A moda tropicalista contribui para a construção de identidades

Os anos 60 foram um período de transformações. Especificamente, ‘Maio de 68’ foi um marco de protestos juvenis na França que ganhou proporções mundiais. A geração pós-guerra questionava as normas sociais, políticas e culturais vigentes,  um momento o qual, segundo estudiosos, começou-se a considerar uma pós-modernidade. Não foi diferente no campo do comportamento, com o qual universo da moda ou do estilo se relaciona. Entre os fenômenos estão o individualismo, a construção identitária e a necessidade de pertencimento a um grupo.

Uma das formas de se fazer isso, definir e esclarecer quem é o indivíduo e a que grupo pertence é pensar a estética, o visual, a aparência e o que vestir. No século XXI, a estetização do mundo é intensa, mas já há 50 anos a roupa continha uma mensagem individual ou tribal. “O meio é a mensagem”, assim dizia McLuhan e assim pensavam aqueles do movimento da Tropicália, que perceberam os movimentos de contracultura lá fora e agiram no Brasil também, só que com pauta ou roupagem diferenciada. A imagem dos integrantes orienta ainda hoje desfiles, estilistas, designers em geral e pessoas da nova geração.

Como o publicitário Pedro Cruz, de 26 anos. O jovem tem um estilo que busca inspiração no Tropicalismo. “Muito das minhas referências estéticas vem disso. É assistir a um vídeo, olhar imagens da época. O festival de Woodstock, hippie, percebo que tem a ver também”. Ele destaca a característica política do movimento de liberdade de expressão. “Eu tento desconstruir os padrões. Era o que a Tropicália fazia e o que mais me estimula hoje. Provocar as certezas e conceitos impostos pela sociedade por meio da maneira como me visto”, explica.

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Pedro se sente bem ao vestir roupas leves e peças estampadas (Foto: cedida/Arquivo pessoal)

Esse pensamento se alinha à proposta da Tropicália. Para Patrícia Marcondes de Barros, doutora em História Cultural e integrante do Laboratório de Estudos e Pesquisas em História, Moda e Cultura da Universidade Estadual de Maringá, a contracultura hippie foi ressignificada. “Ocorreu de forma muito específica, aliando os componentes libertários do referido movimento norte-americano a questões mais pontuais, nacionais, a exemplo da crítica à ideia de identidade nacional una e as formas de resistência frente à Ditadura Militar”, esclarece.

Ideias costuradas nas peças de roupas, características como antimoda, rompia esteticamente com o ultrapassado. “Expressaram por meio da arte as novas formas e linguagens e os novos conteúdos, utilizando-se de metáforas e alegorias de suas produções artísticas, seus corpos e vestes”, conta Patrícia. A imagem impactante dessas pessoas, com cabelos compridos e roupas de cores fortes, era essencial para a identidade delas. Elementos com os quais Pedro se identifica. Ele tem um estilo de cabelo afro e tem o costume de misturar estampas. “Uso também batas, linho, roupas largas e leves, calças hippies, colares característicos”, descreve.

Essas são apenas algumas das ideias que compõem o estilo da década de 60 e 70. A professora Patrícia ainda descreve outros trajes ícones do Tropicalismo. “Roupas indianas elaboradas de forma artesanal, calças jeans de boca de sino, símbolos brasileiros bordados e utilizados como adereços para colocar a questão nacionalista em voga, vestidos de noivas, ternos antigos e fardas para remeter à crítica às instituições como família e escola, em meio a toda indumentária que caracterizou a liberdade de expressão e a volta ao natural”, destrincha.

Toda essa característica natural, a jovem Camila Libório, engenheira mecânica de 27 anos, é acusada por amigos de possuir. Eles, bem como Pedro, dizem que a trainee tem um estilo bem ‘hiponga’. “É aquela pessoa cheia se pulseirinha no pé, dessas que compra na praia. Que curte umas coisas naturais e adora colocar uma canga no chão. Eu sou daquelas que dão palestra descalça”, brinca Camila. “É com isso que me identifico”, confessa.

Apesar de haver quem tenha e quem não tenha a Tropicália como influência, os tempos, as pautas, a juventude, as vivências e o processo histórico são diferentes. É o que destaca a pesquisadora Patrícia, fazendo referência à Renata Pitombo Cidreira. “A moda tropicalista persiste atualmente, contudo, com outra conotação. Segundo Cidreira, o consumidor que adquire produtos relacionados aos símbolos de contestação ou rebeldia, de alguma forma, ganha uma identificação com o movimento de outrora. Porém, a roupa só adquire significado mediante as circunstâncias nas quais é usada”.

A moda e os jovens, por meio das tecnologias da comunicação e da mídia, conseguem, de fato, acesso a informações que contribuem para suas estéticas ou visuais, gerando tendência e identidade. A realidade acelerada dos tempos faz com que as mudanças sejam constantes e que o que é legal hoje sature amanhã. O estilo tropicalista ainda assim pode ser revisitado pela indústria, por tribos e por indivíduos. Estes sempre em busca de se destacar e ser único.

Reportagem de Jefferson Alves para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

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