Crítica: Os pilares do Brasil em todos os processos de ‘Vazante’, filme da Daniela Thomas

Em preto e branco, a sociedade brasileira nasce à base de um estupro no filme “Vazante”, da diretora Daniela Thomas. Serra Diamantina, Minas Gerais, século XIX. A cineasta e o roteirista Beto Amaral constroem uma história sob a ótica de Beatriz (Luanas Nastas), uma garota branca de 12 anos negociada em casamento com Antonio (Adriano Carvalho), um viúvo fazendeiro escravagista. No longa, os escravos estão em segundo plano, apesar de desempenharem papel importante. É notável a tentativa de incluí-los no enredo central, mas sem protagonismo ou aprofundamento.

Os negros, de fato, são coadjuvantes na história. Mais uma vez. Porém, é possível perceber representada ali uma das mais afetadas pelo patriarcado, com o adendo da violência racial: Feliciana (Jai Baptista), negra estuprada rotineiramente por Antonio. Ela é mãe de Virgílio (Vinicius dos Anjos), que se envolve afetivamente com Beatriz. Contudo, apesar das poucas falas e screen time, os escravos despertam empatia. O fazendeiro, no entanto, só desempenha uma função típica estratégica para atrair um público enfeitiçado pela estética vazia e melancólica.

Não que a intenção tenha sido esta, afinal, as cenas pertencem a Beatriz. Correndo pelo campo ao lado de Virgílio. Ou brincando pela grande casa, a qual não tinha maturidade para administrar. Momentos de descoberta e medo. Acuada diante daquele homem mais velho, a quem tinha obrigação de servir. Entregar-se. O amadurecimento da personagem forçada pela violência e, posteriormente, pela barriga que crescia. Luana Nastas conseguiu transmitir cada fase da menina de modo fiel aos sentimentos e comportamentos exigidos pela vivência de Beatriz.

Mesmo com o pouco tempo de tela, os olhos de Virgílio carregam o significado mais pesado, junto com os de sua mãe. Preocupação, nojo e revolta por ver Feliciana levantar no meio da noite para servir aos desejos sexuais de um homem branco e mais velho. São flashes de um olhar forte que não se manifesta de maneira política, organizada, revoltosa. A fuga de alguns escravos figurantes não carrega peso que a mobilização de personagens principais ou coadjuvantes teria.

Nem mesmo no que se refere às características culturais de tribos existe atenção. Não houve preocupação com isso, mesmo porque a língua de alguns negros escravizados não é sequer legendada. Como parte da origem da sociedade brasileira, mereciam mais voz. Seria, então, a reprodução da imposição da cultura portuguesa ou a reafirmação desse poder? Realmente, a história é contada a partir do ponto de vista de uma pessoa branca.

Cena do filme 'Vazante', da Daniela Thomas. Foto: Inti Briones / Divulgação

Cena do filme ‘Vazante’, da Daniela Thomas. Foto: Inti Briones / Divulgação

A fotografia, enquadramento e edição de cenas garantem a velocidade desejada pela cineasta. Um ritmo lento e melancólico que não dá conta da pesada e intensa vida fora da casa grande. Uma nova maneira de ambientar os tempos da escravidão e do casamento arranjado? Na verdade, uma estética diferente do que se espera de um filme que lida com tema tão marcante e doloroso da história. Mesmo assim, o enredo complementa a construção de sentido, sobretudo nos últimos 20 minutos do longa.

A mulher branca burguesa está ali, é claro, com seus problemas. E a negra escrava é representada também com suas dores, seja pela subserviência da mucama Joana (Geisa Costa) – que tinha que tomar conta de Beatriz – ou pelo papel de objeto sexual imposto à Feliciana. Talvez seja preciso engajamento social, da história da mulher (negra e branca), para entender a relação de poder construída durante todo o filme e sua culminância por fim.

Mesmo que a intenção tenha sido protagonizar a adolescente branca vítima do patriarcado, ela não termina em si, como um indivíduo – claro ao menos para quem pôde captar os outros significados gerados pela história. É possível identificar ali estruturas sociais que perduram ainda e que, naquele momento, permitiram um privilégio primordial a personagens: o direito à vida. E ao protagonismo, em teoria, também.


Jefferson Alves – 6º período

2 comentários sobre “Crítica: Os pilares do Brasil em todos os processos de ‘Vazante’, filme da Daniela Thomas

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