Se você leu o livro “Por Trás dos Seus Olhos” e gostaria de ver a história na telona, não vá ao cinema, pelo menos por agora. O filme “Por Trás dos Seus Olhos”, que estreia esta semana, não tem nada a ver com o thriller escrito por Sarah Pinborough. Dirigido pelo suíço Marc Forster, o longa é um drama psicológico que conta a vida de Gina, personagem da bela atriz Blake Lively. Quando ainda criança, Gina perdeu a visão em um acidente de carro. Agora, ela está casada com James, vivido pelo ator Jason Clarke. O casal mora em um modesto apartamento em Bangkok, capital da Tailândia.
Contada de forma linear, a história narra dia após dia a rotina de um casal que vive na dependência afetiva um do outro, e cujo objetivo comum parece ser a vontade de ter um filho. O eixo da narrativa é a relação de Gina com o mundo, incluindo James, que é o seu ponto de apoio e única opção até ela voltar a enxergar. Quando, após uma cirurgia, Gina recupera parcialmente a visão, o casal passa a se ver de outra maneira e afloram sentimentos até então desconhecidos por ambos.
A direção, às vezes tensa e cheia de simbolismos, parece querer transportar o espectador para dentro da história. Utilizando efeitos especiais para distorcer as imagens, repetindo cenas pouco inteligíveis ou reproduzindo detalhes que normalmente parecem sem importância, como destacar o som ao encher um cálice de vinho ou dar descarga no vaso sanitário, propicia ao espectador uma experiência sensorial que cada pessoa pode sentir de maneira diferente.

A linguagem empregada não facilita a vida para o espectador que aos poucos vai absorvendo o contexto como se estivesse numa viagem insólita. Muitas cenas são intuitivas e incompreensíveis em um primeiro momento, como a repetida luta entre peixes que vivem em um aquário na sala do casal, na qual parece a vida de Gina se espelhar. Em outra, a protagonista revive diversas vezes a cena do acidente, trauma que a acompanha durante a cegueira, mas só no fim da história consegue-se compreender que o fato ocorreu quando ela era criança.
A complexidade, sem dúvida, é intencional e talvez o seu maior trunfo, pois a obra chama atenção para o problema da cegueira a partir do ponto de vista da protagonista e permite ao espectador experimentar sensações ao invés de, apenas, se comover. Ao recuperar a visão Gina se transforma, se liberta, assume outra identidade, o que surpreende e desagrada a James, que passa a não saber lidar com a nova realidade. Parece contraditória a reação de James diante da recuperação da mulher, mas também é um dado a ser analisado: o comportamento das pessoas ao perceber que o controle saiu de suas mãos.
Ao final dos 110 minutos de duração, a sensação pode ser de uma obra de arte intimista, densa e corajosa, cheia de mistérios, na qual o espectador atento a este tipo de proposta vai se deleitar explicando para os amigos. Mas, certamente, outra parte da plateia vai fazer outras leituras. A conferir, para ver em qual delas você está!
Francisco V. Santos – 7° período

0 comentário em “Crítica: Por trás dos seus olhos”