Teatro e Ditadura: um outro jeito de contar o Brasil

Um cantor em busca de sucesso na sociedade do espetáculo; três prostitutas sendo exploradas e marginalizadas. Parece atual, mas são enredos da década de 60 que têm em comum a censura dos Anos de Chumbo. Roda Viva, de Chico Buarque; e Abajur Lilás, de Plínio Marcos, foram duas peças teatrais hostilizadas e interrompidas durante o período da Ditadura Militar (1964 – 1985). Espetáculos que marcaram a história do Brasil e são exemplos de como a arte e política estão intimamente ligadas, e é por essa razão que este ano, 33 anos após o fim da Ditadura, Manelick de Carvalho fez uma releitura musical de A Lira dos 20 Anos.

Escrita em 1978 por Paulo César Coutinho, A Lira dos 20 Anos traz para os dias atuais uma reflexão sobre a importância da liberdade social e política abordando os acontecimentos políticos e sociais da década de 60: militância, movimento estudantil e operário, luta armada, maio de 68, alienação da classe média, machismo, homossexualidade e racismo. O último dia da primeira temporada da peça foi em 13 de maio, exatamente quando a Grande Greve de trabalhadores da França, movimento que inspirou a juventude brasileira em 1968, completou 50 anos.

Quem não pôde assistir à peça em sua primeira temporada, na Casa das Artes de Laranjeiras, tem motivos para ficar otimista. A produção planeja uma segunda temporada ainda este ano. As informações podem ser acompanhadas na página da Lira do 20 Anos, no Facebook. De acordo com o diretor da adaptação, Manelick de Carvalho, o tema é urgente. “É importante falar sobre a Ditadura quando vemos por aí pessoas dizendo que ela nunca aconteceu ou que só cerceava a liberdade de criminosos. Vimos na Lira que não foi assim”, ressalta.

Com proposta itinerante, a plateia pôde circular pela sala do teatro enquanto acompanhava a história de Lucas, Ninon, Clara e Marcus, personagens centrais da trama que trouxeram à tona o preconceito, a homossexualidade e o empoderamento feminino. Para Gabriel de Aquino, que assistiu ao espetáculo na primeira temporada, essa dinâmica deu mais veracidade às cenas, principalmente as que abordam a truculência militar exercida à época. “Foi uma aula de história em forma de musical, sem ser clichê, indo além daquilo que aprendemos na escola, mostrando a virada do movimento estudantil para o movimento de luta armada”.

teatroeditadura

Os personagens Lucas, Ninon, Clara e Marcus (Foto de Aloysio Araripe/Divulgação)

A trilha também foi além do usual. Com direção musical de André Poyart, contou com músicas clássicas de Chico Buarque e Geraldo Vandré, sem deixar de lado canções de Gal Costa, Gonzaguinha e Belchior costurando as cenas da trama. Para Carol Groetaers, que interpreta Ninon, a mensagem da relembrar exatamente as nuances dos Anos de Chumbo, apontando também as contrastes de classe acerca dos movimentos sociais. “Conseguimos fazer um trabalho muito legal a partir do texto muito potente de Paulo César Coutinho. É uma peça extremamente necessária, sobretudo em ano de eleição”, salienta.

Para a produtora cultural Juliana Gomes, a arte é uma das formas de fazer e contar histórias. Por trabalhar com emoções, faz com que o público consiga observar o que é contado com mais empatia, ampliando sua percepção. “Uma pessoa de mente aberta que se propõe a assistir uma peça sobre a Ditadura, independentemente de sua posição política, consegue entender porque não podemos permitir que o autoritarismo volte ao poder. É por essa razão que peças teatrais, assim como outros trabalhos artísticos como filmes e séries, são necessárias para entendermos o contexto de um acontecimento histórico”, conclui.

Reportagem  de Tássia Bezerra para a disciplina Oficina Multimídia em Jornalismo

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