Rock nacional luta por mais espaço

Vida longa ao Rock and Roll, baby! E é por isso que músicos independentes lutam para conseguir o reconhecimento e espaço que merecem, cada um com seu estilo próprio. Eles fazem parte da cena de bandas underground, que traduzida significa “subterrâneo” ou “por baixo dos panos”, mas também pode explicar algo muito além disso. As bandas que nesse meio fogem dos padrões comuns não seguem o “modismo” e não podem ser encontradas facilmente na mídia. Assim, enquanto o reconhecimento não chega, elas buscam por meio da internet uma visibilidade na sociedade atual. E de forma independente buscam conquistar seu lugar no mundo sem esquecer suas essências.

A banda Venice – formada por Hideki Yamada Bahouth de Oliveira, de 22 anos; Pedro Menezes, 25 anos; Thiago Abdallah Antun, 21 anos; Sérgio Luciano de Souza Joselli, 29 anos e Léo Carvalho, de 33 anos – surgiu depois de todos os integrantes terem passado por vários outros grupos e nenhum deles ter dado certo. Pedro foi o idealizador do projeto e com o tempo tudo foi sendo moldado com a entrada dos demais, até chegarem no patamar em que se encontram hoje. Sabe aquelas pessoas que acreditam no valor do próprio trabalho? Pois bem, os garotos, com certeza, fazem parte dessa porcentagem. O guitarrista Sérgio Luciano diz que eles têm sede de um som que não se encontra no Brasil e queria fazer algo a respeito disso. “Para mim, pessoalmente, serviu muito de motivação também, porque ver que não existia o que imaginava na cabeça aqui me fez acreditar que era possível”.

Banda Vênice Brasil - (Fotógrafo Vinicius Cerchiari)

Banda Venice. Foto: Vinicius Cerchiari / Divulgação

Para Thiago não foi muito diferente: “Na Venice peguei o bonde andando, mas rapidinho me adaptei por entender que os meninos estavam fervendo para fazer ‘barulho’ e levar para frente um projeto sério e dedicado”, conta ele, que é o vocalista da banda e que desde criança foi criado pelo pai e educado na música. Por isso, ao perguntar se ele e os demais integrantes pretendem continuar no meio underground ou migrar para outro estilo musical por causa da dificuldade, ele diz que mudanças são necessárias e não o incomoda a possibilidade de alteração musical, já que os ouvintes gostam de mudanças a cada trabalho. “O que importa, para mim, é continuar fazendo algo verdadeiro”.

Léo Carvalho, também guitarrista, concorda com Thiago. Segundo ele, assim como qualquer arte, a música tem que mostrar sua verdade, sua conexão com o público. “Se não houver essa conexão, você pode se tornar mais um artista que compôs uma música só e ninguém quer ser esse artista”. Ele ainda afirma que nessa carreira existem altos e baixos e às vezes parece que nada vai dar certo, mas aí acontece algo grande que servirá de combustível, levando-os a continuar acreditando no próprio trabalho. “Quando um fã manda mensagem dizendo que nosso som mudou a vida dele, ou o ajudou a superar uma dificuldade, isso não tem preço! ”.

A arte com certeza é uma ótima maneira de se expressar, mas nos últimos anos está ficando cada vez mais difícil viver dela. Por isso, ao falar sobre como é ter que lidar com todas as questões que envolvem a banda por conta própria, Sérgio confessa que não é nada fácil e que eles precisam se virar com o que dá. “Clipes bem feitos são caros, fotos profissionais também, álbuns então, nem se fala, Redes sociais cobram para divulgar bem, rádios cobram para tocar música, tudo envolve dinheiro”. Ele também fala sobre o álbum da banda, “Santuário”, e sobre como foi difícil todo o processo de produção. “Refizemos a banda em um ano, gravamos incontáveis ideias de músicas, escolhemos as melhores e gravamos tudo na raça, sem a ajuda de um produtor musical”, conta. Mas o guitarrista diz que com certeza nada o desanima mais que o desinteresse da população, principalmente a do Rio de Janeiro, em conhecer novas bandas.

Bruno Braga é um exemplo de quem saiu do rock para tentar carreira em outro gênero totalmente diferente. O menino, de 23 anos, que antes cantava pop rock, agora é cantor de sertanejo universitário e diz que tudo mudou “da água para o vinho”. Ele desabafa que tudo é tendência e, assim como muitos gêneros musicais acabam virando moda, outros estilos são apagados ou esquecidos pelas pessoas. “Se a tendência é sertaneja, então todos querem, e quando alguém quer algo, nós ganhamos a chance de negociar. Agora como o rock ficou um pouco apagado, a banda tem que se sujeitar às regras do evento. O Brasil acha que o público do rock não é o suficiente para cobrir os gastos do evento, então resolveram torná-lo mais comercial. Eu já toquei por uma caneca de água para dividir para a banda toda. Hoje já não dividimos mais, e sim escolhemos o que queremos no cardápio”.

O produtor musical Diego Pirozzi, de 24 anos, explica que o grande motivo para o baixo interesse em investimentos, é a falta de incentivo à cultura em todas as suas formas e uma massificação da arte feita para a venda e não para o crescimento cultural. “A prefeitura da nossa cidade vem dificultando a vida dos poucos produtores interessados em movimentar nossa cultura”, opina. Contudo, ele garante que, apesar da baixa visibilidade, algumas empresas do ramo musical fazem ações pelo rock underground e que apesar de raros, existem festivais e reality shows feitos por gravadoras e emissoras de televisão que têm colocado bandas que saíram do underground no seu devido lugar de artistas renome. Mas acredita que, mesmo assim, precisa de algo maior. “Infelizmente eu só veria alguma luz com apoio maior aos menores artistas. O investimento para um bom trabalho seja ele um evento, um disco ou um videoclipe, é muito alto. Para um artista fazer tudo por conta própria complica demais. Poucos podem investir até chegar num retorno considerável, isso quando chega. Os maiores culpados acabam sendo nós, por exigirmos algo que sai da condição do artista de propor”, desabafa.

Não muito diferente, a banda Âncora – Rodrigo Macário Marques, 27 anos; Johnny Lopes de Queiroz d’Avilla, 22 anos; Luiz Felipe Gonçalves Barbosa, 22 anos; Marcos Eduardo 20 anos e Mateus Costa Ribeiro, de 20 anos – já tem seis anos de estrada e até hoje não se deparou com um retorno justo. Johnny é o guitarrista da banda desde que foi criada e diz não crer na previsão de crescimento do rock nacional. “O público brasileiro atualmente só consome funk e sertanejo, esses são os dois únicos gêneros rentáveis para altos investimentos. Os fãs do rock eram conhecidos por serem os mais fiéis ao estilo, se recusando a ouvir os outros e sendo, muitas vezes, até preconceituosos, mas isso mudou hoje em dia, tendo pessoas mais tolerantes e consumidoras desses dois gêneros do topo. Isso não é socialmente ruim, mas tira a chance de crescimento dos bons conjuntos do rock atual, que nascem e morrem sem conhecimento e ajuda externa”. Rodrigo Macário, companheiro de banda, concorda com o amigo e acrescenta: “Hoje, infelizmente, os grandes grupos nascem e morrem e ninguém sabe. Às vezes as pessoas só conhecem depois que acaba e isso é difícil demais para quem está no meio”.

Banda Âncora - (Fotógrafo Lucas Menezes)

Banda Âncora. Foto: Lucas Menezes / Divulgação

Os garotos afirmam que se não fosse a internet favorecendo e facilitando a divulgação dos seus trabalhos, teriam muito pouco, já que não existe o apoio da grande mídia, o que dificulta muito em relação ao reconhecimento maior do público. Mas acreditam que também não é somente ela a culpada. Mateus Costa, recentemente guitarrista da banda, embora há muito tempo viva nesse meio, conta que um dos maiores culpados são os próprios músicos da cena. “Algumas pessoas chegam com um produto que não chama muito a atenção, que não é muito bem produzido e isso não tem a ver com a falta de grana, mas sim, muitas vezes, por não se importarem com a maneira como aquilo acontece. É seu nome que está indo, tem que pensar nisso. Eu falo isso pelo clipe “Entre O medo e a coragem” (último lançamento da banda), em que eles fizeram tudo por conta própria e ficou incrível. A música é um trabalho e você não pode fazer isso de qualquer jeito”, explica.

Johnny acha que, hoje, o download ilegal é o que mais dificulta boa parte da venda de qualquer trabalho artístico, outro motivo que também não facilita ao artista o lucro com o trabalho e que a principal forma de investimento começaria do próprio público pagante. Apesar das dificuldades pelas quais a banda passa, ele diz não desistir e recomenda aos novos artistas do rock que nunca desanimem. “Garanto que todos ouvirão muitos “nãos”, mas o melhor é deixar seu ego e orgulho de lado que a música sempre estará em constante mudança. “O importante é não deixar que mudem sua essência e a mensagem que quer levar”, diz.

A produtora executiva da Âncora, Larissa Queiroz de 20 anos, garante que o rock já teve momentos maravilhosos, mas falando comercialmente esse com certeza não é um deles. “Não é por falta de bandas boas, isso sem dúvida alguma não falta. Por ser underground, acham que estão certos em ‘contratar’ um serviço, um show, uma apresentação e não dar nenhum retorno financeiro. Na cabeça de muitos, é um favor que eles fazem para a banda ao tocar em eventos deles. Se 80% das bandas cobrassem um valor mínimo para o seu show, eles teriam que mudar a respeito disso”. Apesar de muitos desafios, correria e suor, ela afirma que, no fim das contas, eles sempre sentirão um orgulho imenso de fazer acontecer. “Produzir é maravilhoso, viver um sonho e lutar por ele, mais ainda”, finaliza. Já Mateus aproveita para se declarar aos amigos de estrada: “Apesar de tudo, encontrei a Âncora, que foi onde eu mais me senti à vontade, podendo considerar além de banda, amigos e família e isso eu vou poder levar para a vida inteira”.


Reportagem de Barbara Bouças para a disciplina Projeto Interdisciplinar de Jornalismo Impresso

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