A construção da Tropicália musical que mexeu com 68

O ano é 1967. Nas capitais brasileiras ainda imperava o regime ditatorial imposto em 1964, com um golpe de estado. Nas rádios, misturas de ritmos que traziam músicas mais nacionalistas e que levavam a mensagem da alegria que era fazer parte da pátria mãe Brasil. Porém, no meio deste movimento tradicionalista que o país estava passando, um estilo musical mais progressista, com mensagens que iam de encontro ao governo da época, surgia para exaltar a Música Popular Brasileira (MPB) e mostrava para o público a real situação do povo brasileiro e se estenderia até 1968.

Batizado de “Tropicália”, o movimento começou com músicas, como “Alegria, Alegria” e “Domingo no Parque”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, respectivamente. Inspiradas por um rock internacional, ritmos com instrumentos mais eletrônicos foram adicionados a melodia, como guitarras elétricas, e esquecia sons tradicionais das cordas do violão. Consideradas muito futuristas para a época, estas duas canções foram apresentadas primeiro no III Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, que na época era dominado por artistas da jovem guarda, como Roberto Carlos. Este foi o pontapé inicial para um movimento cheio de cor e performances.

Além de canções que levariam o discurso de resistência, os tropicalistas também compuseram músicas que não viria somente expor a real situação brasileira frente à repressão, mas também o mundo cultural brasileiro. Para o doutor em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), Carlos Eduardo Pires, a grande novidade da época foi o forte foco que as canções tiveram em questões comportamentais. “Os sons mostravam uma forma musical mais fragmentária e estranha para o momento e as contradições de um país desigual”.

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O disco manifesto da Tropicália: Panis at Circences, dos Mutantes (Reprodução)

O idioma brasileiro também foi uma ferramenta importante para que as músicas fossem criadas e tivessem sua mensagem disseminada. Carlos lembra a canção “Tropicália” de Caetano Veloso, que remonta uma alegorização do Brasil. “As construções das músicas eram sofisticadas e a língua portuguesa é uma das ferramentas dentro de uma linguagem híbrida que o tropicalismo inventou por meio dos seus LPs e se fez importante das performances que faziam, das roupas que vestiam, etc. A música “Tropicália” de Caetano Veloso, por exemplo, ajuda a contrastar um Brasil de diferentes representações”.

No olhar do especialista, nem todas as canções que representavam o movimento tropicalista mandavam mensagens diretas à Ditadura de 64. Em outros movimentos, as críticas veladas foram bastante utilizadas, como em “Apesar de você” de Chico Buarque, que entre os versos de grito contido e samba no escuro criticava um conservadorismo acentuado. “Em vários momentos faziam também alusões a situações relacionadas à Ditadura Militar. Além disso, o falso nacionalismo que os militares vendiam para a população era comumente ridicularizado nas músicas”.

E as mensagens nas músicas figuraram no gosto do povo da época. Através do ranking de músicas mais tocadas nas rádios brasileiras no ano de 1968, “Baby” de Gal Costa e Caetano Veloso era a terceira canção mais tocada nas paradas de sucesso. A canção fazia parte do disco Tropicália ou Panis et Circences, o disco manifesto lançado pelos membros da Tropicália em 1968.

Todo o sucesso e os festivais em que a trilha sonora eram as músicas tropicalistas foi também um mote para uma crítica ao sistema cultural da época. Para Carlos Pires, as músicas que foram feitas no passado podem ter inspirado muitas das que ouvimos hoje nos rádios. “Os tropicalistas continuaram suas carreiras depois fazendo coisas bem diferentes e interessantes – até hoje na verdade. E, claro, o país continua desigual e muitas canções colocam questões com isso no horizonte”, conclui.

O fim da movimento cultural que abalou as estruturas musicais do governo e do Brasil teve início com a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil, principais percursores do estilo. Porém, a cultura do país já estava marcada por um estilo irreverente e que inspiraria gerações futuras.

Tropicália como inspiração para os millennials

Eles não beberam diretamente da fonte tropicalista musical, estão envoltos em tecnologias, músicas que vão desde o funk protesto até o pop brasileiro enérgico, mas em algum momento as músicas da época do Panis at Circences (1968) contribuiu para a construção do gosto musical e das preferências sonoras de alguns do membros do grupo millennials (ou geração Y).

O publicitário Pedro Cruz, 26 anos, é uma dessas pessoas que, na infância, esteve essencialmente conectado com as músicas de Caetano Veloso e Gilberto Gil da época tropicalista e acredita que muito do que ouviu levou a construir as suas preferências no gosto musical de hoje, e até no estilo de vida. “Eu tive uma infância em que minhas referências musicais eram muito da música popular brasileira. Eu ouvia muito Gal Costa, Caetano Veloso e Gilberto Gil”.

Já para a relações públicas Nina Isidoro, 24 anos, ter o contato com essas músicas na infância e ainda ouvi-las hoje é uma forma de aproximação da família. “Hoje ouvi-las ainda me leva um sentimento de aproximação dos meus pais e avós. Acredito que seja o vínculo afetivo que mais me motiva a continuar ouvindo”. Para ela, o movimento Tropicália pode ser um dos que inspiraram estilos musicais mais atuais pela mescla de sons e estilos diferentes, assim como os internacionais. “Além disso, a inspiração pode estar também ligada à reprodução da atitude da época no que diz respeito a uma tentativa de reformulação de padrões musicais, sem se prender necessariamente a um único estilo”, finaliza.

Reportagem de Gabriel Lopes para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

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