Comportamento Geral

Tingir os cabelos é um ato de rebeldia?

Cecília Pereira: "Fui influenciada por uma cantora muito conhecida dos anos 80."

Pintar os cabelos não é uma prática moderna. As civilizações antigas, como a egípcia e a persa, já tingiam os fios. As cores carregavam significados culturais que marcavam, por exemplo, a que grupo social pertencia uma pessoa. Muito diferente do que acontece nas sociedades ocidentais contemporâneas que passaram pela renascença, surgimento da moda e pela volta do homem ao centro das reflexões na modernidade.

Neste último período histórico, o que importava era o que estava no íntimo do homem: a capacidade racional ou como ele era emocional ou afetivamente. Quem nunca ouviu que o importante é o que está dentro de cada um? Mas, essa ideologia central foi se transformando com o tempo, sobretudo por conta dos ideais neoliberais e pelos recentes avanços das tecnologias da comunicação. As gerações smartphone (ou Z) e Y são bombardeadas por informações do que podem ser e ter.

A mídia e o consumo, portanto, vão aproveitar essa fome por iconicidade ou individualidade. Vão querer vender identificação por um objeto ou experiência. Suprir o desejo que, no fim, não acaba nunca. Mata-se a vontade a cada instante. E isso também em uma procura por identidade, que dessa vez tem a ver com os elementos estéticos que colorem todo o corpo. Para ajudar, a publicidade, a televisão, o cinema, as séries, as redes sociais e a moda oferecem vitrines de comportamentos. Um tipo de roupa, de jogo, de grupo de pessoas que pensam da mesma forma.

Vanessa Freitas: "Preciso estar em mudança constante para me sentir bem".
Vanessa Freitas: “Preciso estar em mudança constante para me sentir bem.”

O cabelo colorido está nesse meio. Como seres sociais, moças e rapazes se relacionam o tempo todo, criam vínculos aqui e saem de tribos acolá. Além disso, estão em interação com as estéticas veiculadas nas mídias, sobretudo digitais. Em suma, é um processo constante de construção do “eu”. Pesquisa online realizada para este especial multimídia com 176 pessoas, revela que 62,5% dos entrevistados costumam pintar o cabelo. Assim, tingi-lo de rosa pode ser indicador de que um rapaz de 20 anos faz parte de uma tribo e, principalmente, é significativo marcador de individualidade.

Como é o caso da colorida laranja Vanessa Freitas, de 17 anos, estudante do ensino médio e modelo. Começou a pintar o cabelo quando tinha 12 anos após a irmã se tornar cabeleireira. Conforme a personalidade da adolescente se transforma, ela procura evidenciar isso fisicamente. “Busco qual cor vai combinar mais comigo nessa nova fase. Se eu não estiver com o cabelo diferente, é como se não fosse eu mesma. Preciso estar em mudança constante para me sentir bem”.

A jovem sempre foi ligada à moda. Ao perceber uma tendência, tentava fazer em casa com a ajuda da irmã. Começou pela rosa, uma de suas cores prediletas, e passou pela azul por causa de um acidente na mistura de tintas. Mas foi essa falha que fez Vanessa adotar um estilo mais alternativo. Hoje usa o cabelo da cor laranja. “Gosto desses tons porque posso combinar com vários tipos e tonalidades de roupas: cor de rosa, vermelha, vinho. Laranja é uma cor mais criativa!”.

Quem tem um cabelo que se encaixa nessa paleta de cores é a estudante de Publicidade e Propaganda Mariana Medeiros, de 25 anos. A universitária entrou na onda de tingir os fios há quatro meses. Sentia-se atraída por esse estilo há bastante tempo, por isso resolveu pintar esse ano. Para ela, mostra sua personalidade, mas não define a identidade. “É indiferente para a construção dela. Na realidade, é um conjunto de componentes. Não vai ser um cabelo que vai formar minha identidade.”

Cecília Pereira: "Fui influenciada por uma cantora muito conhecida dos anos 80."
Cecília Pereira: “Fui influenciada por uma cantora muito conhecida dos anos 80.”

Mas este fator é importante para algumas pessoas. Márcia Mesquita, antropóloga e professora do curso de Design de Moda da Universidade Veiga de Almeida (UVA), acredita que a preocupação com a aparência contribui para expressar as identidades, subjetividades e personalidades do indivíduo. “Pintar o cabelo de cor fantasia já é bem comum, então acho que não tem a ver com ato de rebeldia, como já foi num passado recente, mas sim com uma forma de experimentação identitária”.

E essa vontade não vem do nada. Mestranda em Botânica, a bióloga Cecília Pereira, de 24 anos, encontrou em artistas famosos inspiração. Hoje em dia, o cabelo vermelho completa seu estilo grunge, bem rock alternativo dos anos 90. “Eu fui influenciada por uma cantora muito conhecida dos anos 80, a Cyndi Lauper, que pintava o cabelo de laranja, rosa e vermelho. E inclusive eu até pensei em fazer o mesmo corte que o dela”, revela a jovem que tinge o cabelo desde os 8 anos.

Quem também tem suas referências é Vanessa. As mídias sociais são importantes plataformas de influências, permitindo que a modelo se inspire na youtuber Lindsay Wood, conhecida pelas madeixas coloridas. “Vejo uma certa liberdade de ser quem realmente é. Ela me incentiva a sempre que estiver com baixa autoestima, ou apenas enjoada mesmo, ter coragem de mudar algo em mim para que eu me sinta bem de novo”.

Vanessa é um exemplo do consumidor contemporâneo. Conectado o tempo inteiro às mídias digitais e especializado pela cultura do consumo, não faltam informações para a composição da identidade. A antropóloga Mesquita, destaca a mudança de paradigma no que se refere aos modelos de comportamento. “No século XX já víamos essa influência de astros de Hollywood clássica, por exemplo. Atualmente, a busca por referências é pela internet, e nem sempre por celebridade do tipo ‘clássico’, mas por influenciadores digitais”.

Superando esses questionamentos pré-pintura (Pinto ou não? Tem a ver comigo? Sofrerei preconceito? Como vai afetar minha vida profissional?) a pessoa que quer tingir as madeixas precisa ficar atenta aos processos para se chegar à cor desejada. Com a possibilidade de qualquer um produzir conteúdo e postar na internet, muitos jovens acabam aprendendo a pintar o cabelo a partir de vídeos ou publicações em blogs. Mas, não é o que aconselham profissionais como Victoria Freitas.

“O ideal é colorir no salão porque a maioria trabalha com tintas profissionais. Mas caso for pintar em casa, é preciso escolher uma tinta que tenha algum ativo para nutrir o fio”, explica a esteticista que trabalha com cabelos há 6 anos. O acompanhamento do processo por quem entende de coloração pode evitar frustrações e arrependimentos. “Nós conseguimos analisar se realmente combina com as feições, tom de pele e até mesmo com a personalidade”, garante Victoria.

Quem teve que recorrer a um profissional para mudar a cor dos fios foi Lucas Palomo, estudante de Jornalismo de 22 anos. Depois de uma tentativa de descolorir o cabelo em casa com a ajuda de amigos, precisou da Victoria para completar sua mudança de visual e sair da zona de conforto. “Meu cabelo era virgem. Não tinha uma gota de química nele. De primeira, não tive medo de colocar os produtos, apenas fiquei ansioso com o resultado final”, revela o jovem platinado. Cuidados são necessários para manter os fios e a personalidade multicolorida hidratados.

Confira a íntegra da reportagem multimídia “Colorido Hair – As infinitas nuances das mechas coloridas“.


Reportagem e fotos de Gabriel Lopes, Jefferson Alves, Lorena Gomes, Larissa Santos e Marcelle Tristão para a disciplina Jornalismo Digital

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