa nas provas. Havia também os chamados “estudantes profissionais”, alunos que estavam há anos na faculdade e diziam que eram agentes infiltrados, para saber se os estudantes estavam planejando algum movimento contrário ao governo e denunciá-los. “Era uma época de medo”, desabafa Ana.

Com o fim da ditadura, foi possível recuperar a lacuna deixada na formação de historia e geopolítica com a leitura de livros e com as novas reportagens, filmes e documentários produzidos.

Em 2004 os sobrinhos de Ana passaram a morar com ela, e foram carinhosamente adotados como filhos. Com eles, ela teve que relembrar os tempos de escola, pois precisava ajuda-los nas dificuldades escolares e se deu conta de como a realidade era outra, como o período vivido na ditadura parecia até uma história fictícia. Ana sentiu inveja da nova realidade de ensino de geopolítica, de como o ensino de história era crítico, mostrando as diferentes facetas dos acontecimentos, permitindo que as pessoas formassem suas opiniões a partir da discussão de ideias. Foi onde se deu conta da possibilidade de ter uma forma de resgatar o conhecimento roubado involuntariamente de sua geração.

Reportagem de Thaissa Calçada para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

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